A cold night

30 Maio 2007

Hoje foi o dia mais frio do ano. E eu não preciso que o jornal ou a TV me digam isso. Se eu sinto frio nos joelhos, é porque o negócio está feio, very ugly. Justo hoje comecei meu curso de inglês. Sim, de volta às salas de aula. Tentar preencher esta lacuna (chavão) na minha formação. E nada de escolinhas, de aulas de uma hora, duas vezes por semana. No, guy, agora é sério. Intensivo, de segunda a quinta, duas aulas de 50 minutos… Escola perto de casa? No, man! Are you fuck crazy? É no Cambuí, longe, pegar ônibus. Para voltar, quem disse que tem bus passando à porta? I walk alone até o Centro.

Eu, chegando em casa 

Agüentarei a rotina nesse puta frio? Terei paciência para fazer dever de casa (homework?)? Conseguirei não matar a aula em que ponho fones de ouvido e tenho uma conversation com uma fita? Sobreviverei aos bares de playboy que cercam a escola? Espero que sim. Pelo menos um ano tenho que agüentar. Pelo valor da mensalidade (como digo “facada no rim” em inglês?), tenho que aproveitar. Só preciso de um par de luvas, um gorro e mais roupas de frio. Afinal, chegar em casa com nariz, orelhas e mãos congelando não é a experiência mais agradável do mundo.


Meninos, eu vi: sardinha, assalto e neosaldina

27 Maio 2007

O relógio ainda não marcava 13h30 quando o telefone tocou. Do outro lado da linha, Bruno Ribeiro chamava para apresentar-me um bar. Explicada a localização, tirei o pijama e fui em direção ao Centro, no primeiro ônibus que passou. Das vantagens de Campinas, uma é poder ir de um bar para o outro sem necessidade de veículo automotor, o que dá margem para acontecimentos como uma maratona de bares, por exemplo. Não foi exatamente o que aconteceu naquele sábado de sol, mas chegamos perto.

O Bar [fico devendo o nome] é pequeno. Quando cheguei, o Bruno tomava a abrideira (creio eu) apoiado no balcão. Só havia uma mesa, que logo ocupamos. Outras estavam empilhadas ali perto. O chão, cheio de bitucas de cigarro. Os freqüentadores (dentre eles um velho barrigudo e de bigode branco) dividiam espaço com os engradados de cerveja, cujas garrafas vazias a dona fazia de cinzeiro. Para mim, nenhum problema. A cerva sendo barata, não me importo com mais asseio.

O Bruno jurava que o lugar tinha a melhor sardinha que ele já havia comido, entrando nessa conta os bares de Campinas e os do Rio de Janeiro que o nosso cronista do butiquim (corrija a grafia e terá nosso desprezo) havia freqüentando. Meninos, eu comi. As sardinhas vêm sequinhas, nem parece que foram fritas. Uma casquinha crocante cobre os peixinhos, que não possuem nenhuma espinha. Não é preciso mais molho além de umas gotas de limão. Anthony Bourdain se encantaria. O preço, não me pergunte. Não paguei a conta.

Sardinhas (a)provadas, era hora de mudar de bar. A tarde era uma criança e o mestre precisava mostrar ao aprendiz quais os melhore bares de Campinas. Mas antes de chegarmos ao Bar do Maurício, uma pausa para a vida como ela é…

* * *

O assalto
Íamos andando tranqüilamente pela José Paulino, falando amenidades, quando ouço uma moça dizer: “Ou!”. Um homem passa de bicicleta por nós. A moça, num tom de voz tranqüilo (depois eu percebi que era atônito), diz: “o cara roubou minha bolsa”. O sujeito já estava bem adiante quando eu avisei para o Bruno: “o cara roubou a bolsa da mina”.

No meu pragmatismo, já havia calculado a distância em que o larápio estava e a condição física dos boêmios. Não havia mais o que fazer. Mas o Bruno resolveu agir. “Vamos ver se a gente alcança ele”. No caminho – meninos, vocês tinham de ver – o Bruno ainda deu uma parada brusca, parecendo de desenho animado, para pegar uma pedra solta do calçamento. Mas não havia mais sinal do meliante. Só nos restou dar um dinheiro para a moça pegar o ônibus de volta para casa. Vamo andando que o Mercadão ta fechando.

* * *

O Bar do Maurício [também fico devendo o nome, se não for esse] fica no Mercado Campineiro, uma versão século XXI do tradicional Mercadão. O lugar estava lotado e não havia mesas. Em compensação, tomamos uma Heineken 600 ml que o Maurício não quis cobrar. Eu vi copos de cerveja de formatos até então desconhecidos. As pessoas bebiam de pé cervejas de várias marcas (o Bruno me disse que tem cerveja de R$ 50 a garrafa – de cerâmica).

Como é contra nossos princípios beber de pé sem ao menos um balcão, zarpamos para a saideira. Ali na Praça Carlos Gomes, paramos num bar que fica num casarão histórico. Coisa linda, a fachada. Meu parceiro disse que estava “empapuçado” de cerveja e ia pedir uma caipirinha para encerrar. Eu, para não fazer feio, pedi uma também. “De pinga ou de vodca?” Diante de mim, um patriota dizia a resposta óbvia. Eu não ia decepcionar meu amigo e arrematei: “para mim também, de pinga”.

Meninos, eu vi. Eu vi as luzes do centro quase me cegando; minha cabeça parecia ter uma furadeira atrás dos olhos (onde eu ouvi isso?) de tanto que doía. Fiquei sentado no ponto de ônibus, ansioso que passasse logo um para me levar para o descanso do lar, mas me arrisquei a perder o bonde para entrar numa farmácia e comprar um analgésico. Era questão de vida ou morte.

“Você tem Doralgina, aí?”
“Com Doralgina nós não trabalhamos, senhor”
“Doralgina é… genérico da… Daquele lá…” – eu não acreditava que alguém que trabalhasse numa farmácia não dissesse logo o nome do remédio.
“Nós temos Neosaldina”
“Eeeesse!!!”

Assim que saí do estabelecimento, passou o meu ônibus. Engoli o comprimido assim que me sentei. A furadeira, agora, além de ligada, parecia se movimentar para cima e para baixo. E o mais incrível de tudo, meninos, não foi o assalto, não foi a dor de cabeça, nem a alta qualidade do que comi e bebi. O mais incrível é que, quando eu me despedi do Bruno, ele falava tranqüilamente em tomar um banho para ir até a casa de um amigo. Estava sóbrio como quem tivesse bebido água a tarde inteira.


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22 Maio 2007

As invasões bárbaras, filme do franco-canadense Denys Arcand, me mostrou a melhor forma de morrer em paz. Não há morbidez nenhuma no que estou dizendo. É muito mais confortável quando compreendemos que a morte é tão normal quanto o nascimento. A única certeza da vida é que ela acaba. E já que vou morrer, quem me dera fosse como o personagem Rémy, muito bem interpretado por Rémy Girard. Se tivesse escolha, quando fosse a hora de eu deixar esse mundo tão cruel, mas tão saboroso (meu Deus, como é saboroso), eu queria estar numa casa à beira de um lago, ou da praia, cercado dos meus melhores amigos. Só comeríamos a melhor comida: bacalhoada, moqueca, vatapá, galinha ao molho pardo, estrogonofe, acompanhada de vinhos e cervejas. Que não me fizessem restrições. O que podem negar a um homem no fim da vida? Qual o sentido de lhe privarem dos prazeres que ele teve de evitar durante toda ou quase toda sua existência? Por isso, não quero que me neguem nada. Como o filho de Rémy – o mesmo que não se furta em subornar, correr o risco de ser preso, gastar dinheiro, para dar um último privilégio ao pai.

Meu filho, que há de ser como o de Rémy, convocaria os meus amigos, que, provando serem amigos, não iam se importar com coisas passageiras como emprego, casamento, saúde ou dinheiro. Estariam todos ao meu lado. Lembraríamos o passado, nossos sonhos, ilusões e desilusões. Falaríamos um monte de bobagens e sacanagens. Daríamos risada da nossa ingenuidade, das nossas farras, dos nossos amores não correspondidos… E bem que elas poderiam ir se despedir de mim. Todas as mulheres por quem me apaixonei, se tiverem um mínimo de consideração, vão me dar o (talvez) primeiro e (certamente) último beijo. E nada de choro. Que ninguém tenha pena de mim. Seria como se estivessem ali apenas passando um fim-de-semana como qualquer outro. E se, em algum momento, eu sentisse medo de sofrer ou de sentir dor, eu pediria para morrer de uma vez. E não ia dar tchau para ninguém. Não gosto de me despedir quando vou voltar, imagine quando souber que não volto! E não ia repetir que amo a todos. “Todo mundo me deu um abraço hoje? Um beijo? Já tomamos todo o vinho e a cerveja do estoque? O tempo vai esfriar? Fulana, você ainda dá um caldo. Acabou o camarão? Ih, já contei essa história hoje? Então vão cuidar das suas vidas, que para mim já deu.”


Negra Linda

21 Maio 2007

O Pedrão, amigo dos tempos de faculdade (como se fizesse décadas que de parti), músico e, mais recentemente, blogueiro, fez os comentários pertinentes acerca do cunho artístico da Virada Cultural de Campinas. Eu, um ignorante no que toca à música brasileira, posso então me abster de falar do que se ouviu no evento.

Fui no sábado, pensando ir de encontro a uns sambas da velha guarda, ouvir alguns “hits” do meu Windows Media Player, como “As mariposas” e “Saudosa Maloca”, de Adoniran Barbosa. Só na porta da Estação Cultura vim a saber que os shows seriam de Tom Zé e Negra Li. O samba era em outro lugar. Tudo bem, tudo bem… De qualquer forma seria um evento a ser prestigiado, haja vista os diferentes espécimes que vão a esse tipo de festa.

Assim que entramos, dei de cara com duas (belas) meninas se beijando fortemente em meio ao povaréu. Cena linda de se ver. Não satisfeita, uma delas puxou outra moça da rodinha e tascou-lhe outro beijaço demorado. Eu lamentava pelos meus amigos, que tinha perdido de vista e imaginava estarem perdendo o espetáculo. Ledo engano. Os dois se deslocaram para um local onde a vista era bem melhor.

O lugar não estava tão lotado quanto eu esperava. Ainda bem. Depois do no mínimo engraçado show de Tom Zé (sabe a expressão “Mais louco que o Batman”? Já faz um tempo, o Jão implantou em nosso vocabulário uma versão radical desta: “mais louco que o Tom Zé”. Daí você pode ter uma noção da sanidade do sujeito), veio a apresentação de Negra Li.

Sobre a música, reitero: me abstenho de comentários. Mas posso dizer que não consegui tirar os olhos da moça. Li tem uma grande… como se diz… beleza brasileira. É por isso que, desde então, a Fergie que me desculpe, mas eu sou muito mais a Negra Licious!

P.S.1: E para entendidos ou não de música, vale ler a matéria que o Léo publicou em seu blog, sobre os emos brasileiros. Que Lúcio Ribeiro, que nada!

Atualização -22/05, 1h32
P.S.2:
Bem que eu desconfiei dessa Virada. O Bruno conseguiu escrever o seu mais recente melhor texto (é, está sempre superando a marca do momento). Sinta o drama pelo título: “Virada Cultural é o caralho!”. Sai desse blog medíocre e vai ler uma coisa boa!


Blogs

17 Maio 2007

Há muitos blogs bons que eu não conheço. Alguns eu chego a conhecer – e vejo que são bem legais – mas, por algum motivo desconhecido, nunca volto. Outros eu adiciono aos meus favoritos para não esquecer de voltar. Mas esqueço. Os blogs dos amigos eu leio sempre. Porque são legais, mesmo. Mas outros amigos deveriam ter blogs e não têm. Gente que tem sacadas que dariam um blog bem legal. Mas eu respeito a opção deles. Manter um blog é bom, mas escraviza.

Humor MarromTem gente que eu só conheço graças aos respectivos blogs. Uns eu nunca ouvi a voz e moram bem longe; mas trocamos altas idéias. Um deles teve vários blogs e hoje não tem nenhum. E que falta me faz ler com regularidade os escritos dessa pessoa. Eu já troquei e-mails com blogueiros que curto muito. E um já me indicou (aumentando consideravelmente minha audiência).

Tem blogs que indicam o meu sem que eu saiba. Às vezes descubro mais um (são dois ou três, que não achei de novo para lincar). Uns são tão humildes que nem pedem para eu dar uma passada (como eu faço); nem comentam um post qualquer (alguém vai clicar no nome e vai chegar no blog deles). Minha mais recente alegria blogueira foi ser lincado por um cara que é uma referência de Jornalismo Gonzo para mim. E de blog que não precisa ser atualizado o tempo todo.

Blogs “oficiais” geralmente não funcionam. São feios, de difícil navegação, têm endereços enormes e uns chegam a colar links inteiros [Ugh! (calafrio)]. Em um ou outro “oficial” eu bato cartão. Gente da antiga que pegou a manha do blog. Há blogs que eu simplesmente abandonei. Parei de achar graça. Outros eu sei que são engraçados, mas esqueço de acessar.

Graças ao meu blog, me pediram para escrever (de graça) para um site bacana. Quando mandei o texto, o editor disse que não dava para publicar porque o texto era “de blog”. Não combinava com o site. Em compensação, já fui pago para escrever “do jeito que você escreve no seu blog”.

fiambresTem blogs que só leio “por atacado”. Quando me mandam a newsletter ou quando faz tempo que não acesso. Outros eu acesso todo dia. Para mim, começar um blog e abandoná-lo no primeiro ou segundo post é um pecado mortal. Apague de uma vez, oras! Fica aquela coisa lá… Me dá a impressão de que está ocupando o espaço de algum blogueiro nato, que está fora da blogosfera porque não tem mais onde criar o seu blog. É, eu sei que não tem nada a ver. Coisa de blogueiro.


Quando você sente a espinha congelar

15 Maio 2007

Eis que chega, ainda que de mansinho, meu maior inimigo desde que me mudei para Campinas: o frio. Até que está bem suportável, nesses dias. Continuo usando bermuda e chinelo. Uso, no máximo, mais um cobertor para dormir. Bem diferente das vezes em que cheguei a calçar três meias de uma vez e me cobri com quatro cobertas por cima do lençol. Mesmo o frio não estando ainda a maravilha que tanto agrada alguns, um de seus piores efeitos já começa a ser notado. A ida ao banheiro. O Léo traduziu boa parte da minha aversão ao frio.

Para meu desespero, assim que minhas nádegas tocaram o assento, senti minha espinha congelar. Era como se eu tivesse mergulhado pelado, ao lado de focas e pingüins, nos mares da Antártida. Ali mesmo eu perdi toda a vontade. Aquele momento, antes tão cultuado, não fazia mais o menor sentido pra mim. Claro que existem alternativas, como sentar-se ainda de roupa e esperar que o assento esquente, para, então, ficar como se deve. O problema é que nem sempre há tempo suficiente para caprichos.

Lembro de uma manhã congelante na faculdade, em que o Léo disse algo mais ou menos assim: “Bom pra dormir? Bom é dormir de cueca! Bom pra comer fondue? Bom é comer churrasco com cerva na beira da piscina!” É por essas e outras que eu leio o Naramig.


Aula de Jornalismo

11 Maio 2007

O livro que mais me ensinou sobre jornalismo foi escrito por um chef. Cozinha Confidencial, de Anthony Bourdain, tem ensinamentos preciosos sobre trabalho em equipe, dedicação, carreira e escrita – essa última pelas linhas divertidíssimas que o escritor-chef traça nas mais de 300 páginas do livro. Digno de um discípulo de Hunter Thompson que é, Bourdain faz com que a leitura desta mistura de memórias com lições seja tão deliciosa quanto o mais sofisticado prato de seu menu.

Se ele cozinha tão bem quanto escreve, você tem um compromisso com seu paladar quando for a Nova York. Não deixe de comer no Les Halles, o restaurante em cuja cozinha praticamente moram Bourdain e seus excêntricos subordinados. Assim como a faculdade de jornalismo, parece que a cozinha é o lugar dos que não sabem o que querem da vida. A única diferença é que os estudantes têm quem gaste dinheiro por eles, enquanto os lavadores de prato, cumins e padeiros precisam ganhar a vida.

Há trechos do livro que deveriam ser copiados e pregados em todas as redações. Aliás, Cozinha Confidencial é muito mais útil do que qualquer manual de redação. Você, caro estudante de jornalismo ou recém-formado, quer mesmo entrar para esse ramo? O tio Anthony dá algumas dicas. Quando ele disser chef, imagine algo como diretor de redação, editor-chefe ou mesmo repórter. Quando ler fornecedor, pense numa fonte ou em qualquer outra pessoa que não seja seu chefe. Vamos lá.

Quer dizer então que você quer ser um chef? Você quer mesmo, de verdade, no duro, se tornar um chef? Se esteve trabalhando num outro ramo de negócios, se está acostumado a operar das nove às cinco, com nos fins de semana e as noites de folga, tirar férias com a família, fazer sexo regularmente com sua outra metade dileta; se está acostumado a ser tratado com um mínimo de dignidade [...], então talvez você devesse pensar um pouco melhor em tudo que terá de enfrentar [...]

Eu não estava brincando quando disse antes que, pelo menos no começo, você não tem direito nenhum, não está autorizado a expressar opinião ou personalidade e que será tratado como gado – só que com menos utilidade. Acredite.

Pavoroso, não? Mas se você tem alguma vocação para o jornalismo, vai saber que não se deve acreditar em ninguém – muito menos em jornalistas. Se você acha que eles não mentem, não erram ou não exageram, caia fora. Se tem um mínimo de senso crítico e sabe bem o português, “Bem vindo ao meu mundo!”, como diz Bourdain. “E pense nestas sugestões em relação a conduta, atitude e preparo para a trilha que pretende seguir.”

1. Comprometa-se de corpo e alma. Não fique em cima do muro e não enrole. Se você vai ser um chef um dia, então esteja certo disso, seja obcecado em sua determinação de chegar à vitória a todo custo. [...] Apronte-se para obedecer a ordens, para dar ordens quando for preciso e para viver com as conseqüências dessas ordens sem queixumes. Esteja pronto a liderar, a obedecer ou a sair do caminho.
[...]

3. Nunca, jamais, aceite propinas ou caixinhas de um fornecedor. No fim, eles acabam tendo você nas mãos, e quanto a você, terá vendido seu melhor ativo como chef – sua honestidade, sua confiabilidade e sua integridade – num negócio em que essas são qualidades quase sempre raras e valiosíssimas.
[...]

5. Nunca invente desculpas nem culpe os outros.

6. Nunca ligue dizendo que não vai trabalhar porque está doente. Exceto em casos de desmembramento, hemorragia arterial, feridas fundas no peito ou a morte de um integrante próximo da família. A vovó morreu? Enterre-a no seu dia de folga.

7. Preguiça, relaxamento e moleza, não. Empreendedor, engenhoso e hiperativo, sim.

8. Esteja preparado para testemunhar todos os tipos de loucura e injustiça. Sem deixar que isso mexa com sua cabeça ou envenene sua atitude. Você simplesmente terá de agüentar as contradições e iniqüidades dessa vida. [...]

9. Presuma o pior. A respeito de todos. Mas não deixe que essa perspectiva envenenada da vida afete sua atuação profissional. Deixe isso para lá. Ignore. Divirta-se com as coisas que vê ou suspeita. Só porque alguém que trabalha com você é um cretino miserável, traiçoeiro, caprichoso, corrupto e interessado apenas em tirar vantagem não deve impedir que você curta a companhia dele, trabalhe com ele ou o ache divertido. Neste ramo, os cretinos brotam com imensa facilidade [...]

13. Leia! Leia livros [...], revistas [...].
14. Encare as coisas com senso de humor. Você vai precisar.

E assim como Bourdain mostra que comer é muito mais do que encher a barriga, saiba que escrever para os outros é muito mais do que abrir o Word e digitar um monte de declarações. Não importa se você comenta novelas ou faz reportagens sobre a política externa do Cazaquistão: seu trabalho deve ser feito com carinho e respeito ao leitor. Ele não tem nada a ver com o fato de seu chefe ser um chato ou seu salário ser baixo. Quer ganhar dinheiro? Mude de ramo. Se você é um jornalista por vocação, é um masoquista. Resmunga e xinga, mas não muda de profissão por nada.


Coincidências e sósias

8 Maio 2007

Já disseram que blog de jornalista tem o que ele leu no jornal. Bom, acho que não escrevo tanto assim de minhas leituras diárias. Leio a coluna da Cecília Giannetti na página 2 da Ilustrada, em que ela fala de coincidências. Vou para a página 3 e dou de cara com um texto de um filósofo entrevistado pelo meu grupo no Curso Abril. Para completar uma série de coincidências, só faltava me ligarem da Abril. Então toca o telefone… Mas é o Markito. Vamos beber, que trabalhar ta difícil.

* * *

E José Simão pode ter descoberto a razão do meu medo do papa. Ele lembra que Bento XVI é a cara do Hannibal Lecter, vivido no cinema por Anthony Hopkins.

Joseph ou Anthony? Bento ou Hannibal?

* * *

Sobre o post anterior. Sim, eu concordo que a Rolling Stone é muito boa. Para mim, nas reportagens que não sobre música, principalmente (mesmo a do Pinky Floyd tendo sido de arrepiar). É que eu não compro a RS desde a edição número 4, com Rodrigo Santoro na capa. Não que eu seja fã dele (ui), mas porque depois daquele número me vi ilhado por publicações abrilianas e não tive mais tempo de ler outra coisa. Vou pegar emprestado os números que perdi.

* * *

P.S.: Procurando a foto do Hannibal, olha o que encontrei…


Minhas revistas favoritas

6 Maio 2007

A idéia era publicar sempre uma crítica das revistas do mês, um pouco como faz Santiago P. Fusco em NoMínimo . A diferença é que eu me dedicaria a publicações de segmentos diversos – e como sou um primo pobre no jornalismo, falaria basicamente de texto, não de lindas mulheres. Contudo, minha fonte de revistas grátis secou. Pensando bem, se eu tivesse de escrever, todo mês, sobre as mesmas revistas, elas perderiam um pouco desse encanto que me proporcionam. Porque ler uma boa revista é muito mais do que passar os olhos em algumas matérias. É mais do que saber algo que não sabia antes. Ler uma boa revista é ler palavras, mas também imagens, o desenho de uma página, ilustrações, fotos… É também uma experiência tátil e olfativa. Apreciar os diferentes formatos, os diferentes tipos de papel. O que se segue abaixo não é um ranking. A ordem é totalmente aleatória e os critérios são os mais subjetivos possíveis. São apenas as que mais leio e que mais gosto.

Trip
As reportagens continuam excelentes; os ensaios, lindos. Mas, pelo menos nas edições de março e abril (2007), a revista está impondo ao leitor uma publicidade inconveniente. A edição de março traz um anúncio, de um refrigerante, que invade a capa! Uma extensão da quarta capa, na forma de um homem, “beija” a bela Bel Coelho. Para abrir a revista, ou o leitor corta o tal “apêndice”, ou cola e descola toda vez que for ler a revista ou dobra o anúncio lá atrás. Horrível. Mas a Trip ainda é uma revista bacana. As matérias ótimas predominam. E as edições temáticas causam boas surpresas, como as sobre alimentação, que conseguiram falar de comida até nas críticas de discos. Essas duas (abril de 2006 e março de 2007) certamente são as melhores dessa safra das “fórmulas para a felicidade”.

National Geographic Brasil
Uma revista que merece todas as recomendações é a National. É perfeita, e não digo isso para não ter que dizer mais nada. Todas as edições que possuo são interessantíssimas do início ao fim. As fotos são maravilhosas, os textos, extremamente bem cuidados, e há um equilíbrio entre os assuntos tratados em cada edição. Você lê (por textos e fotos) sobre geografia, história, fauna, flora, saúde, astronomia… E naquele formato ótimo de manusear – menor que a maioria das revistas –, num papel de alta qualidade. É uma experiência soberba. Como a revista é apenas um braço da gigante National Geographic Society, você, um reles leitor, tem o privilégio de estar lendo uma reportagem que relata os resultados de uma pesquisa sobre os tubarões das Bahamas, por exemplo, e se deparar com um “aviso”: “Apoio NGS. Este projeto é parcialmente financiado por sua assinatura”. Você se sente um verdadeiro mecenas da preservação da biodiversidade.

Superinteressante
Esta aí uma revista que lamento não ter lido mais na adolescência e na faculdade. Nas reportagens, os assuntos são tratados de uma forma que foge do que todo mundo já disse. Às vezes o assunto foi falado à exaustão, como a redução ou não da maioridade penal, por exemplo. A Super mergulha naquilo e faz aquelas perguntas que não foram feitas, ao invés de ficar juntando opiniões favoráveis e contrárias, apenas. O design merece uma menção à parte. As páginas são para ler e para admirar. Na ilustração da matéria sobre as grandes corporações, por exemplo (edição de abril de 2007), o ilustrador desenhou um quarteirão, com prédios e ruas, com os símbolos das empresas. O que às vezes me incomoda é a grande quantidade de páginas dedicadas às sessões. Sinto um excesso de Superrespostas, por exemplo. Mas leio todas.

Aventuras na História
Outra revista excelente para entender o mundo. Se você lê a Super e a História todo mês, merece meu respeito. Mas tenho a sensação de que a História, também, poderia ter menos seções e mais reportagens. Sim, é uma forma de equilibrar textos curtos e longos. O que importa é que Aventuras na História é uma revista honesta. Inclusive, parece que acadêmicos gostam dela. E como sou jovem, acredito que os jovens também. Para quem não sabe, ela é “filha” da Super e já está dando “netos”, como a bimestral Grandes Guerras – que ainda carece de mais carinho no design, mas tem a honestidade das suas familiares.

VIP
A revista masculina que eu recomendo é a VIP. Para ler, que fique claro. Pelos ensaios “sensuais” não valeria sua grana (compre Playboy e Sexy), mas as matérias são numerosas e de qualidade. Muito divertidas, com destaque para as do Marcelo Orozco. As seções são menos rígidas. Tem uma que, a princípio, seria: “Grandes Brasileiros Vivos”. Em duas edições, pelo menos, eles “riscam” o “brasileiros vivos” e acrescentam “americanos mortos” e “americanos birutas” para encaixar, respectivamente, o escritor Sidney Sheldon e os cineastas Jerry Zucker, Jim Abrahams e David Zucker, de Corra que a polícia vem aí. É uma revista que consegue falar com o homem que quer “curtir a vida”, por pior que seja esse bordão.

Piauí
Eu disse outras vezes que merecia um emprego na Piauí de tanto que escrevo sobre ela. O máximo que me deram foi uma assinatura, e não foi por falar bem. Bola pra frente. Um dos fortes da revista é a quase ausência de seções. Em cada edição você pode encontrar textos que podem se encaixar na categoria ensaio, reportagem, humor… O paradoxo é que a melhor parte é uma seção, a “Esquina”. É ali que mora o mais próximo que encontramos na imprensa brasileira do Jornalismo Literário. Textos não tão longos e bem escritos, que ignoram o que tanto me atrapalha como jornalista: o maldito “gancho”. Para quem não sabe, “gancho” é como os jornalistas chefes chamam a razão para você escrever uma matéria. Por exemplo: por que falar do Vaticano nessa edição? Porque o papa vem aí. Entendeu? Isso me irrita. Nem sempre acho que um assunto merecia tanto espaço e às vezes gostaria que um texto tivesse sido mais bem escrito. Mas minha relação com Piauí é quase passional. Desde que João Moreira Salles mencionou numa entrevista (acho que em 2004) que pensava em criar uma revista de grandes reportagens, esperei ansiosamente.

Época
Na verdade, eu raramente leio alguma revista semanal, mas a que me chama mais atenção ultimamente é a Época. Ela parece seguir um caminho alternativo ao de suas concorrentes. Pôs o iPhone na capa quando as outras martelavam algum assunto já batido. Época parece mais ligada com o tempo do que as rivais, que falaram sobre o YouTube, por exemplo, quando todo mundo já o usava a torto e a direito.


Bicho Papão

1 Maio 2007

Quando estou lendo o jornal e vejo uma notícia falando do papa, eu ignoro. Faço um muxoxo, uma expressão blasé, e comento com meus botões: “E eu com isso?”. Tem tanta gente assim dando importância ao fato de que Bento XVI vai “permitir” que se use camisinha? – desde que seja para o sexo entre pessoas casadas e que um tenha o vírus do HIV. Alguém ainda parava para pensar, “Hmmm… Não posso usar camisinha, a igreja não deixa.”? Aí reclamam que estão perdendo “fiéis”.

O papa vem ao Brasil e o governo e a prefeitura de São Paulo vão gastar uma nota para garantir a segurança e o conforto do “sumo pontífice”. Aquele monte de gente vai lá venerá-lo, sendo que ninguém o conhecia até pouco tempo. E todo mundo sabe que não foi Jesus quem desceu à Terra para dizer que ele deveria ser o sucessor de João Paulo II. Um bispo brasileiro revelou em off a um jornal que o lobby que Ratzinger fez para poder ganhar foi, no mínimo, agressivo.

Vossa Santidade vem também oficializar mais um santo. Eu nunca vi uma religião que se diz monoteísta ter tantos “deuses paralelos”. É um milagreiro para cada coisa: dos motoristas [São Cristóvão, afinal, carros são uma criação divina], dos solteiros [Santo Antônio, o “santo casamenteiro”], Santo Expedito [causas urgentes]. Não tem nenhum para ações de longo prazo? Tipo São Mangabeira? E agora querem transformar o antigo papa em santo.

Eu normalmente nem comento essas coisas porque as considero simplesmente irrelevantes. Mas o que eu não revelei até hoje é que, na verdade, eu tenho medo de Bento XVI. Assim como Michael Moore diz que se caga por George W. Bush, que ele tanto critica, parece que Ratzinger passou a mostrar a cara na mídia para me amedrontar. Ele é agora o que foi a Cavala na minha infância. Um monstro que só deve existir para algumas crianças baianas. Quando eu entro no meu quarto, no escuro, é a imagem dele que imagino, com os olhos vermelhos, brilhando, a me esperar para levar-me a uma sala de torturas.

Eu imagino Ratzinger num uniforme militar preto [a menção de que ele fez parte das tropas nazistas, mesmo tendo desertado, me causou essa associação], de botas até os joelhos, com um chicote na mão direita, batendo na perna enquanto caminha por um corredor escuro e úmido. O som de seus passos causa eco naquele silêncio mórbido. Então abrem uma porta de ferro e lá estou eu, sentado numa cadeira no centro de uma cela de paredes de pedra. Um feixe de luz me ilumina. Estou amarrado, nu, molhado, tremendo de medo e de frio. Ele fala de longe, olhando para mim, do alto de seu poder. Depois chega bem perto do meu rosto e murmura alguma coisa assustadora que me faz ter calafrios.

Ele é o Goldstein e eu o Winston Smith de 1984. Assim como Smith, eu também odeio ratos, e Godstein/Ratzinger ameaça pôr minha cabeça dentro de uma gaiola cheia de ratazanas imensas, peludas, sujas e sedentas de sangue. É mais por isso que eu ignoro as notícias sobre Bento XVI. Fosse o anterior, também não daria importância, mas Karol Woytila me dava pena. Todo frágil e não renunciava ao fardo de viagens e discursos.

É por isso que, enquanto Ratzinger estiver aqui, eu estarei no meu quarto, isolado, pulando as páginas do jornal que vão falar dele. Não vou ver televisão. Vou assistir um DVD atrás do outro e só acessarei sites confiáveis. Manter os olhos fechados enquanto a luz estiver apagada é uma boa também. Nunca se sabe se o Bicho Papão estará lá.