O Reino e o Poder

18 fevereiro 2007

Sob nossos pés, São Paulo. Carros passam velozes pela Marginal Pinheiros. O rio está cheio de coisas boiando, impossíveis de serem identificadas. Em breve, os assuntos que vão repercutir durante a semana serão escolhidos aqui. Estamos no 19º andar da Editora. Ao contrário da maioria das revistas da casa, esta ocupa todo um andar.

O Diretor de Redação chegou. Vai começar a reunião de pauta da revista semanal de informação mais vendida do Brasil. A que tem, só em assinantes, mais de 900 mil leitores. “E aí, o que temos essa semana?” O editor executivo que acaba de voltar de uma viagem ao Irã, que seria a capa da semana anterior não fosse o assassinato do menino carioca, diz:

“Lembra daquele livro que eu tava lendo, ‘História da felicidade’?”. Ele detalha o conteúdo da brochura, falando dos gregos etc. Nisso um editor diz:
“Você acredita em duende, Fulano? Acredita em felicidade…”
“Mas os gregos acreditavam e…”
“Os gregos davam a bunda também, e aí?”

Risadas. O editor executivo emudece, dá um sorrisinho e passa-se para a próxima pauta. “Só nós temos esse material?”, pergunta o Diretor de Redação ao editor da piadinha com os gregos.
“Só nós…”
“Então é capa.”

Em meia hora está pré-definida como será a revista que sairá no sábado. Uma visão de mundo um tanto cínica permeia a conversa. “Aquecimento global é falso”; expressões em inglês; “Esses Kennedy, os melhores já morreram”; “Esse Frei Galvão é um Santo Chato”. E no sábado, muitos já comentam aquelas matérias.


Rapadura é doce mas não é mole

14 fevereiro 2007

Eu ainda quero escrever sobre a reunião de pauta de Veja que assisti; sobre o workshop tão falado de Thomaz Souto Corrêa, mas tou muito ocupado, como mostra a foto acima. Deixo que minha colega Aline conte um pouco dos nossos dias.


Aula de economia

8 fevereiro 2007

Caso 1
Um produto custa 100 reais. Você opta pelo pagamento em duas vezes de 60, o que dá 120 no total. Quanto você pagou de juros? Vinte por cento? Faz sentido, afinal, 20 por cento de 100 é 20. 100 + 20 = 120. Este foi o caso que Edson Rossi, hoje diretor de redação da Vip, contou pra gente de como ele não entendia de economia mesmo sendo jornalista de economia. Foi aí que alguém mostrou a ele como não sabemos de nada. Se você pagou uma primeira parcela de 60 reais, faltam 40 para saldar a dívida, não está certo? Se você paga mais 60, está dando 20 reais a mais, ou seja: 50 por cento de 40 reais. Os juros, neste caso, foram de 50 por cento!

Edson Rossi em foto de Raquel Brust

Caso 2
Poderia chamar essa nota de errata. Sérgio Gwercman me explicou: dois posts abaixo, eu disse que, para a Abril, não interessa manter uma revista que tenha tiragem de 35 mil exemplares, pois o lucro é pouco. Não é bem assim, esclareceu o sábio editor da Super. Rentabilidade diz respeito a quanto você vai faturar levando em conta o investimento que está fazendo. Muitas vezes, é mais rentável investir um dinheiro na poupança ou numa conta investimento do que numa revista ou num negócio qualquer. Por que investir 100 mil reais numa nova publicação para faturar 30 mil por mês, se esta mesma centena de milhar na poupança vai render 40 mil no banco, suponhamos? É meio cruel, mas nas grandes corporações o negócio é assim. Essa é a principal queixa contra os juros altos: em vez de investir (gerando empregos), o empresário aplica no banco porque dá mais retorno. Há revistas na casa com tiragem de 50 mil exemplares, mas, levando em conta o investimento feito, o lucro é maior do que se o dinheiro tivesse ido para o banco.

Isso é tudo que acho que sei de economia. Talvez tenha errado novamente, mas esteja à vontade para corrigir. Vivendo e aprendendo.


Direto da selva

7 fevereiro 2007

Ele apareceu por aqui meio que de surpresa. A palestra foi anunciada de manhã e às 15h ele estava no auditório nos esperando. Quando ouvi o sotaque, meu bairrismo fez com que simpatizasse com o cara. Kléster Cavalcanti não é baiano, mas é pernambucano. E é daqueles repórteres por natureza. Um dia estava lá em Recife, trabalhando no Diário de Pernambuco, quando foi chamado para cobrir a Amazônia para a Veja.

E lá foi ele, encantado que era por aquela terra. Nunca havia ido, mas leu tudo que pôde tempos antes de ser requisitado para a missão. Lá fez denúncias, desmascarou bandidos e saiu por motivo de força maior: foi seqüestrado. “Isso é só um aviso”, disse um dos bandidos. Klester ainda se preocupou em terminar outra reportagem e no fim-de-semana estava em São Paulo. Uma selva bem pior para ele: a de pedra.

Kléééééster!! (Foto de Bruno Gabrieli)

Como confinar um ser desses numa sala com ar-condicionado? Ele foi então escrever seus livros-reportagem. E, ao que parece, se saiu bem. Não li nenhum (ainda), mas o segundo, Viúvas da Terra, ganhou o Prêmio Jabuti em 2005. Antes dele, veio Direto da Selva e, o que mais quero ler, é O nome da morte: a história de Julio Santana, o homem que matou 492 pessoas. O repórter só escreveu o livro quando Julio, depois de sete anos de conversas, deixou que publicasse seu nome. “Para mim, reportagem sem o nome do personagem é ficção. A mesma coisa que Papai Noel”.

Leia mais aqui.


Lucro pouco é dinheiro de pinga

4 fevereiro 2007

Acabo de abrir a Piauí de fevereiro, a primeira da minha “assinatura premiada”, e pego a equipe comemorando a marca de 120 mil exemplares – somadas as quatro primeiras edições. Imediatamente me vem à mente a resposta de Roberto Civita a uma pergunta minha, na abertura do Curso Abril, na segunda-feira.

Perguntei o porquê da Abril não ter investido numa revista do estilo da de João Moreira Salles, sendo que a editora já tem em sua história a feliz experiência de Realidade. A questão de ser ou não ser rentável teria sido resolvida pelo relativo sucesso da Piauí em seus primeiros números. “Dr. Roberto”, como é chamado, contou um pouco da experiência da Realidade, que ele comandou pessoalmente. Do número censurado porque tinha fotos de um parto. E então partiu para a questão prática: como seus altos executivos sopraram pra ele, Piauí tem uma tiragem de 35 mil exemplares/mês. A Abril tem uma pequena porcentagem no negócio. Mas a ela não interessa uma publicação que tenha uma tiragem dessas.

Roberto Civita; foto de Guilherme Maranhão

Não lembro se foi o Hamilton dos Santos, diretor de treinamento e Desenvolvimento Editorial, que falou antes que, na Abril, não basta a um “produto” (esse termo é proibido lá, mas todo mundo fala) dar lucro. Tem que ser rentável. Ou seja: tem que faturar milhões, as tiragens têm de ser superiores a 100 mil. Não é à toa que a empresa fatura 2,2 bilhões por ano. Resumindo: o que a revista do João fatura é dinheiro de pinga para a família Civita.

* * *

Minha intenção era falar mais detalhes das palestras que assisti, mas o tempo é curto. Cheguei em Campinas às 15h e já estou voltando para Sampa. Não tenho saco para ir direto amanhã de manhã, tendo que acordar antes das 6h.

Eu queria falar da palestra de Eurípedes Alcântara, diretor de redação da Veja. No mesmo dia de sua palestra, ainda pela manhã, José Roberto Guzzo, membro do Conselho Editorial, falou em ética. Pelo menos metade das perguntas se referia à Veja. Na hora que O Cara da revista chegou, simplesmente o tom baixou. Todos esperavam um reacionário fanático ou pelo menos alguém que juraria uma “imparcialidade” da revista.

Alcântara, em foto de Rafael Cusato

Mas não: o homem pôs tudo na mesa logo de cara; que a revista se baseia em dois pilares: economia de mercado e democracia; que tem uma espécie de “missão santa” de combater Chávez e Evo Morales; que o Estado brasileiro é muito pesado e que os governos são corruptos.

Depois muita gente pode ter pensado: “bobagem”, mas a serenidade do cara deixou a todos sem palavras. Da terceira pergunta em diante foram questões amenas (eu pensei numa coisa do tipo: é como tentar convencer um evangélico de que o catolicismo é que é bom. Ele acredita que não e ninguém há de convencê-lo do contrário. Mas o buraco é mais embaixo, pensei depois). Ainda questionei o fato de tamanha cobertura “positiva” da China sendo que o país tem, sim, economia de mercado, mas não tem democracia. Eu queria ter lido as reportagens para poder fazer uma tréplica.

Bom, por essa e por outras que o ponto alto do Curso até agora foi mesmo na sexta-feira, com os caras da Superinteressante dando uma aula magna de harmonia entre texto e imagem. Seria uma sacanagem (para usar um termo que eles devem usar muito) escrever poucas linhas sobre o show dos caras. Só pra deixar um cheirinho gostoso no ar, digo que um dos que falaram, Luiz Iria, editor de arte e infografista, já ganhou tantos prêmios Abril que já não pode mais concorrer.

Mas deixa eu ir que ainda tenho que arrumar mala e aí vem ônibus, metrô, ônibus de novo e hotel boqueta. E ainda nem contei dos meus dois primeiros dias na hospedagem mais estranha que já vi. Outra história que merece um post só pra ela. Perdoem eventuais erros. Tou com pressa para voltar.

UPDATE 18/1/2008:

Errinhos deste post, escrito por um então recém-chegado à “firma”:

  • Existem muitas revistas abrilianas com tiragens abaixo dos 100 mil exemplares. A conta é bem mais complexa.
  • Luiz Iria continua ganhando prêmios Abril, tanto que em 2008 levou mais um. Para arrematar, ganhou o Esso.

Infográficos são Super

2 fevereiro 2007

Hoje teve palestra com o pessoal da Super. Simplesmente fantástica. Harmonia  entre texto e imagem, manja? Não, os caras é que entendem.  Luiz Iria, editor de arte e infografista, passou para nós o clipe de Remind me, do Royksopp. Dá uma boa idéia do que os infográficos podem fazer. 

Ah, esses designers

P.S.: Eu e minha displicência: só agora li esse texto do Bruno. Valeu, amigão.


Os co-responsáveis

1 fevereiro 2007

Escrevo de um PC. Digo isso porque nunca dei tanto valor a este tipo de microcomputador. Aqui na redação tem alguns Macs e eu me vejo em crise diante de um computador em que não acho o acento agudo.

Hoje vieram aqui os co-responsáveis por alguns dos momentos de maior delírio em minha vidinha solteiro-campineira: J.R. Duran e Luis Crispino. O primeiro, que fez da Sexy uma revista melhor quando foi pra lá e o outro por ser autor de ensaios como os de Fernanda Paes Leme e Karina Bacchi.

Minhas “caronas” estão indo. Ainda não decorei o caminho do hotel. Até mais!