Bom dia, meu nome é Gislaine

A vida de repórter de jornal de cidadezinha parecia tranqüila para André. Ele não tinha um bom salário, não tinha reconhecimento, mas, em compensação, trabalhava pouco e um erro não enterraria sua carreira. Além do mais, ele tinha consciência de que aquilo era provisório.

A “redação” era toda dele. Ficava sozinho por muitas horas, podendo se concentrar nos textos, usar o telefone à vontade, ver quantas pessoas leram seu blog nos últimos dias, ler e-mails, mandar outros e até mesmo conferir os scraps. Ele achava que essa paz duraria até o dia em que pediria as contas para ingressar num emprego de verdade, com carteira assinada, ar-condicionado e piso salarial.

Tudo mudou quando Gislaine apareceu. Numa manhã sonolenta, André chegou na “redação” e descobriu que esta agora era um centro de telemarketing fajuto. Ao lado de sua mesa, trabalharia Gislaine, a mulher que passaria a vender assinaturas por telefone. O seu telefone. O pior é que a moça passava mais tempo jogando conversa fora com as amigas do que trabalhando. Isso quando não estava fumando seu cigarro paraguaio. Quando André demonstrava algum incômodo, Gislaine ainda dizia, a poucos metros de distância, “a fumaça nem chega aí”.

Se ainda fosse gata assim…

Um dia ele chegou do almoço e Gislaine estava pendurada no telefone, como sempre. “Não tem problema, tou na minha hora de almoço”, falava à sua interlocutora. “Ai, queria que você comprasse umas roupas pra mim, mas bem sensuais”, dizia, sem a menor vergonha. E André tentando agilizar as edições de fim e começo de ano. Ao cabo de 40 minutos, a “telefonista” se despede com toda intimidade da interlocutora, desliga o telefone e diz, com a maior das caras-de-pau: “A mulher ligou para fazer um anúncio e ficou até agora no telefone”.

Everaldo, o dono do jornal, não parecia se importar com o pouco caso que Gislaine fazia do serviço. André, no primeiro dia, já tinha vontade de mandar todos ao inferno e sair da cidade para nunca mais voltar. Gislaine pedia o marmitex de seu almoço logo depois que André chegava da sua refeição. O cheiro de comida impregnava a “redação” e dava enjôo no jovem jornalista, àquela hora, empanturrado do mais aromático feijão com arroz de self-service que já existira.

O que André podia fazer? Como suportar mais um mês à tamanha tortura? Num movimento natural, ele arrumou sua mochila e na quarta-feira vai para o sul da Bahia, Porto Seguro. E promete que jamais em sua vida comerá um marmitex.

* * *

Causos internéticos (episódio I)

Você chega do bar, ainda ALTERADO. Resolve entrar na Internet, ver se tem alguém ONLINE a fim de uma SAIDEIRA. Entra no Orkut e vai mandando SCRAPS insanos, com uma escrita propositadamente PROLIXA. Uma menina com quem você conviveu por pouco tempo, mas que é bela que só e nunca te deu muita IMPORTÂNCIA, está fazendo aniversário. Você manda MAIS um scrap prolixo. Mas que não diz quase nada – apenas demonstra, para alguém com algum BOM SENSO, que você não está normal. No outro dia ela te responde, dizendo não ter nem comentários sobre tão LINDA mensagem. Que cole aquele texto em seus TESTIMONIALS, porque ela não quer que fique perdido no SCRAPBOOK.

O melhor a se fazer é não OBEDECER, sequer responder. Não a decepciona nem trai a si próprio. Mas, se quiser, VOCÊ pode investir na carreira de autor de auto-ajuda, poeta/compositor barato e/ou escritor de BEST-SELLERS.

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