Lucro pouco é dinheiro de pinga

Acabo de abrir a Piauí de fevereiro, a primeira da minha “assinatura premiada”, e pego a equipe comemorando a marca de 120 mil exemplares – somadas as quatro primeiras edições. Imediatamente me vem à mente a resposta de Roberto Civita a uma pergunta minha, na abertura do Curso Abril, na segunda-feira.

Perguntei o porquê da Abril não ter investido numa revista do estilo da de João Moreira Salles, sendo que a editora já tem em sua história a feliz experiência de Realidade. A questão de ser ou não ser rentável teria sido resolvida pelo relativo sucesso da Piauí em seus primeiros números. “Dr. Roberto”, como é chamado, contou um pouco da experiência da Realidade, que ele comandou pessoalmente. Do número censurado porque tinha fotos de um parto. E então partiu para a questão prática: como seus altos executivos sopraram pra ele, Piauí tem uma tiragem de 35 mil exemplares/mês. A Abril tem uma pequena porcentagem no negócio. Mas a ela não interessa uma publicação que tenha uma tiragem dessas.

Roberto Civita; foto de Guilherme Maranhão

Não lembro se foi o Hamilton dos Santos, diretor de treinamento e Desenvolvimento Editorial, que falou antes que, na Abril, não basta a um “produto” (esse termo é proibido lá, mas todo mundo fala) dar lucro. Tem que ser rentável. Ou seja: tem que faturar milhões, as tiragens têm de ser superiores a 100 mil. Não é à toa que a empresa fatura 2,2 bilhões por ano. Resumindo: o que a revista do João fatura é dinheiro de pinga para a família Civita.

* * *

Minha intenção era falar mais detalhes das palestras que assisti, mas o tempo é curto. Cheguei em Campinas às 15h e já estou voltando para Sampa. Não tenho saco para ir direto amanhã de manhã, tendo que acordar antes das 6h.

Eu queria falar da palestra de Eurípedes Alcântara, diretor de redação da Veja. No mesmo dia de sua palestra, ainda pela manhã, José Roberto Guzzo, membro do Conselho Editorial, falou em ética. Pelo menos metade das perguntas se referia à Veja. Na hora que O Cara da revista chegou, simplesmente o tom baixou. Todos esperavam um reacionário fanático ou pelo menos alguém que juraria uma “imparcialidade” da revista.

Alcântara, em foto de Rafael Cusato

Mas não: o homem pôs tudo na mesa logo de cara; que a revista se baseia em dois pilares: economia de mercado e democracia; que tem uma espécie de “missão santa” de combater Chávez e Evo Morales; que o Estado brasileiro é muito pesado e que os governos são corruptos.

Depois muita gente pode ter pensado: “bobagem”, mas a serenidade do cara deixou a todos sem palavras. Da terceira pergunta em diante foram questões amenas (eu pensei numa coisa do tipo: é como tentar convencer um evangélico de que o catolicismo é que é bom. Ele acredita que não e ninguém há de convencê-lo do contrário. Mas o buraco é mais embaixo, pensei depois). Ainda questionei o fato de tamanha cobertura “positiva” da China sendo que o país tem, sim, economia de mercado, mas não tem democracia. Eu queria ter lido as reportagens para poder fazer uma tréplica.

Bom, por essa e por outras que o ponto alto do Curso até agora foi mesmo na sexta-feira, com os caras da Superinteressante dando uma aula magna de harmonia entre texto e imagem. Seria uma sacanagem (para usar um termo que eles devem usar muito) escrever poucas linhas sobre o show dos caras. Só pra deixar um cheirinho gostoso no ar, digo que um dos que falaram, Luiz Iria, editor de arte e infografista, já ganhou tantos prêmios Abril que já não pode mais concorrer.

Mas deixa eu ir que ainda tenho que arrumar mala e aí vem ônibus, metrô, ônibus de novo e hotel boqueta. E ainda nem contei dos meus dois primeiros dias na hospedagem mais estranha que já vi. Outra história que merece um post só pra ela. Perdoem eventuais erros. Tou com pressa para voltar.

UPDATE 18/1/2008:

Errinhos deste post, escrito por um então recém-chegado à “firma”:

  • Existem muitas revistas abrilianas com tiragens abaixo dos 100 mil exemplares. A conta é bem mais complexa.
  • Luiz Iria continua ganhando prêmios Abril, tanto que em 2008 levou mais um. Para arrematar, ganhou o Esso.
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One Response to Lucro pouco é dinheiro de pinga

  1. Marcelo Barsan disse:

    Fala André!

    Faz algum tempo que visito o teu blog, mas só agora resolvi comentar. Também sou baiano e vou me formar em jornalismo ainda esse ano. Confesso estar “babando” com esses últimos posts sobre o Curso Abril. Infelizmente, aqui na provinciana Salvador, como vc já deve saber, não temos muitas oportunidades como esta. Penso seriamente em rumar pro Sudeste, pois já vi que essa profissão não vinga fora dos grandes centros.

    Um abraço.

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