O Repórter e a Heineken

Inquieto em sua cadeira desconfortável, o Repórter não consegue se concentrar. Faz um calor escaldante e a “redação” onde ele trabalha não tem sequer um ventilador. Não tem também Internet no computador em que ele escreve, nem sempre tem um telefone funcionando, uma toalha limpa no banheiro, mas tudo o que lhe incomoda agora é a falta de um ventilador.

A sede do jornal é tão pequena que todos que passam na calçada vêem o Repórter trabalhando. O que só o incomoda agora, pois ele tem vontade de tirar a camiseta. Já tirou os tênis, já arregaçou as calças e levanta e abaixa as vestes superiores em movimentos rápidos para tentar diminuir o calor. Mas pouco adianta.

O Repórter inveja o cão

São quatro da tarde e ele escreveu muito pouco. Com esse calor, provavelmente não vai produzir mais nada, hoje. Dentro do seu ritual para escrever bem está o clima, que tem de estar minimamente agradável. Se a temperatura não é a ideal, há banho frio e ventilador – nos dias quentes; cobertor no colo, casacos e meias – nos frios. Mas aqui não é sua casa. E a produção tem que sair de qualquer jeito.

Pelo menos hoje é dia de pagamento. Está planejando pegar a bufunfa e tomar uma cerveja com um colega que mora ali perto. Depois de pensar um pouco, resolve que vai tomar é um sorvete Prestígio da Nestlé (eu também recomendo) e ir embora o apreciando. Mas e esse chefe que não chega nunca, para que o Repórter mostre sua parca produção dizendo que “só falta dar mais uma revisada” e vá embora, tomar seu sorvete com seu salário…

Enfim o chefe chega. Nada de pagamento hoje. Pede os dados bancários para que deposite o dinheiro depois do feriado… Merda! Só de raiva resolve tomar a cerveja por conta do pagamento, que nem saiu e sabe Deus se vai sair. Chama o colega – não pode ir. Chega seco num posto de gasolina cuja única vantagem é ter Heineken de 600 ml…

O lugar tinha uma vantagem sobre todos os lugares que o Repórter bebeu até hoje na Cidade Grande, pois a Heineken 600 ml está quente.

“Mas eu pensei que só eu tomasse Heineken aqui!”
“Não é isso, é que o freezer quebrou.”
“E você não pôs nenhuma pra gelar!?”
“Não…”

O Repórter, além de privado de companhia e do pagamento, não pode desfrutar de sua cerveja favorita. Tem que se contentar com Stella Artois, long neck, a TRÊS reais. Depois de tomar uma no balcão, resignado, pega a segunda e segue para pegar um dos ônibus da volta. E no longo caminho até em casa, sua ex-editora liga pedindo conselhos profissionais, ele quase passa do ponto de ônibus que sempre desce (deixou o troco para trás), escreve mentalmente, começa a achar a cobradora bonitinha, e lamenta a Heineken não tomada.

É boa, mas não é Heineken

A cidadezinha ficou para trás, grandes desafios o esperam em outro lugar. Mas por enquanto ele se contenta com o emprego no jornalzinho, o pagamento atrasado (se vier) e a Stella Artois long neck. É a vida do Repórter da Cidadezinha.

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4 Responses to O Repórter e a Heineken

  1. Róger disse:

    Companheiro tomaremos essa Heineken dia desses… e gelada de preferência… garanto-te.

  2. Edson Junior Lain disse:

    Obrigado pela visita. E parabéns pelo seu blog.

  3. Lia disse:

    Bela crônica! 🙂

  4. Marcio disse:

    morra de inveja:

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