A gente vai embora e pensa que nada vai mudar com a nossa ausência. Algumas pequenas adaptações na casa, menos uma boca para comer, mais uma cama livre, mas nada substancial. Porto Seguro é a mesma sem mim. Não tinha nada a contribuir com a cidade, fui embora sem hesitar. Do pessoal da escola, quase ninguém ficou por lá. Vão ver os pais nas férias, reencontrar os amigos e voltam para suas vidas. Minha família vive muito bem sem mim.
Quando chego, ainda encontro o amigo que, depois que terminou a escola, em 2002, permanece de férias. Os amigos que fiz por lá depois que mudei para Campinas seriam meus amigos hoje, da mesma forma, se eu não tivesse vindo embora. Tudo continua como deixei: turistas barulhentos, comércio decadente e gente que volta para sua terra depois da aventura fracassada no sul da Bahia.
Em Campinas, eu achava que tudo havia permanecido como deixei. A galera do fundão, da faculdade, correspondeu às minhas expectativas e está na ativa, construindo uma imprensa melhor na região. (Lembro da frase de um importante jornalista da cidade, durante um concorrido processo seletivo para estágio em sua emissora: “A turma do fundão costuma ser a mais criativa”.) Mas eu fiz falta a pelo menos uma pessoa.
Fui embora para São Paulo, estou curtindo minha independência financeira, achando que não devo nada a ninguém, quando me dou conta de que alguém ainda precisa de mim. Minha tia-avó, 85 anos, com quem morei nesses quatro anos em Campinas, ficou muito triste com minha partida (mesmo com as freqüentes visitas) e ficou de cama. Os médicos nada diagnosticaram de físico: é puramente emocional.
A gente vai embora, mas nem sempre pode deixar tudo para trás. E não podemos voltar apenas para curtir, para rever os amigos, para organizar churrascos como os dos velhos tempos. Às vezes tem gente que simplesmente precisa de nós, muito mais do que de qualquer outra coisa. É preciso levar em conta não só a nossa, mas a saudade dos outros.