Quase um ano…

Há pouco tempo, escrevi que uma das 10 coisas que tenho que fazer antes de morrer é entrevistar Zuenir Ventura pela segunda vez. A primeira foi no dia 29 de agosto do ano passado (impossível esquecer), quando ele deu uma palestra na minha faculdade. Desconfio que há, na entrevista a seguir, uma importante evidência sobre seu próximo livro. Somada ao fato de que sua coluna em NoMínimo está atrasando bastante ultimamente e, ainda, a algo que ele deixou escapar num texto recente.

‘O jornalista não veio para julgar, para condenar: é olhar e contar’

Sua “musa inspiradora” é a encomenda. Apesar do traço autoral muito forte em sua obra, Zuenir Ventura, 45 anos de jornalismo, fala sem problemas que escreve quando lhe mandam. E mais: que não gosta de escrever. Mas se explica: “gosto de ter escrito”. Normal para quem não pensava em ser jornalista e, já consagrado, não queria ser escritor. O acaso parece ser uma constante na vida de Zuenir. Por acaso virou jornalista, por acaso fotografou a calcinha de Jacqueline Kennedy, por acaso não morreu no lugar de Vladimir Herzog. Este último, seu grande amigo, dá nome a um dos prêmios de sua coleção. Os outros são o Prêmio Jabuti de Reportagem e o Prêmio Esso de Jornalismo, este por sua série de reportagens sobre a morte de Chico Mendes, que em 2003 foi editada no livro Chico Mendes: crime e castigo. Quando produzia essas reportagens, Zuenir fez, o que segundo ele, o jornalista não deve fazer: se envolver com a história. Acabou adotando a testemunha-chave do crime. Sobre este e outros personagens que passaram por sua vida, ele fala no seu mais recente livro, Minhas histórias dos outros. E sobre Jornalismo e Literatura ele fala também na entrevista a seguir.

No prefácio do 1968O ano que não terminou, o senhor fala do Truman Capote, de A sangue frio. No que te influenciou esse livro?
Legal! Perfeito! Exatamente: essa geração do Capote, depois o Tom Wolfe, Gay Talese, são escritores que criaram de alguma maneira o que se chama hoje de Jornalismo Literário. Ou seja: dar ao jornalismo, à reportagem, um status estético elevado, ou seja, de fazer da linguagem, que não chega a ser um romance, ou pode até ser um romance, mas um romance com a realidade. Esses escritores foram muito importantes para toda a geração da gente que faz esse tipo de jornalismo: Fernando Morais, Ruy Castro, Caco Barcelos. Eu digo que há uma dívida com Truman Capote, que não sei se é de estilo. Talvez seja de atitude, do cara que se volta para um acontecimento e faz daquilo um livro, como aquele crime. Foi realmente pioneiro.

Qual a sua opinião sobre esse tipo de literatura?
Hoje se fala em crise de leitura, os jornais realmente têm problema de baixa circulação, e os livros de reportagem estão todos aí na lista de best-sellers. Então, o leitor quer esse tipo de livro porque quer qualidade, que nem sempre encontra nos jornais, nem sempre por deficiência do repórter, mas por essa deficiência de tempo. É difícil fazer esse jornalismo de emergência, do dia-a-dia, dispensando a ele um cuidado, uma atenção que se dá a um livro. Na minha série sobre a morte de Chico Mendes, eu fui pro Acre e só fiz isso. Voltei pro Rio e escrevi oito matérias, tive tempo de fazer isso. O jornal me liberou de matéria. Se eu tivesse ido e tivesse que ficar mandando matéria todo dia, eu não faria, não teria essa qualidade. Então eu fiquei lá observando, não era interrompido, pude continuar seguindo um personagem, continuar a falar com ele, no outro dia voltava a falar, seguia uma pista, ia atrás, tinha tempo para isso. E só pude fazer porque tive condições de tempo e até de espaço para fazer isso. No jornalismo diário é difícil, com a correria da imprensa. O repórter diário faz três matérias por dia, então, como pode exigir que se façam três matérias geniais? Não é possível. Não porque ele não é capaz, mas pelas condições.

O senhor considera 1968 como Jornalismo Literário?
Eu acho que sim, dentro dessa classificação, o livro parece um romance, embora sem ficção. Uma das características do Jornalismo Literário é que você lança mão de alguns recursos literários – em termos de estrutura narrativa, procedimentos que você usa no romance – só que em vez de trabalhar com imaginação, você trabalha com os fatos. Eu não pus nenhum diálogo que não tivesse ocorrido. Só que a forma de apresentar isso pode ser feita como num romance, em vez de ser como entrevista, um pingue-pongue que o jornal faz. Quem lê, vendo os recursos literários, pode achar que você está fazendo literatura. Isso te dá essa possibilidade. Usar fatos, mas aproximar-se da narrativa literária.

Os primeiros livros o senhor escreveu sob encomenda?
O 1968 eu escrevi mandado pela minha mulher e meu editor, em 1987. Minha mulher sabia que eu me interessava muito por esse período, os anos 60, e encontrou o Sérgio Lacerda, filho do Carlos Lacerda, que trabalhou comigo quando jovem. E ele disse o seguinte: “Ano que vem vai fazer 20 anos desde 1968. Pô, o Zuenir, que é ligado nisso, tem que escrever um livro sobre”. Eu nunca pensei em escrever livro. E a Mary, minha mulher, chegou em casa e disse isso. Pensei que era fogo-de-palha, mas os dois começaram a me pressionar pra escrever, e eu disse: “Não posso! Estou trabalhando no Jornal do Brasil!”, e o Sérgio disse: “Eu te pago enquanto você estiver de licença”. Eu disse que o JB não me daria licença, mas o Marcos Sá Correia, meu editor, me deu. Então pensei “Porra, não tem jeito de não fazer”, e escrevi. Mas foi, assim, obrigado, uma tarefa que me deram. Mais do que encomenda, foi obrigação.

Não queria ser jornalista, não queria escrever esse livro e não gosta de escrever…
(Risos) Não é charme, não, é isso mesmo. Tem também aquilo que o Armando Nogueira diz e que eu cito muito: gosto de ter escrito. É legal quando dá certo. Tenho o maior carinho por esse livro, trato como filho, tenho orgulho. Mas enquanto estava escrevendo, pensava: “Ah, não quero mais isso. Não quero mais escrever. É o último que eu vou escrever”. É sempre essa luta, mas hoje já estou conformado.

Tem um próximo projeto em mente?
Olha, eu estou pensando num livro, conversei até com o Pascoal. Um livro que ele diz que a editora quer que seja de interesse do público latino-americano também. E ibérico, porque a Planeta é espanhola. Estou pensando em fazer alguma coisa… Eu estive uma vez em Foz do Iguaçu, ali na tríplice fronteira. É uma região meio explosiva, dizem que tem conexões… com o tráfico, com terrorismo, lendas também. Comentei hoje com o Pascoal, ele achou a idéia muito boa para um livro. Evidentemente, eu teria que ir pra lá, passar algum tempo. Eu gostaria de fazer esse livro.

A opinião da crítica influencia o seu trabalho?
Na verdade, não. Agora, você tem a crítica dos amigos. No Inveja tive boas críticas, que me ajudaram. Foram tantas… Do 1968, o Paulo Francis fez uma excelente crítica, a crítica que mais me tocou. Ele disse que tinha má vontade com o livro, achava que ia ser uma porcaria, dizia que as pessoas achavam que eu ia fazer em cima da perna. Mas ele disse uma coisa: que eu devia ter feito uma série, sobre 69, 70. Pegar os anos rebeldes e os anos de chumbo. Na época eu achei que não, e hoje eu vejo que ele tinha razão.

Uma frase sobre o Jornalismo…
O jornalista é a testemunha de seu tempo. É essa a nossa tarefa, é essa a nossa função. (O jornalista) não veio para julgar, pra condenar: é olhar e contar. Algo que deve ser encarado com humildade, porque é uma tarefa humilde. Agora, você às vezes é tentado a julgar, a ser mais, a ser personagem. Mas a essência do jornalista em sua tarefa é de testemunhar o seu tempo.

(Entrevista concedida a André Julião, Allan Biskier e Mateus Passos, publicada na edição de outubro de 2005 do jornal laboratório Página Aberta, da PUC-Campinas)

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3 respostas para Quase um ano…

  1. JW disse:

    gostei do layout limpão!
    a entrevista eu li por alto… fico devendo um retorno com mais calma por aqui.
    favoritei! =)

    abs

  2. Ronaldo Faria disse:

    Zuenir é um dos caras. Mas esta área de post parece bula de remédio… Vê se aumenta um pouco. Rs. Um abração…

  3. […] posso dizer o mesmo de Zuenir Ventura, outro ídolo, só que também como pessoa, com o qual tive um longo papo em 2005 e ainda outras conversas por telefone. É só eu falar que sou aquele que fez ele autografar três […]

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