O estranho mundo do sexo sobre rodas

Estagiários de jornais de médio porte às vezes fazem alguma coisa além de tomar café, água e ir ao banheiro. Por isso que, dia desses, eu visitei um lugar estranho ao meu mundinho comportado de universitário sem grana. 

Cansados de ficar pela redação lendo jornal e ouvindo conversas alheias, eu e meu companheiro de tristeza fomos para a saída do recinto. É pelo fumódromo que os repórteres saem para realizar suas empreitadas jornalísticas.  

Como nenhum repórter simplesmente chama um estagiário para acompanhá-lo – “Vamos lá, rapaz, minha rotina é tranqüila demais e eu preciso de alguém me fazendo perguntas idiotas e constrangendo minhas fontes” –, ficamos a postos, esperando uma vítima desprevenida. 

De repente, surge um deles. “Ah, nem sei se vai dar matéria…” Perdeu, preibói, nós vamos! Apertados na viatura sem identificação – a paranóia PCC chegou aqui – seguimos pelas ruas de Campinas até achar a primeira fonte. Depois de nos desvencilharmos do homem que não parava de falar, fomos realizar a segunda pauta. 

E aí sim, meus amigos, eu ganhei o dia. 

Um empresário da cidade havia acabado de comprar um super carro e isso era pauta para o caderno de automóveis. Trabalhador que é, o homem teria que nos receber em sua empresa: um drive in! Mas não um qualquer. 

O motorista avisou logo: “Eu não vou entrar, aí! Um carro cheio de homem entrando num drive in!” O fotógrafo não perdoou: “A gente fala que vai comer a bunda do motorista!” O portão do local chegou a se abrir, mas nosso condutor não arredou os pneus. 

Entramos – sem o motorista – curiosos naquele estranho paraíso do sexo sobre rodas. O dono do empreendimento veio nos receber. Chamaremos o empresário de Betinho. Camisa meio aberta, cabelos cacheados pedindo tesoura, óculos escuros na testa, calça jeans e bota preta de couro. “Opa! Tudo bom? Betinho, prazer, prazer”. Prazer… 

Até então eu achava que o drive in consistia simplesmente em um monte de garagens onde os casais estacionavam e sujavam seus automóveis de fluidos humanos. É que eu ainda não conhecia a mente pervertida (ou seria empreendedora?) de Betinho.  Mal entramos e ele nos avisa: “Entra aqui que tem um cliente saindo”. Eram cerca de três da tarde. Traindo a mulher, certeza… 

Betinho aproveitou para mostrar o box diferente. Além da garagem, há um espaço com um pufe – aquela almofada gigante –, som e TV com filme pornô. Só depois que peguei na cortina para ver melhor ele avisou: “o cara acabou de sair daqui”. Blergh! Passei a mão na primeira manga de camisa que vi pela frente. Credo. 

Saindo do box, ele foi nos mostrando os outros tipos, para diferentes bolsos. Aquele que vimos era R$ 10 reais durante a semana e 12 nos sábados e domingos. O mais simples era R$ 5 ou R$ 7, também dependendo do dia. O executivo era R$ 14 ou 16. Este último tinha, além do pacote pufe, som e TV, um banheiro. “Fim de semana passado foram mais de 200 carros aqui, dos de sete reais saía um e já entrava outro” – dizia, com um sorriso sacana estampado no rosto – “fez fila aí fora, esperando”. 

Nos fundos do local, Betinho estava materializando sua mais recente perversão: o box swing. “São dois, separados por uma divisória de vidro. Fica um casal vendo o outro”. Ele mesmo diz, com engraçado sotaque do interior: “Tem que ser meio retairdado pra ter um negócio desse”. E com autoridade: “Eu fui o primeiro aqui em Campinas a fazer drive in com pufe.”  

O sexo mudou a vida desse homem. Ele começou vendendo cachorro quente. Depois, abriu uma lanchonete. Até descobrir a mina de ouro dos drive in. Hoje ele tem, além desse, mais dois em outras cidades da região. “Não tem cara que cuirte pó, maconha? Eu cuirto sexo!” 

Grato com a presença da imprensa, que ia mostrar seu carrão (quase um motel sobre rodas, de tão grande), ele presenteou cada um com um cartão que garante uma estada grátis no box executivo (só me falta a mulher e o carro). Lá fora, o motorista nos esperava, nervoso. “Que demora! Eu aqui dentro do carro sem identificação do jornal, na frente do drive in, passou um cara de moto, gritando: ‘Tá esperando a mulher, seu corno??’”

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8 Responses to O estranho mundo do sexo sobre rodas

  1. Carlos disse:

    Belo texto.

    Abraço,
    Carlos

  2. Ronaldo Faria disse:

    Jornalista é assim: ganha pouco e se fode achando que está numa profissão de glamour, mas às vezes se diverte. E quanto ao pessoal não sair com estagiário é porque a empresa onde você estagia é cheia de “gênios”, que não gostam de dividir seu espaço de “genialidade”. Muita calma nessa hora… Belo texto. Muito bom mesmo. Cuide-se. E vê se aumenta esta bula de remédio…

  3. Edson Junior Lain disse:

    Cara, essa vida de jornalista é muito PHoda… só não desisto pela pitada romanesca que nela há.

  4. Edson Junior Lain disse:

    E vc não quer me ensinar a colocar imagem atrás do título tbm não? Sou neófito no WordPress..

  5. toni/ana disse:

    onde fica o drive-in do betinho! quemos conhecer

  6. Quero saber onde é o drive-in em questão….MUITO BOOOM teu texto.

  7. ajmfc disse:

    onde fica esse drive! queremos conhecer tb! por favor responda!!!!

  8. vermelho disse:

    putaria do diabo ese negocio de jornalismo

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