Estou no Campus Party Brasil, me procure por lá

11 Fevereiro 2008

Seguinte, negada:

Ainda (ainda!) devo aquele post sobre o Rio de Janeiro, mas ainda (ainda!) não será agora. A razão, desta vez existe: estou cobrindo o Campus Party Brasil, o maior evento de internet (e uma caralhada de coisas relacionadas ao mundo geek) do mundo. É a primeira vez que o evento acontece fora da Espanha (foram 11 edições lá). Ou seja: é foda.

Me acompanhe nesta semana por aqui (favorita aí). E toma aí o link por extenso, é bem curtinho e sei que vai decorar e falar para os seus amigos.

http://www.abril.com.br/diversao/blog/campus-party-brasil/


São Paulo tem cada uma…

18 Janeiro 2008

Placa na Rua Teodoro Sampaio diz Famlia vende tudo

Placa na Rua Teodoro Sampaio, São Paulo: mudança de guarda-roupas ou de casa?


Porque eu gosto de São Paulo

29 Dezembro 2007
Praia de Trancoso, Bahia

Gosto de céu também…

Trancoso é o lugar mais lindo que eu conheço. Não tenho muitas milhas rodadas para poder dizer que é o mais lindo entre todos do mundo. Mas, certamente, é o mais bonito entre os poucos que pus os pés. E mesmo que encontre outro lugar cuja simples visão seja melhor, creio que será difícil encontrar outro em que eu me sinta tão bem.

Assim que piso naquela terra, sinto uma comunhão entre mim e ela (uma coisa meio John Locke e “The Island”, na série Lost). Isso ainda antes de chegar à praia, esta sim, o melhor lugar no melhor lugar do mundo. Porque, para mim, não existe lugar que eu goste mais do que praia. Se a de Trancoso é a minha favorita, logo, a praia de Trancoso é o melhor lugar para estar.

Praia de Trancoso, Bahia

Cachorrinho feliz

Esqueço tudo. Limpo minha mente. Me concentro, sem nenhum esforço, apenas na vista e no som do mar. Vale qualquer esforço, qualquer sacrifício. Só quando me afastei da praia foi que entendi sua importância em minha vida. Não gosto da praia porque tem gente, porque “rola azaração”, nada disso. Gosto do mar. Puro e simples. Quanto menos gente, melhor.

Quando olho aquele mar azul de Trancoso, voltar para ele passa a ser a única razão para eu trabalhar o ano inteiro, morar em São Paulo, suportar diariamente aquela poluição do ar, visual e sonora. Todo o resto – ascensão social, sucesso profissional, prestígio – passa a ser apenas uma resposta pronta, uma justificativa apenas para as pessoas que não comungam com o mar.

Mirante em Trancoso

Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah!!!!

Amanhã volto para o purgatório chamado São Paulo – o mal necessário em minha vida. Nunca minhas “férias” foram tão boas, mesmo passando apenas uma semana aqui. Esses poucos – mas intensos – dias me fizeram enxergar um mundo muito mais calmo, onde a razão para se estar num lugar é simplesmente estar neste lugar.

Vou continuar voltando para cá. Não mais por Porto Seguro, mas por Trancoso. Posso continuar não conhecendo muitos lugares, continuar a ser um cara pouco viajado. Mas para quem comunga com um lugar, não é preciso muitos outros além dos lugares opostos.

Eu gosto de São Paulo porque ela me faz ver como gosto de Trancoso. E vice-versa.


Balanço 2007 na Cardeal, com Original

23 Dezembro 2007

Rua Cardeal Arcoverde à noite

A Cardeal com efeitos de uma câmera ordinária de celular

Três dias sem um post, mas é que eu estava esperando a raiva passar. No penúltimo dia de trabalho, antes do recesso de fim de ano, fico sabendo que terei de trabalhar no dia 1º de janeiro (!!). Foi preciso ouvir muitas histórias de gente que vai trabalhar no Natal e no Reveillón, nesta última e na primeira semana do ano, para conseguir engolir a seco a situação.

O Hugo e o Rapha, que moram comigo, são outros dos bravos jornalistas que vão “abrir mão” (como se houvesse opção) das festividades de fim de ano para garantir o fornecimento de notícias para os brasileiros, ávidos por informações da Corrida de São Silvestre e de tudo mais que acontece neste movimentado período do ano.

Por isso que, ontem, eu e Hugo nos presenteamos com a presença um do outro, em um de nossos lugares favoritos: o bar (O Rapha já tinha zarpado). A prosa rendeu, das quatro da tarde até as nove da noite. Isso porque deu fome e resolvemos apreciar o tempero do China in Box em casa.

cardeal-11.jpg

Baixou um Ralph Steadman na câmera

Fizemos um balanço do ano de 2007 em nossas vidas. A Rua Cardeal Arcoverde nos proporcionou a trilha sonora (buzinas e motores), o cemitério da mesma rua nos deu a paisagem (árvores em meio ao cimento) e a noite e as câmeras de celular renderam as fotos deste post (prometo trazer umas mais azuis da Bahia).

O ano foi bom, não há dúvida. Daqueles que marcam uma transição em nossas vidas e, conseqüentemente, em nossas cabeças. Que outro ano foi este? 2003: primeiro ano de faculdade, a cidade pequena fica para trás, vem a faculdade e a metrópole. E agora, 2007: sai a cidade grande, vem a cidade imensa, São Paulo; acaba a faculdade, vem o mercado de trabalho, a independência financeira e, ainda neste mesmo ano, o fim do deslumbramento.

Hugo em cores invertidas

Hugo, em cores invertidas, mas com idéias corretas

Sobre São Paulo, continuo sem opinião formada (o Hugo está convicto de que gosta). Talvez eu goste, só não tenha certeza. É certo que em nenhum outro lugar eu poderia levar a vida que levo. Lembrei de Tom Jobim, que teria dito uma vez: “Viver nos Estados Unidos é ótimo, mas é uma merda. Viver no Brasil é uma merda, mas é ótimo.”. É a minha definição de viver em São Paulo. Mesmo havendo outras cidades que eu adore, aqui é o meu lugar.

Que 2008 seja a mesma “merda”.


Ser ou não ser VIP: Um baiano no VMB 2007

29 Setembro 2007
Foto: Caetano Barreira/Capricho

Ótimo, Juliette, e pra você?

Parte 1: VIPs

Eu devia estar em frente a uma planilha de Excel, ou de alguma outra ferramenta complexa para um jornalista, quando um burburinho tomou conta da redação. Só queria terminar o que estava fazendo para ir para casa, tomar um banho e assistir a qualquer coisa na televisão que não fosse a MTV. Mas, como bem disse o biógrafo de Joseph Climber, a vida é uma caixinha de surpresas.

E numa amena noite sem estrelas, cerca de duas horas depois, eu estava em frente ao Credicard Hall, com um ingresso para o camarote do VMB 2007. Logo que cheguei, vi uma fila e saí de perto, à procura da entrada dos VIPs. Afinal, eu era uma “pessoa muito importante”, e estes não pegam filas. Aqueles caras com cabelinhos atolados de gel e roupas caras e aquelas loiras com vestidos brilhantes iam para a pista, ficar de pé, suspendendo a testa e se espremendo para ver um pouco de pele dos famosos. Eu não.

Foi aí que tive meu primeiro choque: havia fila – bem menor, claro, mas havia – para o camarote. Logo me recuperei, afinal, eu havia conseguido a entrada de graça, sem nenhum esforço e… Hmmm… Algo me dizia que todos ali haviam conseguido entrar da mesma forma. Então eu era só mais um na multidão?

A fila andava e eu precisava seguir em frente. Entrei e fui à procura do meu sofá exclusivo, o A16, nas últimas fileiras, ciente da minha insignificância. Como não encontrava, fui para a frente e novamente tomado por uma renovação de ânimo: eu ficaria na primeira fila. A 16. Mas, ser VIP traz amigos? Não ter os companheiros por perto é o preço por ser VIP? Eu estava lá, sim, mas estava sozinho.

Pedi uma cerveja (cinco reais a latinha de Skol! “Cadê o proseco grátis!?”, gritei por dentro) e me acomodei. Uma americana baixinha tocava um rock sem pretensões, que me agradava. Demorei a ligar a pessoa ao nome: era Juliette Lewis e sua banda The Licks. Falou algo sobre estarem esperando uma certa soap opera terminar para dar início à festa. E pronunciou com o sotaque previsível: “Paraíso Tropical”.

Foi então que ela apareceu. Não, não a Daniela Cicarelli (que aliás, descobri que não tem bunda). Eu estava perdido em meus pensamentos quando um doce sotaque cantado me interrompeu: “posso sentar aqui?”. Virei-me e dei de cara com os olhos mais verdes que já vi. Ela era morena, de cabelos longos e negros, e usava uma roupa justa o suficiente para mostrar suas formas. O Destino parecia mesmo estar brincando comigo.

Pedimos mais duas cervejas enquanto ela me contava sua história: era de Santa Catarina, estava há três dias em São Paulo, veio para “conhecer” a cidade, sozinha, quando soube do VMB. No dia anterior, havia assistido ao ensaio – e a prova é que ela sabia o que todo mundo ia dizer e narrava com convicção o que havia rolado: a Cicarelli não agüentava mais repetir as mesmas frases, o Lobão brigou, a Íris não conseguia decorar as falas, a Bárbara Paz ia falar um monte de palavrão.

Logo chegou a Priscila, colega de “firma”, outra agraciada pelo ingresso inesperado. Nossa amiga não parava sentada, tirando fotos, cantando Sandyjúnior e a tal da “Razões e Emoções”, perguntando se conhecíamos famosos – chegou a pronunciar um “eu sabia” quando mentimos que o Sandyjúnior havia dito para nós que era gay. Ela tinha ido para a frente do Credicard Hall sem ingresso, disposta a qualquer coisa para ver os ídolos, até que comprou uma entrada de alguém, foi para a parte mais distante da platéia e desceu, sem que ninguém a incomodasse, para o camarote. Uma guerreira.

A premiação rolava, com toda sua previsibilidade, e eu estava convencido da derrota naquele round. Não havia como disputar atenção com Sandyjúnior e bandas emo. Não se você quisesse algo com aquela menina. Na festa que seguiria a premiação, nos entenderíamos. Acontece que, apesar de guerreira, ela não era VIP. Outro fosso que nos separava além do gosto musical. “Ai, gente, será que vocês não conseguem me por na festa?”. Podemos tentar, querida, podemos tentar.

Mas, na fronteira entre VIP e Wanna Be, a lei é dura. Os seguranças sequer olharam para o (belo) rosto da nossa amiga. E tivemos de nos despedir. Sei que a cara de choro não era por mim. Sei que o primeiro famoso que lhe desse atenção a tiraria de mim. E por isso não lamentei ainda mais nossa separação. O primeiro round se encerrava.

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A São Paulo do Jão

31 Agosto 2007

Provavelmente o leitor já não aguenta mais eu escrevendo sobre São Paulo o tempo todo. Mas é preciso falar de um intérprete da cidade. O Jão.  Ele é um dos grandes amigos da faculdade. Há muito flerta com São Paulo. Morou por aqui na infância e parte da adolescência. Agora ele está de volta, curtindo diariamente o que antes era só nos fins-de-semana. Claro, nem tudo.

Contemplem o metrô Belém às 7 da manhã, onde a massa enfurecida de pessoas amontoadas faz um show do Ratos de Porão parecer uma noite de valsa. Aproveite, sinta o calor humano das 11.016.703 pessoas estrategicamente colocadas como peças de Tetris em um pequeno vagão. Se segure onde puder, pois a cada estação, é um tsunami humano! Sinta o prazer de levar cotoveladas, cutucões, socos, pisões… e o pior: o bafo no cangote. O pior é sempre o bafo no cangote.

O Jão é melhor indicado do que eu para falar desta metrópole. Por isso, aproveite que hoje é sexta, e confira pessoalmente este roteiro único da terra da garoa, túmulo do samba, mais possível novo quilombo de Zumbi.


Uma bella refeição

25 Agosto 2007

Balada guerreira, primeira garota da festa tem ligações sanguíneas com Porto Seguro, segurança truculento, coroas, mulheres jovens, tretas, loiraças, morenaças, fumaça, axé, dores no corpo amanhã, negras lindas, água mineral, cerveja, funk, banheiro, polícia, Big Moma’s House, Acacia Avenue brasileira… São Paulo.

A noite foi bem agitada, mas nem assim o seu todo é tão digno de registro quanto o seu fim. Sozinho, na Avenida Paulista, às quatro da manhã, meu estômago ronca e nem penso em outro lugar para ir: Bella Paulista. Trata-se de uma padaria/confeitaria/lanchonete/ restaurante – chame como quiser – no coração de Sampa. Para ter uma idéia da popularidade, àquela hora o lugar estava lotado.

Bella Paulista

Até então eu só havia comido a pizza do lugar – aprovada. Queria experimentar os sanduíches. Hambúrguer, nem pensar. Vou nos especiais. Peço um Santo Amaro: salsicha alemã grelhada coberta de queijo, com vinagrete e mostarda esqueci-o-nome na baguete. Só quando chegou a belezura me lembrei do aviso que uma amiga havia dado outro dia: o lanche é enorme. Vem cortado em três pedaços, cada um equivalente a um sanduíche normal.

Não foi por desapreço que não comi os três, pelo contrário. Refeição soberba, para dizer o mínimo. Esqueça as sadias, perdigões e pif pafs da vida. Não há paralelos entre elas e a salsicha alemã. Só comendo para saber como é. O vinagrete dá aquele tcham e a mostarda faz o “acabamento” perfeito.

E eu nem falei do pão… Ai, o pão… Era macio, leve, tinha uma casquinha crocante, mas bem fininha, fininha mesmo, como a de algo que eu já comi, mas não me lembro o que é. Não se parecia com nenhum pão que eu havia comido, nem com o do Subway. Ah, o ketchup é Heinze, America’s Favorite. Esqueça os cicas e hellmans da vida.

O segundo pedaço eu comi por pura gula/respeito. Um só é o suficiente para uma pessoa que come pouco. Os três dão perfeitamente para duas pessoas. Eu não podia deixar que jogassem fora aquele terceiro pedaço. Mesmo tendo escolhido o mais “barato” dentre os especiais (R$ 12!), eu tinha de aproveitá-lo inteiramente.

Mandei embrulhar. Chegou uma caixinha personalizada da Bella. Naquela madrugada, eu faria alguém feliz. Quase na esquina com a Consolação, eu encontrei o sortudo: o primeiro mendigo que vi, dormindo na porta de um estabelecimento comercial, ganhou um sanduíche delicioso. Pus a caixinha ao seu lado e fui embora. Não me importei dele estar dormindo e não poder me agradecer: sei que, quando acordou, abençoou a mim e à minha família até a décima geração.

Eu não ia levar para comer depois. Quando quiser, vou lá e compro outro. Quem sabe não transformo o ato de doar o terceiro pedaço (intocado, vale destacar) num hábito, num ritual. São Paulo tem me dado muitas coisas boas e quero retribuir. Juro que queria fazer mais por essa gente que dorme ao relento (eu nunca vi tanto mendigo na minha vida). Por enquanto, posso proporcionar a um pobre coitado uma bella refeição, pelo menos uma vez na sua vida.


Vidinha paulistana

8 Julho 2007

Amigo leitor, nunca na história deste blog um texto novo demorou tanto a aparecer. Na verdade, eu precisaria checar os arquivos, mas não queria perder a paródia de Nosso Guia. Mas, sem tergiversações, apesar de ter ficado tanto tempo sem atualizar esta tribuna, nunca na história desta vida (até porque não lembro de ter tido outra) escrevi tanto para internet.

São oito horas diárias em frente ao computador, checando e-mails, buscando notícias sobre atletas e esportes desconhecidos e nem tão desconhecidos, reescrevendo, “cozinhando” textos alheios, redigindo notícias para celular e mudando chamadas da home (a parte mais divertida). Quando acaba o expediente – apesar de ser “frila fixo” e de estar numa empresa em que muita gente vara a madruga trampando, trabalho apenas as oito horas diárias da CLT – quando acaba o expediente (repito porque o aposto foi longo) não quero mais saber de computador.

OK. Oito horas é exagero… São sete. Enquanto muita gente faz duas horas de almoço, faço uma ou menos. É o preço por trabalhar com notícias “em tempo real”. Falando em hora de almoço, aproveito para emendar que tenho comido muito bem. Olha, na sexta-feira passada tomei uns chopes com um cara que trabalhou lá n’O Prédio. Ele diz que o ano que passou lá foi horrível. Mas uma coisa, meu amigo, ele faz questão de ressaltar: o “bandejão” d’O Prédio é muito bom.

Grelhados fantásticos (de calabresa a salmão), um prato especial (“do chefe”) diferente todos os dias, uma grande variedade de molhos para salada (agora só quero saber de vinagre balsâmico), sobremesas… Outro motivo para eu sair correndo da redação quando dá meu horário: a sopa do lugar é a melhor que já tomei na vida (que fique registrado que caldos – sururu, feijão, mariscos, frango, verde – não estão enquadrados na categoria sopa).

Então vim passar o fim-de-semana em Campinas e minha tia quis saber das novidades. A primeira pergunta, claro que foi sobre comida. É a obsessão dela, não gastronomicamente falando, mas naquelas de “tem que comer feijão”, “você ta magro”, “tenho que fazer o almoço”. Minha tia é do tempo em que só se comia em casa, em que restaurante era coisa de rico – e olhe lá. Então ela começa:

“Tem feijão todo dia, lá?”
“Tem de tudo todo dia”
“E quantas pessoas almoçam lá?”
“Umas quatro mil…”
“Tudo isso na casa da mulher!?!?”

Eu já havia falado mil vezes que estava na casa de um amigo, mas ela achava que eu estava num pensionato (nunca disse essa palavra na frente dela); eu falei mil e quinhentas vezes que almoçava e jantava na empresa, mas ela achava que tinha uma vovozinha, como ela, esquentando a barriga num fogão velho, fazendo comida para um monte de marmanjos, eu incluso. Minha tia (tia-avó), apesar dos 84 anos, é totalmente lúcida; só não entra em sua cabeça o fato de que alguns jovens moram sozinhos e que comem no mesmo lugar onde trabalham.

Para os amigos que me ligam, me mandam mensagens no MSN, e-mails e scraps querendo saber da minha vida paulistana, aviso que está sendo bem agradável. No primeiro dia lá arrumei uma morada para até o fim do mês; com meia hora de percurso, em apenas um ônibus, chego no trabalho; entro às 11h – acordo sem (muito) sono, tomo banho, café e ainda chego adiantado; ao chegar do trampo, fico assistindo The History Channel, às vezes acompanhado de uma Heineken, até a hora de tomar banho e dormir.

Mas o melhor é que o trabalho não me exige mais do que eu posso dar; as pessoas com quem trabalho são descontraídas, dão risada comigo; eu sei o que fazer mesmo que não mandem e não tenho deadlines apertados. Tudo muito diferente da minha experiência anterior – credo, me arrepio quando lembro.

E não se preocupe com o futuro deste blog: enquanto eu tiver histórias para contar, elas estarão aqui. Mesmo que apenas a cada fim-de-semana que eu volte para Campinas.

Aquel’abraço.


Paraíso sobre trilhos

16 Junho 2007

“De um objeto de luxo e de fonte de privilégio, o carro transformou-se assim numa necessidade vital: ele é imprescindível para escapar do inferno urbano dos carros”
(André Gorz)

15h: Alguma coisa acontece com a minha bexiga quando cruzo o Tietê e sinto aquele odor. O trânsito quase parado na Marginal, uma placa avisa que são 52 km de lentidão e eu começo a ter arrepios de tão apertado que estou. Num impulso, vou perguntar ao motorista se ele não pode abrir a porta rapidamente para que eu me alivie. “É que viagem de menos de duas horas não tem banheiro (no ônibus)”, explica. “Se durasse só duas horas seria bom”, resmungo baixinho. “O pessoal desce aqui para pegar o metrô Barra Funda…” Metrô? A palavra mágica. O único transporte que funciona em São Paulo além do trem e do helicóptero. “Pára agora, que eu vou descer!”.

15h30: Chego na estação Barra Funda. Minha entrevista é às 16h15. Ligo para avisar que chegarei atrasado? Afinal, ainda tenho que fazer duas baldeações… Mas quem sabe não atraso tanto? E não é que vinte minutos depois (eu disse 20!) já passei por 12 (eu disse 12!) estações e estou na Clínicas? Não sei se cruzei a cidade, mas percorri uma distância considerável. É bem provável que, tivesse continuado no ônibus, ainda estaria nele. Xixi providencial. Glória ao meu rápido metabolismo! Um táxi para garantir a pontualidade e, às 16h10, estou passando pela porta giratória d’O Prédio. Nem acredito que cheguei na hora… A recepcionista deve ter se perguntado o porque do meu largo sorriso.

* * *

19h20: O Cauê recomendou que eu saísse depois das 20h, para fugir do trânsito, mas o que eu ia ficar fazendo n’O Prédio – todos que conheço trabalhando – até aquela hora? Chego na estação Clínicas e, ainda no corredor de entrada, ouço: “Devido a problemas de ordem técnica, a linha 1 do metrô não está funcionando. Favor não utilizar as estações Paraíso e Ana Rosa”. Meu chão se abre… Como chegar até o Terminal Tietê sem metrô? “Pega um ônibus até o Centro e de lá para a rodoviária”, diz uma funcionária, na maior tranqüilidade. Lá em cima, tudo parado.

21h: O cobrador sugere que eu desça do ônibus e ande até a esquina da Paulista com a Brigadeiro. É mais rápido. Depois de recusar o convite do Cauê para dormir na casa dele, eu começo a me arrepender. Um grupo me diz, hesitante, que ali não passa ônibus para o Tietê. E agora? Vou até uma dupla de PMs me informar sobre o tal ônibus. Não sabem. “Ah, pega o metrô ali na frente. Já voltou…” Meu mundo se recompõe. Posso ouvir as trombetas dos anjos tocando ao pé do ouvido. Cada vez que vou a São Paulo o metrô sobe um degrau no meu ranking de maiores invenções da humanidade. Dentro do vagão, um aviso assusta: “Devido a problemas na estação Sé…” – meu coração dispara – “a velocidade dos trens está reduzida e o tempo de permanência nas estações é maior” – ufa! Nem que esse metrô fique parado até amanhã, o único transporte sobre rodas que pego hoje em São Paulo é o ônibus para Campinas.

* * *

22h40: “Qual é o que tem banheiro?”, pergunto ao atendente da empresa de ônibus. “Ah, só onze e meia”, responde, depois de se recuperar da surpresa com a minha pergunta. Não dá para esperar tanto. Corro até o banheiro da rodoviária para garantir uma viagem calma. À meia-noite chego em Campinas. Muito provavelmente não há ônibus para me levar até em casa. Só tenho R$ 17 na carteira e os caixas eletrônicos não estão funcionando. Não me desespero, afinal, estou em território aliado. Vou negociar com algum taxista. “Ah, fala com algum que é dono do carro”; “Por menos de vinte real não dá, não”; “Quanto você tem? Dezessete? Entra aí!”. Na porta de casa o taxímetro mostra R$ 16,60.
“Avisa lá para o pessoal que deu menos de 17…”
“Ah, aqueles cara são besta.”

0h20: Ligo a TV e o “apresentador” Otávio Mesquita mostra uma “matéria” exaltando a construção de mais uma ponte na capital paulista. Na cabeça, um capacete da construtora do genro de ACM – que na Bahia dizem ter sido presente de casamento do sogro –, OAS (Obrigado Amigo Sogro). Mesquita ouve as explicações de que a obra vai desafogar o trânsito paulistano. Até quando? Ninguém entende que a solução está sobre trilhos, muito diferente desse Apocalipse Motorizado.


São Paulo

10 Março 2007

São Paulo fede. São Paulo é cinza. São Paulo é quente. São Paulo chove. Mas São Paulo, a capital, é fundamental. A cidade onde quem não tem bilhete único se trumbica, quem tem carro se estressa e quem tem bom senso trabalha perto de casa (ou em casa mesmo). São Paulo da cratera, São Paulo da boemia, da cultura. Do metrô. Metrô, sim, é progresso. Não engarrafamento, como certa vez disse um outro. Tome bilhete único na catraca e vim me embora. Trouxe o serviço para a tranqüilidade da Vila Georgina; sem o ar condicionado das redações, sem o PF da Abril; mas com meu canto, luz do sol e comidinha da tia-avó. Atualizações aqui, não prometo. A partir de amanhã enfio a cara no trabalho (é, antecipei o fim-de-semana). Daqui mesmo, da melhor redação que trabalhei em toda minha carreira. Mas se Deus quiser é passageira. E aí vou de vez pra São Paulo. Morar ao lado de uma estação de metrô, ou a uma distância curta do trampo dos sonhos.

PS: Mas para entender melhor a capitar, sugiro que consulte o Dicionário Paulistano, feito por um nordestino muito mais entendido de Sampa e de escrita do que eu.