Dia de festa d’O Partido

Quem me recebe à porta é O Assessor. Ele está quase sempre com um sorriso estampado no rosto, sua face gordinha chega a ser quase engraçada. Já está a um bom tempo n’O Partido. Já foi um socialista. Como muitos outros, entrou para O Partido acreditando na revolução nos moldes antigos. Não sei se hoje ele acha que está fazendo revolução ou se regozija por estar onde seus opressores sempre estiveram. N’O Poder.

Ele tem até uma formação acadêmica na área social. Hoje é O Assessor, um cargo que não necessita de tão vasto gabarito. Mas também, ele já não o usa desde que saiu da faculdade. Não sei se tenho pena ou raiva dos membros d’O Partido.

Hoje é o dia de um jantar comemorativo. O grupo do Assessor ganhou mais uma “eleição” interna. Membros que se dizem de outras alas – ou “radicais”, segundo a definição da maioria d’O Partido – afirmam que foi um pleito fraudulento, automático, sem debate. É provável. O que admira é que isso não é novo e, mesmo assim, eles não abandonam O Partido. A briga ali dentro é comparável à disputa de um reino próspero. Quem garante que, se chegarem Lá, não farão o mesmo?

Ultimamente O Partido está com uma imagem bem negativa junto à opinião pública. Será que este é o mesmo Partido? Aqui tudo parece estar na mais serena ordem. As pessoas vão chegando, se acomodando, bebendo e fumando. Aliás, quanta gente feia. A única gostosa que vejo logo some. Há muitas crianças, uma não pára de passar atrás de mim, se apertando entre a minha cadeira e a de outra mesa. Conseqüentemente sou empurrado para frente a todo instante.

Não queria estar aqui. A princípio, é um evento totalmente sem relevância. Em compensação, vou explodir de tanto comer; pra compensar. O Assessor manda que eu fique à vontade. Posso pedir cerveja, refrigerante, comer à vontade. Se eu pudesse beber, juro que ficaria bêbado às custas d’O Partido. Ao invés disso vou, literalmente, tirar a barriga da miséria de tanto comer.

Todo mundo chega de uma vez só. Inclusive O Novo Líder. Logo há uma imensa fila para comer. As pessoas parecem esfomeadas. Um certo prato chega nas bandejas e é logo devorado, como uma carcaça de boi num rio infestado de piranhas. O único prato que não falta é arroz. E como come arroz esse povo! É melhor eu me servir. Quero comer o máximo que puder e ir embora. De que mais me serve esse evento? Me espanto quando vejo pessoas na fila com o prato sujo: já estão repetindo. Em certo momento, ainda na fila, vejo que O Antigo Líder está confiscando meu lugar e o cedendo a um grupo! Membros do Partido Interno não precisam disso.

Se bem que este pedaço d’O Partido está bem mixuruca. A comida não é das melhores. O local é pequeno para tanta gente. E os membros do Partido Interno nem comendo estão. Será que o melhor está guardado pra eles? Quando os membros do Partido Externo e os proles saírem, eles vão se deliciar num banquete exclusivo? Por enquanto ficam na porta da cozinha. Inclusive A Líder do Parlamento, com uma roupa assaz espetaculosa. Brega, diria uma mulher.

Sabe aquele prato que some logo que chega à bandeja? E que há muito não aparece, gerando até fila de espera? O Novo Líder passa tomando cerveja acompanhada de um uma unidade do prato na mão. Privilégio do Partido Interno.

Volto à minha mesa, que está ocupada. Fico por perto, fingindo que procuro um lugar. Até que um dos ocupantes – sabendo ser aquele meu lugar – subverte a ordem do Partido, se retira e pede educadamente que eu sente. Peço que fiquem, e que aquele que se levantou apenas consiga uma cadeira. Logo percebo que na minha mesa está a outra gostosa do local. Tem um jeitinho insinuante, usa uma blusa colada branca com decote, saia e uma par de botas – rosa. Quando abre a boca, porém, não anima. Além de fazer piadinhas sem graça, tem os dentes montados. Mas o grupo de três – ela e mais dois homens – é até simpático.

Ah! Por sorte conseguiram uma cadeira para o meu novo amigo.

Os talheres que estavam na minha mesa sumiram. Vou até a cozinha pedir um par e tenho que me contentar apenas com um garfo – de sobremesa. Tive sorte de encontrar três pratos além de arroz. Como e repito.

Até que chega o momento tão esperado: O Membro Festejado chega. “Viva o Membro Festejado!”, grita O Novo Líder. Soaria com duplo sentido esse nome, não fosse O Partido dono da verdade. Tenho que duplipensar e não encontrar nada além de um grito de festejo naquele “viva”. Simpático, O Membro Festejado. Também tem um sorriso quase meigo. Aliás, a maioria d’Os Membros sorri e discursa muito bem. Graças a isso chegaram onde estão. Não possuem as indústrias, as empresas, os bancos que O Adversário possui. Com movimentos populares, frases eloqüentes e apoio dos proles, alcançaram um patamar até então só explorado pelo Adversário. Mas ainda não era o suficiente. Precisavam chegar mais longe. Aí vieram os setores antes ligados exclusivamente ao opositor: bancos, empreiteiras, fundos de pensão… E O Partido conseguiu O Poder.

Ao conseguí-lo, contudo, bastou-lhe. Os ricos continuaram cada vez mais ricos, os pobres, cada vez mais pobres. O segredo do sucesso foram discursos eloqüentes, dizer que representa os proles, porque surgiu deles. O Partido não tem posses. Por isso, se um membro não consegue um cargo eletivo, permanece apenas trabalhando pelo Poder ou para O Poder. Não importa se quem o detém seja o agora ex-adversário. O Partido não tem posses, mas tem A Máquina Partidária. Um sistema que não tem ideologia, a não ser a de conseguir mais Poder.

Mas eu não sei dizer se todos os membros sabem disso. Talvez alguns como O Membro Festejado acreditem que estão fazendo a revolução dos proles. Que esse papo de favorecer cada vez mais os ricos é conspiração da Imprensa Burguesa. Coisa dos Golpistas que querem derrubar O Partido, tão democrático e fruto da vontade popular.

Por fim, O Assessor traz uma bandeira d’O Partido e oferece ao Membro Festejado (não ria do nome dele, duplipense: pense primeiro que não há piada e depois esqueça que pensou que pode haver piada). Este a beija com orgulho de quem constrói uma mudança social.

Quem pensa que O Partido está acabado, se engana. Se nem a “Ala Moral” quer largar o osso, significa que Ele ainda detém O Poder. Ele pode estar enfraquecido, mas basta ver os membros do Partido Interno, festejando e ganhando eleições, que se percebe que A Máquina é imbatível. O Partido pode sair do posto mais alto agora, mas continuará nos guetos, nos órgãos oficiais, “liderando” os proles, onipresente. E um dia Ele deterá para sempre O Poder.

* * *

Esta “reportagem gonzorwelliana” foi publicada originalmente no dia 24 de setembro de 2005, no antigo endereço. Apesar do tempo que se passou, acho que o texto ainda vale. A escassez de posts pode continuar até que eu volte para Campinas, no dia 11 de janeiro. Até lá, peço a compreensão e a leitura de alfarrábios como este.

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