Bicho Papão

Quando estou lendo o jornal e vejo uma notícia falando do papa, eu ignoro. Faço um muxoxo, uma expressão blasé, e comento com meus botões: “E eu com isso?”. Tem tanta gente assim dando importância ao fato de que Bento XVI vai “permitir” que se use camisinha? – desde que seja para o sexo entre pessoas casadas e que um tenha o vírus do HIV. Alguém ainda parava para pensar, “Hmmm… Não posso usar camisinha, a igreja não deixa.”? Aí reclamam que estão perdendo “fiéis”.

O papa vem ao Brasil e o governo e a prefeitura de São Paulo vão gastar uma nota para garantir a segurança e o conforto do “sumo pontífice”. Aquele monte de gente vai lá venerá-lo, sendo que ninguém o conhecia até pouco tempo. E todo mundo sabe que não foi Jesus quem desceu à Terra para dizer que ele deveria ser o sucessor de João Paulo II. Um bispo brasileiro revelou em off a um jornal que o lobby que Ratzinger fez para poder ganhar foi, no mínimo, agressivo.

Vossa Santidade vem também oficializar mais um santo. Eu nunca vi uma religião que se diz monoteísta ter tantos “deuses paralelos”. É um milagreiro para cada coisa: dos motoristas [São Cristóvão, afinal, carros são uma criação divina], dos solteiros [Santo Antônio, o “santo casamenteiro”], Santo Expedito [causas urgentes]. Não tem nenhum para ações de longo prazo? Tipo São Mangabeira? E agora querem transformar o antigo papa em santo.

Eu normalmente nem comento essas coisas porque as considero simplesmente irrelevantes. Mas o que eu não revelei até hoje é que, na verdade, eu tenho medo de Bento XVI. Assim como Michael Moore diz que se caga por George W. Bush, que ele tanto critica, parece que Ratzinger passou a mostrar a cara na mídia para me amedrontar. Ele é agora o que foi a Cavala na minha infância. Um monstro que só deve existir para algumas crianças baianas. Quando eu entro no meu quarto, no escuro, é a imagem dele que imagino, com os olhos vermelhos, brilhando, a me esperar para levar-me a uma sala de torturas.

Eu imagino Ratzinger num uniforme militar preto [a menção de que ele fez parte das tropas nazistas, mesmo tendo desertado, me causou essa associação], de botas até os joelhos, com um chicote na mão direita, batendo na perna enquanto caminha por um corredor escuro e úmido. O som de seus passos causa eco naquele silêncio mórbido. Então abrem uma porta de ferro e lá estou eu, sentado numa cadeira no centro de uma cela de paredes de pedra. Um feixe de luz me ilumina. Estou amarrado, nu, molhado, tremendo de medo e de frio. Ele fala de longe, olhando para mim, do alto de seu poder. Depois chega bem perto do meu rosto e murmura alguma coisa assustadora que me faz ter calafrios.

Ele é o Goldstein e eu o Winston Smith de 1984. Assim como Smith, eu também odeio ratos, e Godstein/Ratzinger ameaça pôr minha cabeça dentro de uma gaiola cheia de ratazanas imensas, peludas, sujas e sedentas de sangue. É mais por isso que eu ignoro as notícias sobre Bento XVI. Fosse o anterior, também não daria importância, mas Karol Woytila me dava pena. Todo frágil e não renunciava ao fardo de viagens e discursos.

É por isso que, enquanto Ratzinger estiver aqui, eu estarei no meu quarto, isolado, pulando as páginas do jornal que vão falar dele. Não vou ver televisão. Vou assistir um DVD atrás do outro e só acessarei sites confiáveis. Manter os olhos fechados enquanto a luz estiver apagada é uma boa também. Nunca se sabe se o Bicho Papão estará lá.

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6 Responses to Bicho Papão

  1. Ei, André esses posts estão sensacionais.
    Os vídeos youtubísticos também
    Um beijão, estou morrendo de rir.
    Concordo contigo e com o Tutty.
    Meg

  2. Diego disse:

    Muito fino o humor desse texto, rapaz. Parabénzes!

  3. Ei!!! Decididamente essa fotinha ilária me lembrar do Mestre dos Magos em sua odisséia na Caverna do Dragão, kkkkkk
    Beijos

  4. Joyce disse:

    Pow kra, q isso? Q religião vc é? Pow num fala mal do Papa naum? O q ele t fez? Ele só quer fazer o bem!!!! Pense nisso!!!!Coitado!!!!Se quiser entrar em contato comigo pode entrar, (entra aew), é esse meu msn: “joye.rena.ta@hotmail.com”!!!!

    Mantem contato e pense nu q t disse, ok?

  5. O que fez o Papa? E o que não fez? Permitir que milhões de seres humanos morram de sida nos países em que a Igreja Católica dá cartas (Àfrica, México, Filipinas, etc.), é pouco? Encobrir os casos de pedofilia é pouco? Hostilizar toda a gente que não é católica, ao asumir-se como o herdeiro de Jesus, e a Igreja Católica a sua representante única, é pouco? Aliar-se aos poderosos e ignorar o sofrimento dos sem-terra do mundo, é pouco? manter o povo na ignorância, insistindo nas teologias medievais dos demónios e dos infernos (e estragando assim o trabalho de J.P. II) é pouco? Para mim não é Papa; é Papão, sim!

  6. Henrique disse:

    É sempre mais fácil “comprar” o que já vem mastigado no jornal nacional do que entrar no site oficial do Vaticano, por exemplo, ou procurar um pároco para se informar sobre o que de fato está acontecendo.

    Aqui vai um trecho de documento oficial, redigido por Joseph Ratzinger (Papa Bento XVI):

    “Os cristãos devem se considerar irmãos de todos os homens, e se comportar de acordo com isso. No que diz respeito às religiões não cristãs, a Igreja Católica não rejeita nada daquilo que nelas seja verdadeiro e sagrado. Desse modo, no que diz respeito às outras religiões, os católicos tentam dar valor aos elementos de verdade, não importando onde sejam encontrados, e ao mesmo tempo prestar testemunho da novidade da Revelação de Cristo, preservada em sua integridade pela Igreja. Coerentes com essa atitude, rejeitam como alheio ao Espírito de Cristo qualquer discriminação contra pessoas baseada em religião. As diferenças entre as religiões nunca deveriam ser causa de violência. Em vez disso, as pessoas de credos diferentes devem se sentir motivadas, justamente por causa dessas crenças, a trabalharem pela paz e pela justiça.”

    Não devemos acreditar prontamente em tudo que diz a mídia. Ela está atualmente dominada por um tipo de intelectualismo marxista que detesta o catolicismo, e ainda mais o atual Papa, por ele ser conservador. O que eles queriam e esperavam do novo pontífice era que fosse um revolucionário, uma espécie de “Che Guevara de batina”, lutando pelos direitos dos sem terra e dos sem teto, dos excluídos, pela reforma política, etc, etc, etc… O que o mundo secular mais queria era ver o novo papa liberalizando usos e costumes modernos, como abortos, casamentos homossexuais e pesquisas com células-tronco (um eufemismo para assassinato de fetos que só uma ciência anticristã poderia levar adiante), além da liberação total das novas ”teologias” que mais e mais se afastam do cerne doutrinário original. Mas Bento XVI preferiu iniciar um movimento de volta às origens. Tem muita gente importante decepcionadíssima, e não vão sossegar enquanto durar este papado. Até lá, tudo que ele disser será usado contra ele mesmo.

    Há pouco tempo, você com certeza se lembra, a mídia divulgou maçiçamente que o Papa teria afirmado que os divorciados são uma praga, e também que ele tinha decretado que as missas voltassem a ser rezadas em latim, com o sacerdote de costas para os fiéis, excluindo o povo da celebração, entre outras coisas…

    A grande maioria, lógico, não se importou em ir buscar os fatos, exatamente como está acontecendo agora. Eu mesmo fiquei surpreso com a notícia. Mas bastou uma lidinha no documento oficial do Vaticano para ver que a tradução que a mídia brasileira divulgou (com críticas pesadíssimas ao Papa) estava completamente errada! A palavra “piaga” do original italiano, significa “chaga”, e nunca “praga”, como muita gente até hoje acha que ele disse. Quem ler o documento vai ver que ele se refere ao crescente número de divórcios entre cristãos (porque ele não ataca as outras religiões, ainda que muitas delas tenham como passatempo favorito atacar o catolicismo) é uma “piaga”, ou seja, uma “chaga” para o Cristianismo, motivo de muita tristeza para a Igreja, porque as pessoas estão perdendo o sentido do sagrado nas relações, em especial no matrimônio.

    Perceba como a afirmação, vista da maneira como ela realmente foi feita, tem um significado completamente diferente do que foi amplamente divulgado. Sobre o decreto das missas voltarem a ser celebradas em latim, isso simplesmente nunca existiu! O que o Papa propôs foi que em conclaves e celebrações especiais entre cardeais, como uma forma de se preservar uma tradição que remonta ao tempo dos primeiros apóstolos, certas partes da celebração fossem feitas em latim.

    Agora me diga: isso foi ou não uma deturpação completa?

    Observação importante: Este Papa, desde o início, não está tentando atrair mais adeptos para o catolicismo, ao contrário. Ele está tentando dilapidar a Igreja. Na opinião dele (e na minha), as igrejas andam lotadas, mas de gente que não sabe exatamente o que está fazendo ali, e ele quer mudar isso. Ele já declarou publicamente, questionado sobre a perda de fiéis do catolicismo, que não está preocupado com quantidade, mas sim que os católicos sejam católicos de fato. Só para constar: uma profecia feita por S. Malaquias, há mais de 800 anos, diria que este Papa seria o depurador e renovador da Igreja…

    Pra encerrar, sobre a última declaração feita por Bento XVI, sobre o catolicismo ser a única verdadeira Igreja de Cristo. Eu realmente não vejo nenhuma contradição no líder do catolicismo declarando que o catolicismo é a perfeita Igreja de Cristo. O Dalai Lama também diz que o budismo é o verdadeiro caminho da iluminação, e seria muito esquisito se ele falasse o contrário.

    O documento diz, basicamente, que não se pode igualar todas as religiões cristãs e colocá-las “no mesmo saco”, principalmente porque novas (e malucas) seitas não param de surgir todos os dias. Como as igrejas surgidas depois da “reforma” protestante quebraram a sucessão apostólica e deixaram de lado os sacramentos, elas não podem ser consideradas Igreja, mas sim comunidades cristãs. O documento afirma, entretanto, que isso não significa que os outros cristãos, ou mesmo os seguidores de religiões não-cristãs, estejam excluídos da salvação, mesmo que não se convertam ao catolicismo.

    Na verdade, o que o Vaticano II procura é desenvolver o ecumenismo e não o sincretismo. A Igreja sempre se disse a única verdadeira desde quando surgiu (e por motivos óbvios). O que o Papa disse é que a Igreja Católica (=UNIVERSAL) é a única que já tem todos os requisitos necessários e suficientes para que uma pessoa esteja no caminho certo do seu desenvolvimento espiritual. Pois, após a cisma do oriente e as ondas da revolução protestante, a Igreja se dividiu, e muitas outras comunidades tentam hoje usurpar um lugar que não lhes pertence. Elas deveriam ter a consciência de reconhecer que são comunidades cristãs sim, mas são protestantes. São Igrejas ortodoxas, mas não universais (católicas). A Igreja Católica é de fato a única que foi fundada por Cristo e todo historiador sabe disso. Mas o Papa tem a consciência de que a Igreja não é a dona da verdade. Ele apenas disse que como INSTITUIÇÃO RELIGIOSA, a Igreja Católica tem todos os requisitos suficientes de que o homem necessita numa instituição. Não disse nada mais que a verdade.

    Honestamente, acho que vamos continuar vendo, ainda por um bom tempo, polêmicas forçadas em tudo que esse Papa falar e fizer. Mas a minha opinião pessoal é a de que talvez tudo isso faça parte de um Plano maior, um sinal entre muitos outros.

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