Guia ‘Um Baiano Em Campinas’ De Atividades Para Recém-Formados Sem Emprego

Neste texto profético de julho de 2006, a única correção que tenho a fazer é que minhas colegas não estão mandando scraps contando suas alegrias por estarem em uma grande empresa. A maioria delas simplesmente não dá noticias. Além disso, não recomendo mais a feitura de fanzines de qualquer espécie. Mas segue o texto na íntegra, pelo compromisso com a posteridade.

* * *

Arranjar emprego não está fácil. Mesmo nós, novos jornalistas criativos e talentosos, estamos relegados a algum emprego sacal ou nem mesmo isso. Quem mandou não fazer Medicina, Engenharia, estas atividades tradicionais e que garantem emprego antes mesmo do cara sair da faculdade? Fazer um curso que tem as mais belas estudantes tem seu preço. Elas estarão trabalhando na TV, num jornalão ou numa revista feminina enquanto nós, marmanjos, estaremos em frente ao computador, com a barba por fazer e a tarde toda no MSN. Mandaremos scraps perguntando como estão, onde estão trabalhando, e elas responderão (com suas fotos sorridentes ao lado de seus namorados engenheiros) com nomes de grandes empresas. Conformado com o futuro desgraçado, mas preocupado com a nossa dignidade perante pais e tias, este blog fornece algumas opções, enriquecedoras ou não, para aqueles que não estarão no mercado de trabalho formal no ano que vem [no caso, 2007]. Se serve de consolo, cito a frase de um professor: “Vocês estão prontos para o mercado… Não sei se o mercado está pronto para vocês”. Enquanto o mercado se prepara, a gente faz uma coisa dessas:

NO EXTERIOR

Aprender ou aperfeiçoar o segundo idioma é fundamental no mundo pós-moderno. Por isso, aí vão algumas opções mais caras e mais econômicas de intercâmbio cultural.

Passar um tempo nos EUA, Canadá ou Austrália – Num país norte-americano você seria um chapeiro do McDonalds ou cortaria a grama daquelas casas de subúrbio com cerca branca. Nesse segundo caso, todos os dias iria trabalhar dirigindo um Honda Civic (o carro mais ralé nos USA) e todos te chamariam de chicano. Na Austrália, poderia ser auxiliar de biólogos que estudam os crocodilos de água salgada, aqueles que atacam os desavisados que passam a noite na praia. Lógico que o “desavisado” cobaia seria você.

Morar na Jamaica ou na Guiana – Nesses países também se fala inglês e eles são mais próximos do Brasil. Não há mais informações sobre a vida nestes lugares, já que nunca são citados na TV porque lá não compram nada da Televisa.

Ir para algum país europeu como Holanda, Espanha ou Suíça – Inevitavelmente você usaria alguma(s) droga(s) legalizada(s) em festas de gente usando moicano verde e saia. Trabalharia num antiquário e andaria com uma galerinha esquisita, em que sua namorada seria uma pós-gótica-pré-apocalíptica que pinta o cabelo de vermelho e tem um piercing no mamilo. Namorar um brasileiro seria a experiência mais exótica da vida dela, mais até do que ter usado uma substância à base de glândulas supra-renais numa rave em Amsterdã.

Ser voluntário na África – Esta é uma opção que, além de te tirar do Brasil, ainda dá créditos para seu Banco de Boas Ações. Depois de passar um ano ajudando africanos famintos e doentes, você poderá ficar uns dois sem precisar ceder seu lugar no ônibus para idosos, vai poder estacionar na vaga de deficientes e ainda falar todos os termos politicamente incorretos que não cito aqui porque ainda não fui voluntário na África.

NA SUA CIDADE

Criar um fanzine impresso – Fanzines impressos xerocados são típicos de estudantes, que os distribuem em sua escola ou universidade. Como você não terá mais faculdade nem escola, esta publicação seria distribuída em pontos estratégicos de sua cidade e traria os escritos de todos os recém-formados desempregados ou em subempregos com algum talento para escrever tosqueiras. Além disso, a publicação teria as tirinhas, charges e/ou caricaturas de algum aspirante a cartunista, revoltado com o mercado-brasileiro-que-não-dá-oportunidade-para-os-novos-talentos.

Mas manter um fanzine impresso é caro, porque papel e tinta são caros. Além do mais, uma distribuição mal feita pode fazer com que os exemplares não passem de papel higiênico de mendigos. Por isso vamos à próxima opção que é…

Criar um fanzine eletrônico – A Internet é o melhor lugar para abrigar as mais diversas porcarias. Não falta gente nessa mídia que acha que desenha bem, que escreve bem (vide este blog que você lê) e se diz injustiçada. Em compensação, se algo é bom, a web vai levá-lo para o mundo inteiro. Existem até “celebridades” da Internet, gente cujo nome não se lê no jornal nem se ouve na TV, mas é admirado por um grupo considerável de internautas. Claro que não seria o seu caso. Você continuaria no mais obscuro anonimato, mas manteria o orgulho de ver o nome na tela até o dia em que o servidor apagasse todos os arquivos. Aí você diria que está trabalhando em um “novo projeto”.

Tornar-se um membro da blogosfera que ganha a vida fazendo traduções ou com atividades que nada tenham a ver com escrita – Como dito anteriormente, a Internet está cheia de celebridades, a maioria delas blogueiros. São pessoas muito criativas e engraçadas. Contudo, esses caras não ganham a vida escrevendo em seus blogs. São engenheiros, publicitários, designers e tradutores. Estes últimos têm a vantagem de trabalhar em frente ao computador o dia inteiro e, mais importante, em casa. Por isso, entre um romance e um relatório de megacorporação, eles escrevem umas 10 linhas super engraçadas e postam em seus blogs superpopulares (não citarei nenhum aqui porque eles já são famosos o suficiente). Para mim, contudo, esta possibilidade está descartada. Primeiro porque não sou engraçado; segundo, porque serei [sou] formado em Jornalismo, não em Design ou Engenharia; terceiro, porque a única coisa que eu poderia traduzir seria algo do baianês para o paulistês e vice-versa.

PELO BRASIL

Mudar-se para Porto Seguro e tornar-se dançarino de axé, capeteiro ou tatuador – Se você tem um certo rebolado e não tem barriga, pode tentar uma carreira de dançarino de axé. É importante frisar que a “carreira” desses rapazes não dura muito e que não há seguro para flacidez abdominal. É fundamental também que o aspirante a esse posto não tenha senso de ridículo. Já para ser capeteiro é preciso ser persuasivo sem ser chato, simpático sem ser xavequeiro. Além, é claro, de saber misturar os ingredientes que fazem um bom Capeta, bebida típica (tradicional, não) daquela cidade litorânea. Quanto à persuasão, o mesmo vale para quem pretende se tornar um tatuador de henna. Este tem, ainda, que saber copiar minimamente bem os desenhos dos álbuns de tatuagem que qualquer tatuador da cidade que desenhe com tinta de cabelo tem.

Virar hippie – Enfim, a última solução para todos os fracassos. A vida dos hippies é muito simples. Não precisam de banho, nem de escovar os dentes, tampouco de moradia. Aliás, o caráter nômade é a parte legal de ser hippie. Por isso eles estão em qualquer cidade, o que te dá várias opções. Com tão poucas necessidades, o pouco dinheiro que os hippies precisam é todo conseguido com a venda de artesanato. Você só precisará catar sementes, folhas secas e alguns araminhos para conseguir seu sustento. Mas se você não tem a menor habilidade para atividades manuais, pode pegar durepox e fazer bolinhas, cobrinhas e ornar cinzeiros e outras inutilidades. “Trabalho” terminado, você diz aquilo é artesanato.

* * *

*Livremente inspirado nos dossiês do Cardoso.
Colaboraram: Cláudio “Gaúcho” Klippel, “Jão” Pedro Ramos, Junior Campeche e Pedro Julião Badaró

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3 Responses to Guia ‘Um Baiano Em Campinas’ De Atividades Para Recém-Formados Sem Emprego

  1. Sobre o tópico “Virar Hippie”, você escreveu inúmeras inverdades! Sou maluca de estrada, vivo de artesanato, TOMO BANHO, ESCOVO OS DENTES, USO PERFUME, ROUPAS LIMPAS, enfim… NESCI COM O DOM! Não basta apenas enrolar bolinhas, cobrinhas, minhoquinhas e todas as merdas que vocÊ disse pra ser artesão e nem muito menos catar semetinhas, folhinhas (que aliás, nem são usadas por nós, verdadeiros atesãos de mãos cheia!) e pequenos pedaços de arame, isso que você escreveu aí tem nome: FU-LEI-RA-GEM! E sabe o que eu penso sobre você: NEM ÁGUA PRA TÚ! SEU PREGO! Se for desse modo que pretende “virar hippie”, vai morrer de fome, levar pau no gato e sem massagem toda a horinha na estrada.
    Hippie do Brasil… que merda!

  2. SessionTV disse:

    JORNALISTAS RECEM FORMADOS VENHAM FAZER PARTE DO NOSSO CASTING…

    http://www.sessiontv.com

  3. Dione disse:

    Nossa cara…sinto muito em dizer isso…mas vc é uma pessoa de dar pena…formado e tão burro!!!Ninguém pode falar da vida das pessoas sem vivencia!
    Não sou Hippie, nem maluca de BR…porém tenho respeito a vida de qualquer pessoa!
    Vc deve ser um filhinho de papai q tem tudo pra ñ saber a dureza da vida, e preconceituoso o suficiente pra achar q é melhor q alguém, e julgar oq acha q as pessoas fazem…
    A vida é uma escola…aprenda com ela!!!
    E não pense q é melhor q alguém por causa desse cursinho de merda q vez…antes ñ tivesse feito assim nos pouparia de ouvir certos tipos de asneiras fingidas ser inteligentes…

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