A gargalhada na política

29 abril 2007

A morte de Boris Yeltsin trouxe de volta aos telejornais uma rara cena divertida do noticiário político contemporâneo. A reedição da gargalhada que quase mata Bill Clinton de rir diante das câmeras que o enquadravam ao lado do ex-presidente russo, encheu o mundo de nostalgia de um tempo em que os governantes eram no mínimo mais humanos que os poderosos de agora. Bebiam, manchavam vestidos de estagiárias, dançavam, tocavam saxofone, curtiam charutos, davam uns tapas, beliscavam umas e outras, se escangalhavam de rir.

Tutty Vasques fez a melhor síntese do que representou o ex-presidente russo. Aquelas atitudes humanas, demasiado humanas, do presidente beberrão apenas mostravam que os políticos podem ser “gente” também.

O colunista de NoMínimo também revelou um vídeo que eu havia esquecido de procurar, mas que me fez rir só de imaginar a cena descrita no noticiário impresso, que dava conta de que Eduardo Suplicy fez Toninho Malvadeza ficar rosa de tanto rir. O pai do Supla, mais uma vez, leu uma música dos Racionais em sessão do Senado. Só pelo “pá, pá, pááá”, já justificou meu voto nele.

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e-nstalação

25 abril 2007

Não, eu não sou um alternativinho que ouve bandas inglesas desconhecidas ou que passa uma tarde de sábado numa exposição de artistas renegados pelo sistema. Mas eu continuo achando Miranda July genial. Escrevi aqui sobre o filme Eu, você e todos nós, que ela dirige, roteiriza e atua. É muito legal. Daqueles que emocionam, fazem rir e não cabem naquelas divisões de “gênero” [comédia, drama, ação etc.].

Essa é a mina 

 Graças ao Digestivo, soube que Miranda July ela está lançando um livro. O site “promocional” da brochura, contudo, já é uma obra por si só. É a cara da personagem que ela faz no filme [que no fim das contas é a própria artista], com aquela essência experimental e o senso de humor… leve. Vai lá, dá uma olhada. Seu inglês é melhor que o meu e eu li até o fim. Acredite: eu também tenho o pé atrás com essas coisas ditas “alternativas”. Acho que muito mais porque, de tão “alternativas”, ficam “pop”. Passa a ser “cool” dizer que gosta. Miranda July, por sua vez, é legal de verdade.


Leituras

23 abril 2007

Susto 1
Hoje, lendo a Folha: “Bruno Penafiel Sander. Bingueiro, também é suspeito de estar envolvido com a geração de notas frias e contratos simulados”. Por um segundo eu entendi “blogueiro”.

Susto 2
Também na Folha. Vejo na primeira página foto com a legenda: “Ernesto Paulelli, 92, o ‘Arnesto’ cantado por Adoniran Barbosa”. Eu sabia que o Arnesto, do samba “O Arnesto nos convidou/ Prum samba, ele mora no Brás/ Nós fumo não encontremo ninguém” era vivo. Mas alguém havia me falado que ele morava em Valinhos, cidade aqui do lado. Quando vi a foto disse: “Puts! Perdi minha pauta!”. Me acalmei quando li que, apesar de não morar mais no Brás, ele continua morando em São Paulo. Eu não o teria achado

Olha aí o Arnesto

Fernandinho é mestre

Em Londres, tomei um táxi, o motorista perguntou de onde eu era. Quando disse, ele obviamente respondeu com um “Rrronalldínio!” “Kakaaa!” “Rrroubínio!”. Eu concordei dizendo que sim, que sim; ele era de Gana, adorava futebol, mas quando me perguntou o que eu fazia e eu disse que era atriz ele mandou na lata: “City Of God!” “City of God!” Tinha ido ver o filme no cinema, não esquecera.

Fernanda Torres, na Piauí de abril

Falou e disse

FOLHA – Como encara nunca ter recebido um prêmio importante no teatro?
DERCY – Para que eu quero essa merda? Eu não quero, até hoje. Quero dinheiro. Não me dê prêmios, que odeio. Tenho mais de 20 placas, Dercy Gonçalves, o caralho… O que vale é você ter dinheiro para se manter, sair da rua e não precisar ir para o asilo e tampouco para o hospital de graça.

Dercy Gonçalves, no Mais! de ontem

Acabem com os carros!

Na índia, a vaca é tida como animal sagrado ao qual os motoristas devem dar passagem. Em nenhuma parte do mundo o ser humano é similarmente sagrado. O fato de não podermos atravessar a rua se você estiver vindo de carro é tão óbvio, tão banal, que mal parece ser questionável.

Mr. Social Control, em Apocalipse Motorizado – A tirania do automóvel em um mundo poluído


Sustentabilidade

19 abril 2007

Ensinar ecologia para crianças? Quando soube de autores que abraçaram esta missão, desejei não estar na pele de nenhum deles. Se o tema é difícil para adultos, imagine como será explicar isso aos pimpolhos! Peguei quatro livros do tipo e entreguei ao meu primo Guilherme, de sete anos, que passava uns dias aqui em casa. Como eu não o havia incentivado, passados alguns dias ele não havia lido nenhum.

Estreou hoje o portal Planeta Sustentável, espaço que pretende ser “um ambiente pluralista, no qual diferentes pontos de vista contribuam para o desenvolvimento do pensamento autônomo e criativo, capaz de despertar a consciência e qualificar a ação”. Colaborei com duas resenhas, uma delas, você leu um trecho aí em cima, sobre livros infantis que abordam ecologia. A outra é do livro O mal-estar na globalização, de Luciano Martins Costa. Visite o site e aprenda a ser um cidadão sustentável.

Textos:


A vizinha do interior também é ótima

15 abril 2007

Que São Paulo é a capital brasileira da Noite, isso eu pude conferir pessoalmente. Mas Campinas não deixa a desejar nos quesitos bares e gastronomia. Ontem começamos a noite no Subway, em Barão Geraldo, uma franquia de lanchonetes cuja existência eu ignorava [disseram que “até” já apareceu num episódio de Friends]. O negócio me conquistou assim que eu vi que o pão é assado no local. Se é produzido lá, na hora eu quis acreditar que sim.

Você escolhe entre uns cinco tipos de pão [entre preto e de parmesão] e o recheio principal [três tipos de queijo, frango, carne, frutos do mar (!!), entre outros]. Em seguida, outra atendente dá as primeiras opções de recheio extra: “cebolaalfacetomate?”. Fala tudo muito rápido e depois que põe o que você escolheu [escolha hesitante, pela rapidez da decisão], ela manda mais uma saraivada de opções – “pepinopimentãoazeitona?” – para acabar nos molhos – “mostardaemaionese? Azeitepimenta? Molhoprasalada?”. É uma delícia. Tem sabor, aroma, textura, sabe? Ao contrário daquela massa insossa que chamam de “lanche” nos McDonalds da vida.

Em seguida fomos ao Kabana, um bar com balcão de madeira e comanda individual. Esse já tinha me conquistado de outra vez, pelo fato de oferecer Heineken em garrafas de 600 ml. Só que ontem o lugar estava como lhe é peculiar, segundo o Jão, morador do distrito: cheio de mulheres lindas. Chega uma hora em que não há mais mesas, mas o pessoal continua chegando e fica em pé mesmo, como numa balada. A diferença é que o som permite a conversa, essa entidade que praticamente inexiste nas boates.

O lugar tem garçons, mas eu fazia questão de buscar minhas Heinekens no balcão, já que era atendido por duas balconistas simplesmente lindas. Mas não se penalize pelas moças: eu só sorria. Não sou daqueles que tentam xavecar as garçonetes que estão apenas atendendo bem. A música, como eu disse, é num volume agradável e de muito bom gosto. Ontem era noite de rock e rolou Beatles, Clash e um monte de coisas que não sou necessariamente fã, mas que curto numa boa em ocasiões como essa.

A proporção era de pelo menos duas mulheres para cada homem. Sério: ou elas chegavam sozinhas ou em grupos de três belas e um macho, no máximo. Chegamos com o lugar ainda vazio e saímos quando a quantidade de moças começou a diminuir. Queríamos sair com a melhor lembrança possível do lugar.

* * *

Assisti 300. Apesar de haver praticamente só batalhas, em detrimento da História, as lutas são fantásticas. Assim como Jorge Coli [para assinantes da Folha], gostei das cores. Acrescento ainda as cenas nos campos de trigo. Para quem quiser se informar melhor sobre a cidade-estado de Esparta e sobre aquela e outras batalhas, vale ler a Superinteressante desse mês. O leitor vai saber, por exemplo, que ao contrário do que o filme mostra, os guerreiros espartanos não lutavam seminus, mas com armaduras poderosas. O “descarte” dos bebês disformes e a ida aos sete anos de idade para um treinamento militar duro, no entanto, realmente acontecia.

Ah, Rodrigo Santoro parece uma drag queen.

 


Guia ‘Um Baiano Em Campinas’ De Atividades Para Recém-Formados Sem Emprego

11 abril 2007

Neste texto profético de julho de 2006, a única correção que tenho a fazer é que minhas colegas não estão mandando scraps contando suas alegrias por estarem em uma grande empresa. A maioria delas simplesmente não dá noticias. Além disso, não recomendo mais a feitura de fanzines de qualquer espécie. Mas segue o texto na íntegra, pelo compromisso com a posteridade.

* * *

Arranjar emprego não está fácil. Mesmo nós, novos jornalistas criativos e talentosos, estamos relegados a algum emprego sacal ou nem mesmo isso. Quem mandou não fazer Medicina, Engenharia, estas atividades tradicionais e que garantem emprego antes mesmo do cara sair da faculdade? Fazer um curso que tem as mais belas estudantes tem seu preço. Elas estarão trabalhando na TV, num jornalão ou numa revista feminina enquanto nós, marmanjos, estaremos em frente ao computador, com a barba por fazer e a tarde toda no MSN. Mandaremos scraps perguntando como estão, onde estão trabalhando, e elas responderão (com suas fotos sorridentes ao lado de seus namorados engenheiros) com nomes de grandes empresas. Conformado com o futuro desgraçado, mas preocupado com a nossa dignidade perante pais e tias, este blog fornece algumas opções, enriquecedoras ou não, para aqueles que não estarão no mercado de trabalho formal no ano que vem [no caso, 2007]. Se serve de consolo, cito a frase de um professor: “Vocês estão prontos para o mercado… Não sei se o mercado está pronto para vocês”. Enquanto o mercado se prepara, a gente faz uma coisa dessas:

NO EXTERIOR

Aprender ou aperfeiçoar o segundo idioma é fundamental no mundo pós-moderno. Por isso, aí vão algumas opções mais caras e mais econômicas de intercâmbio cultural.

Passar um tempo nos EUA, Canadá ou Austrália – Num país norte-americano você seria um chapeiro do McDonalds ou cortaria a grama daquelas casas de subúrbio com cerca branca. Nesse segundo caso, todos os dias iria trabalhar dirigindo um Honda Civic (o carro mais ralé nos USA) e todos te chamariam de chicano. Na Austrália, poderia ser auxiliar de biólogos que estudam os crocodilos de água salgada, aqueles que atacam os desavisados que passam a noite na praia. Lógico que o “desavisado” cobaia seria você.

Morar na Jamaica ou na Guiana – Nesses países também se fala inglês e eles são mais próximos do Brasil. Não há mais informações sobre a vida nestes lugares, já que nunca são citados na TV porque lá não compram nada da Televisa.

Ir para algum país europeu como Holanda, Espanha ou Suíça – Inevitavelmente você usaria alguma(s) droga(s) legalizada(s) em festas de gente usando moicano verde e saia. Trabalharia num antiquário e andaria com uma galerinha esquisita, em que sua namorada seria uma pós-gótica-pré-apocalíptica que pinta o cabelo de vermelho e tem um piercing no mamilo. Namorar um brasileiro seria a experiência mais exótica da vida dela, mais até do que ter usado uma substância à base de glândulas supra-renais numa rave em Amsterdã.

Ser voluntário na África – Esta é uma opção que, além de te tirar do Brasil, ainda dá créditos para seu Banco de Boas Ações. Depois de passar um ano ajudando africanos famintos e doentes, você poderá ficar uns dois sem precisar ceder seu lugar no ônibus para idosos, vai poder estacionar na vaga de deficientes e ainda falar todos os termos politicamente incorretos que não cito aqui porque ainda não fui voluntário na África.

NA SUA CIDADE

Criar um fanzine impresso – Fanzines impressos xerocados são típicos de estudantes, que os distribuem em sua escola ou universidade. Como você não terá mais faculdade nem escola, esta publicação seria distribuída em pontos estratégicos de sua cidade e traria os escritos de todos os recém-formados desempregados ou em subempregos com algum talento para escrever tosqueiras. Além disso, a publicação teria as tirinhas, charges e/ou caricaturas de algum aspirante a cartunista, revoltado com o mercado-brasileiro-que-não-dá-oportunidade-para-os-novos-talentos.

Mas manter um fanzine impresso é caro, porque papel e tinta são caros. Além do mais, uma distribuição mal feita pode fazer com que os exemplares não passem de papel higiênico de mendigos. Por isso vamos à próxima opção que é…

Criar um fanzine eletrônico – A Internet é o melhor lugar para abrigar as mais diversas porcarias. Não falta gente nessa mídia que acha que desenha bem, que escreve bem (vide este blog que você lê) e se diz injustiçada. Em compensação, se algo é bom, a web vai levá-lo para o mundo inteiro. Existem até “celebridades” da Internet, gente cujo nome não se lê no jornal nem se ouve na TV, mas é admirado por um grupo considerável de internautas. Claro que não seria o seu caso. Você continuaria no mais obscuro anonimato, mas manteria o orgulho de ver o nome na tela até o dia em que o servidor apagasse todos os arquivos. Aí você diria que está trabalhando em um “novo projeto”.

Tornar-se um membro da blogosfera que ganha a vida fazendo traduções ou com atividades que nada tenham a ver com escrita – Como dito anteriormente, a Internet está cheia de celebridades, a maioria delas blogueiros. São pessoas muito criativas e engraçadas. Contudo, esses caras não ganham a vida escrevendo em seus blogs. São engenheiros, publicitários, designers e tradutores. Estes últimos têm a vantagem de trabalhar em frente ao computador o dia inteiro e, mais importante, em casa. Por isso, entre um romance e um relatório de megacorporação, eles escrevem umas 10 linhas super engraçadas e postam em seus blogs superpopulares (não citarei nenhum aqui porque eles já são famosos o suficiente). Para mim, contudo, esta possibilidade está descartada. Primeiro porque não sou engraçado; segundo, porque serei [sou] formado em Jornalismo, não em Design ou Engenharia; terceiro, porque a única coisa que eu poderia traduzir seria algo do baianês para o paulistês e vice-versa.

PELO BRASIL

Mudar-se para Porto Seguro e tornar-se dançarino de axé, capeteiro ou tatuador – Se você tem um certo rebolado e não tem barriga, pode tentar uma carreira de dançarino de axé. É importante frisar que a “carreira” desses rapazes não dura muito e que não há seguro para flacidez abdominal. É fundamental também que o aspirante a esse posto não tenha senso de ridículo. Já para ser capeteiro é preciso ser persuasivo sem ser chato, simpático sem ser xavequeiro. Além, é claro, de saber misturar os ingredientes que fazem um bom Capeta, bebida típica (tradicional, não) daquela cidade litorânea. Quanto à persuasão, o mesmo vale para quem pretende se tornar um tatuador de henna. Este tem, ainda, que saber copiar minimamente bem os desenhos dos álbuns de tatuagem que qualquer tatuador da cidade que desenhe com tinta de cabelo tem.

Virar hippie – Enfim, a última solução para todos os fracassos. A vida dos hippies é muito simples. Não precisam de banho, nem de escovar os dentes, tampouco de moradia. Aliás, o caráter nômade é a parte legal de ser hippie. Por isso eles estão em qualquer cidade, o que te dá várias opções. Com tão poucas necessidades, o pouco dinheiro que os hippies precisam é todo conseguido com a venda de artesanato. Você só precisará catar sementes, folhas secas e alguns araminhos para conseguir seu sustento. Mas se você não tem a menor habilidade para atividades manuais, pode pegar durepox e fazer bolinhas, cobrinhas e ornar cinzeiros e outras inutilidades. “Trabalho” terminado, você diz aquilo é artesanato.

* * *

*Livremente inspirado nos dossiês do Cardoso.
Colaboraram: Cláudio “Gaúcho” Klippel, “Jão” Pedro Ramos, Junior Campeche e Pedro Julião Badaró


Cotidiano

7 abril 2007

Todo dia ele faz tudo sempre igual: é acordado às onze e meia da manhã, pelo despertador do celular que mal funciona, já ta velho e só faz vibrar. Todo dia ele desce para almoçar, mas se pudesse dormia um tanto mais. Ainda tem que dar bom dia pra todo mundo, mesmo sabendo que nada de bom o dia terá.

A comida é sem sal, a conversa a mesma. Come a sobremesa e volta para o quarto. Olha o monte de livros empoeirados e um monte de papel amontoado. Nada dali que possa aproveitar, textos que nunca na vida vai usar; ele senta no pufe, olha para o teto e se contorce na posição de feto.

Todo dia a tia faz cara feia pr’o horário em que ele acordou. Se soubesse que ele só se levanta por causa do despertador… Se deixassem ele dormia o resto da vida. “Menino, isso não é jeito de viver”, essas coisas que diz toda tia-avó, que não teve filho pra cuidar. Ela sempre descontou nos filhos dos outros. E ainda pergunta o que ele vai querer jantar, mesmo sendo ainda meio-dia. “Como posso saber o que vou querer comer?”

Todo dia ele só pensa em poder parar, com essa vida sem trabalho e sem dinheiro. Sente falta do jornal toda manhã e abre uma revista como se ela fosse um pauteiro. Todo dia ele lê umas três publicações, quando enche o saco abre um livro e depois, então, liga a TV, se não tem telejornal assiste um DVD.

Seis da tarde, como era de se esperar, ele já se cansou da sua vida. Mas em vez de dormir liga o computador e fica na Internet até o outro dia. Nessas madrugadas ele vê o quanto não rendeu e se arrepende de não ter feito um pouco mais. Então se entristece, que depressão, quando acordar será mais um dia igual.

Todo dia ele faz tudo sempre igual: é acordado às onze e meia da manhã, pelo despertador do celular que mal funciona, já ta velho e só faz vibrar. Todo dia ele desce para almoçar, mas se pudesse dormia um tanto mais. Ainda tem que dar bom dia pra todo mundo, mesmo sabendo que nada de bom o dia terá.