Uma revista sobre brasileiros

Desde aquela entrevista eu espero. João Moreira Salles falou, em 2004, ao Estadão, sobre seu documentário Entreatos. Quase tudo o que foi dito ali, porém, se tornou pouco relevante para mim. Porque naquele emaranhado de lulas e câmeras, João dizia que tinha planos de lançar uma “revista de grandes reportagens”. Não havia menção de data, sequer se era só um sonho distante ou um objetivo concreto. Mesmo assim aquilo não me saía da cabeça.

Sempre que ele dava uma entrevista eu queria que perguntassem: “E a revista?”, mas ninguém tocava no assunto. Ô imprensa alienada! Ano passado comprei O Segredo de Joe Gould, de Joseph Mitchell, e olha quem assina o posfácio: João Moreira Salles. No texto ele demonstra profundo conhecimento da história da New Yorker e da obra de Mitchell – que para mim só disputa o trono de rei do Jornalismo Literário com Gay Talese. O texto é muito bem escrito, por sinal. O que está faltando então, João, para você lançar a revista? Até um anunciante você já tem!

Devem ter sido boas as razões, porque valeu a espera. Setembro nunca passou tão devagar, mas agora tenho a piauí em mãos. O papel não é o couche da Trip, mas é mais agradável às mãos que o grossão da Caros Amigos. O formato, aliás, se assemelha ao desta última, talvez o mais apropriado aos longos textos. Sim, porque piauí tem TEXTO. Não aquela coisa pasteurizada das semanais; e nem os assuntos manjados das “segmentadas”.

Mas piauí ainda é uma criança. Uma menina, aliás, abre esta edição. É a história de Salem, o fóssil de 3,3 milhões de anos de uma menina, descoberto recentemente. “Chegada” promete trazer todo mês a história de “uma família, de uma comunidade, de um lugar, de uma doença, ou de uma situação contada a partir do nascimento de um bebê no mês anterior”.

“Esquina”, dizem os que conhecem a revista estadunidense, é uma versão de “The talk of the town”: histórias “curtas, médias ou não muito grandes” da atualidade. Neste mês, começa no Rio de Janeiro com Roberto Jefferson, passa por Salvador com as baianas do “acarajé de Jesus”, visita um ex-presidiário em São Paulo, vai até o Piauí [claro!] mostrar o sucesso do badminton, e termina com os búfalos policiais da Ilha de Marajó, no Pará.

José Hamilton Ribeiro já deve ter comprado a sua. Soube por mim e por Renan da chegada da revista e ficou contente. Não soube antes talvez pelo fato de não ser chegado em Internet; mas ele adora papel. E piauí tem bastante papel. Tem perfil, ensaio fotográfico [sem mulher pelada], humor em quadrinhos, humor em texto corrido, ficção, viagem… Na sessão que encerra a revista, “Despedida”, os mortos do mês. Mas não pense que vai ter sempre um famoso ali. Nesta edição, o morto é José Roberto Santos, um pedreiro baiano que morreu trabalhando em São Paulo.

Apesar de nascer no Rio, piauí parece querer explorar os vários brasis. Em meio a uma imprensa que parece só enxergar o próprio umbigo [Rio, São Paulo e uma Brasília só dos políticos], já nasce mais brasileira – a começar pelo nome. Não está interessada no escândalo, na Cicarelli, no dossiê. Quer mostrar não só o Brasil do Congresso, mas um Brasil de brasileiros.

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7 Responses to Uma revista sobre brasileiros

  1. gusta disse:

    É tudo isso, mesmo! Um bebê com aura e santo revolucionário. Já a tenho e, infelizmente, o mês passa lento em demasia. Podemos dizer que vimos uma revista ‘literária’ em vida, hein Baiano?
    Abraços do piauí

  2. Um projeto de interesse de todos os blogueiros WordPress. Você é top 100 e vai se interessar!

    Veja aqui: http://byebyeboingboing.wordpress.com/

    Diga-nos o que acha,sugestões e críticas!

  3. Carlos disse:

    Uma revista sobre brasileiros? Pô, Baiano, assim eu vou parar de ler a revista.

    Abraço.

  4. Jorge Wagner disse:

    e na comunidade JL no orkut um sujeito levanta a “brilhantes” questão:
    Revista piauí
    …e aí, tem ou não tem Jornalismo Literário?
    comentem…

    um ranzinza sem bom humor não resiste à ironia:
    tem ou não?!
    qual a SUA dúvida quanto a isso?

    não pude resistir! hehehe

  5. disse:

    Ow, cara, vou me mudar de mala e cuia pra Molvânia! Trabalhar como o carinha lá que é zelador da massa falida dos Associados!

  6. Renan disse:

    Já te dou um furo que dentro em breve a piauí pode ter concorrência…

  7. João Pedro disse:

    O Renan vai te dar um furo?
    Pô, será que ele me dá um, também?
    Eu já escolhi o furo que eu quero!

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