Trocar cocô*

 

Para mim, é sempre difícil escrever sobre filmes. Sobre os óbvios, todo mundo escreve antes mesmo que sejam lançados; sobre filmes “de arte” ou “alternativos”, nunca me sinto capacitado para fazer interpretações (e raramente vejo algum). É o caso de Eu, você e todos nós (Me and You and Everyone We Know, no original). Ao mesmo tempo em que parece simples, é complexo por tudo que diz. E não me sinto apto a fazer mais interpretações.

A única coisa que posso dizer com alguma convicção é: assista. Se fosse para defini-lo em uma só palavra, diria “engraçado”, mas é muito mais que um filme de humor. Fala de amor, de sexo, de Internet, de relações e relacionamentos, de arte. Sem ser óbvio. Vou transcrever o panfleto em preto em branco distribuído pelo Cine Paradiso. Provavelmente você não vai encontrar o filme no circuito comercial. Aqui em Campinas, é encontrado nesse cinema simples, de uma sala só e com poucos lugares. Segue a sinopse [com interferências do bloguista]:

Premiada comédia dramática da artista plástica, atriz e diretora estreante Miranda July. Ela mesma interpreta Christine, uma mulher que divide seu tempo entre o circuito das artes e o trabalho voluntário de motorista de idosos [quer vida mais alternativa?], quando cruza o caminho de Richard (John Hawkes, da série Deadwood, um vendedor de calçados que acaba de ser abandonado pela mulher [ele é feio, parece o seu Madruga, e ela é jovem e bonitinha, um amor improvável no cinemão]. Ele, traumatizado pela separação, a rejeita [o diálogo que antecede a “rejeição” é sensacional, metafórico-literal, digamos assim] e prefere dedicar-se aos filhos, o adolescente Peter (Miles Thompson) e o caçula Robby (o ótimo Brandon Ratcliff) [o moleque é espetacular sem ser espetaculoso]. Há ainda um punhado de personagens bizarros [os vizinhos de Richard, por exemplo], onde nada é o que parece ser nesta original e desconcertante fita do moderno cinema independente norte-americano. Não se parece com nada do que você já viu e por isso mesmo é imperdível.

O filme ganhou prêmios em Cannes e em Sundance. E realmente não se parece com nada que eu vi até hoje. Foi uma noite bem alternativa, mesmo. Nunca tinha ido num cinema tão pequeno, com o barulhinho do ar-condicionado velho, uma tela bem menor que a do cinemão e sem poltronas ultra-reclináveis (porém confortáveis). Não vou dizer mais porque seria redundante. Estou relendo e vendo uns termos que eu nunca usaria em outro texto, mas é que Brandon Ratcliff é mesmo espetacular sem ser espetaculoso e um diálogo dos protagonistas é metafórico e literal ao mesmo tempo. O filme é alternativo, a personagem é uma artista alternativa de vida alternativa vivida pela diretora do filme (alternativo). 

Experimente um dia alternativo.

* ))<>((

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2 Responses to Trocar cocô*

  1. João Pedro disse:

    O título tá digno da (ex?) Dare To Be Stupid.

    Parabéns.

    Aliás, não entendi.

  2. […] numa exposição de artistas renegados pelo sistema. Mas eu continuo achando Miranda July genial. Escrevi aqui sobre o filme Eu, você e todos nós, que ela dirige, roteiriza e atua. É muito legal. Daqueles […]

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