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As invasões bárbaras, filme do franco-canadense Denys Arcand, me mostrou a melhor forma de morrer em paz. Não há morbidez nenhuma no que estou dizendo. É muito mais confortável quando compreendemos que a morte é tão normal quanto o nascimento. A única certeza da vida é que ela acaba. E já que vou morrer, quem me dera fosse como o personagem Rémy, muito bem interpretado por Rémy Girard. Se tivesse escolha, quando fosse a hora de eu deixar esse mundo tão cruel, mas tão saboroso (meu Deus, como é saboroso), eu queria estar numa casa à beira de um lago, ou da praia, cercado dos meus melhores amigos. Só comeríamos a melhor comida: bacalhoada, moqueca, vatapá, galinha ao molho pardo, estrogonofe, acompanhada de vinhos e cervejas. Que não me fizessem restrições. O que podem negar a um homem no fim da vida? Qual o sentido de lhe privarem dos prazeres que ele teve de evitar durante toda ou quase toda sua existência? Por isso, não quero que me neguem nada. Como o filho de Rémy – o mesmo que não se furta em subornar, correr o risco de ser preso, gastar dinheiro, para dar um último privilégio ao pai.

Meu filho, que há de ser como o de Rémy, convocaria os meus amigos, que, provando serem amigos, não iam se importar com coisas passageiras como emprego, casamento, saúde ou dinheiro. Estariam todos ao meu lado. Lembraríamos o passado, nossos sonhos, ilusões e desilusões. Falaríamos um monte de bobagens e sacanagens. Daríamos risada da nossa ingenuidade, das nossas farras, dos nossos amores não correspondidos… E bem que elas poderiam ir se despedir de mim. Todas as mulheres por quem me apaixonei, se tiverem um mínimo de consideração, vão me dar o (talvez) primeiro e (certamente) último beijo. E nada de choro. Que ninguém tenha pena de mim. Seria como se estivessem ali apenas passando um fim-de-semana como qualquer outro. E se, em algum momento, eu sentisse medo de sofrer ou de sentir dor, eu pediria para morrer de uma vez. E não ia dar tchau para ninguém. Não gosto de me despedir quando vou voltar, imagine quando souber que não volto! E não ia repetir que amo a todos. “Todo mundo me deu um abraço hoje? Um beijo? Já tomamos todo o vinho e a cerveja do estoque? O tempo vai esfriar? Fulana, você ainda dá um caldo. Acabou o camarão? Ih, já contei essa história hoje? Então vão cuidar das suas vidas, que para mim já deu.”

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8 Responses to .

  1. Kelly Baêta disse:

    Será que temos medo da morte, por que queremos ser imortal? Ou o desejo de ser imortal nos faz ter medo da morte?

  2. Róger disse:

    Maneira interessante de planejar o fim da vida… conte com a minha presença… hehehe

  3. pedroluts disse:

    mto loco o texto, bay!
    estava empolgado, hein??

    e sobre sua sugestão de terminar sua vida…

    quer fazer isso amanhã???

    OOOORRRRAAAA…
    peguei pesado! to zuando!!!

    vc sabe q eu quero q vc viva mto… quem mais eu vou zoar? (sim, eu sei q tem mmttaa gente…)

    abrassss…
    curti o texto memo!

  4. Léo disse:

    Nada impede um fim de semana desse sem que ninguém morra né?

    Muito bom, Bay, mas ainda tenho medo pra caralho de morrer…

    Quando tiver um tempo, saca só os textos desse cara: http://marconileal.blogspot.com/

    Abrasss

  5. Ana Bürger disse:

    Bay,
    Só uma palabra: fabuloso!

    Que assim seja, para nós todos!

    Bejosss

  6. Gabriel Baldocchi disse:

    Fala Julian,

    Vez ou outro consigo entrar na net para me deliciar com textos de tamanha qualidade e de algum amigo de facul. Tenho a mesma sensaçao de quando pego a minha unica Piaui para reler inumeras vezes aqui na gringa. é demais e nao me canso. Ainda mais daquele texto sobre a doença do sono a IFF, que tem varias passagens aqui na Italia. Da arrepios bicho!! Acho que isso é o poder da palavra.

    Cara, voce queria estar com os amigos quando estiver morrendo! Eu so queria estar com eles agora!! Sera que eu estou morrendo?

    HEHEH

    Pergunta para se pensar…
    Abraço

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