Aula de Jornalismo

O livro que mais me ensinou sobre jornalismo foi escrito por um chef. Cozinha Confidencial, de Anthony Bourdain, tem ensinamentos preciosos sobre trabalho em equipe, dedicação, carreira e escrita – essa última pelas linhas divertidíssimas que o escritor-chef traça nas mais de 300 páginas do livro. Digno de um discípulo de Hunter Thompson que é, Bourdain faz com que a leitura desta mistura de memórias com lições seja tão deliciosa quanto o mais sofisticado prato de seu menu.

Se ele cozinha tão bem quanto escreve, você tem um compromisso com seu paladar quando for a Nova York. Não deixe de comer no Les Halles, o restaurante em cuja cozinha praticamente moram Bourdain e seus excêntricos subordinados. Assim como a faculdade de jornalismo, parece que a cozinha é o lugar dos que não sabem o que querem da vida. A única diferença é que os estudantes têm quem gaste dinheiro por eles, enquanto os lavadores de prato, cumins e padeiros precisam ganhar a vida.

Há trechos do livro que deveriam ser copiados e pregados em todas as redações. Aliás, Cozinha Confidencial é muito mais útil do que qualquer manual de redação. Você, caro estudante de jornalismo ou recém-formado, quer mesmo entrar para esse ramo? O tio Anthony dá algumas dicas. Quando ele disser chef, imagine algo como diretor de redação, editor-chefe ou mesmo repórter. Quando ler fornecedor, pense numa fonte ou em qualquer outra pessoa que não seja seu chefe. Vamos lá.

Quer dizer então que você quer ser um chef? Você quer mesmo, de verdade, no duro, se tornar um chef? Se esteve trabalhando num outro ramo de negócios, se está acostumado a operar das nove às cinco, com nos fins de semana e as noites de folga, tirar férias com a família, fazer sexo regularmente com sua outra metade dileta; se está acostumado a ser tratado com um mínimo de dignidade […], então talvez você devesse pensar um pouco melhor em tudo que terá de enfrentar […]

Eu não estava brincando quando disse antes que, pelo menos no começo, você não tem direito nenhum, não está autorizado a expressar opinião ou personalidade e que será tratado como gado – só que com menos utilidade. Acredite.

Pavoroso, não? Mas se você tem alguma vocação para o jornalismo, vai saber que não se deve acreditar em ninguém – muito menos em jornalistas. Se você acha que eles não mentem, não erram ou não exageram, caia fora. Se tem um mínimo de senso crítico e sabe bem o português, “Bem vindo ao meu mundo!”, como diz Bourdain. “E pense nestas sugestões em relação a conduta, atitude e preparo para a trilha que pretende seguir.”

1. Comprometa-se de corpo e alma. Não fique em cima do muro e não enrole. Se você vai ser um chef um dia, então esteja certo disso, seja obcecado em sua determinação de chegar à vitória a todo custo. […] Apronte-se para obedecer a ordens, para dar ordens quando for preciso e para viver com as conseqüências dessas ordens sem queixumes. Esteja pronto a liderar, a obedecer ou a sair do caminho.
[…]

3. Nunca, jamais, aceite propinas ou caixinhas de um fornecedor. No fim, eles acabam tendo você nas mãos, e quanto a você, terá vendido seu melhor ativo como chef – sua honestidade, sua confiabilidade e sua integridade – num negócio em que essas são qualidades quase sempre raras e valiosíssimas.
[…]

5. Nunca invente desculpas nem culpe os outros.

6. Nunca ligue dizendo que não vai trabalhar porque está doente. Exceto em casos de desmembramento, hemorragia arterial, feridas fundas no peito ou a morte de um integrante próximo da família. A vovó morreu? Enterre-a no seu dia de folga.

7. Preguiça, relaxamento e moleza, não. Empreendedor, engenhoso e hiperativo, sim.

8. Esteja preparado para testemunhar todos os tipos de loucura e injustiça. Sem deixar que isso mexa com sua cabeça ou envenene sua atitude. Você simplesmente terá de agüentar as contradições e iniqüidades dessa vida. […]

9. Presuma o pior. A respeito de todos. Mas não deixe que essa perspectiva envenenada da vida afete sua atuação profissional. Deixe isso para lá. Ignore. Divirta-se com as coisas que vê ou suspeita. Só porque alguém que trabalha com você é um cretino miserável, traiçoeiro, caprichoso, corrupto e interessado apenas em tirar vantagem não deve impedir que você curta a companhia dele, trabalhe com ele ou o ache divertido. Neste ramo, os cretinos brotam com imensa facilidade […]

13. Leia! Leia livros […], revistas […].
14. Encare as coisas com senso de humor. Você vai precisar.

E assim como Bourdain mostra que comer é muito mais do que encher a barriga, saiba que escrever para os outros é muito mais do que abrir o Word e digitar um monte de declarações. Não importa se você comenta novelas ou faz reportagens sobre a política externa do Cazaquistão: seu trabalho deve ser feito com carinho e respeito ao leitor. Ele não tem nada a ver com o fato de seu chefe ser um chato ou seu salário ser baixo. Quer ganhar dinheiro? Mude de ramo. Se você é um jornalista por vocação, é um masoquista. Resmunga e xinga, mas não muda de profissão por nada.

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One Response to Aula de Jornalismo

  1. Ana Bürger disse:

    Bayy…
    Foi seu aniversário neh…
    Perdoe-me o esquecimento…ando acessando pouco o orkut! hehe…
    De qualquer forma, mesmo um pouco atrasado, os desejos de felicidades continuam sinceros!
    Beijos e abraços!
    Ana 🙂

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