Meninos, eu vi: sardinha, assalto e neosaldina

O relógio ainda não marcava 13h30 quando o telefone tocou. Do outro lado da linha, Bruno Ribeiro chamava para apresentar-me um bar. Explicada a localização, tirei o pijama e fui em direção ao Centro, no primeiro ônibus que passou. Das vantagens de Campinas, uma é poder ir de um bar para o outro sem necessidade de veículo automotor, o que dá margem para acontecimentos como uma maratona de bares, por exemplo. Não foi exatamente o que aconteceu naquele sábado de sol, mas chegamos perto.

O Bar [fico devendo o nome] é pequeno. Quando cheguei, o Bruno tomava a abrideira (creio eu) apoiado no balcão. Só havia uma mesa, que logo ocupamos. Outras estavam empilhadas ali perto. O chão, cheio de bitucas de cigarro. Os freqüentadores (dentre eles um velho barrigudo e de bigode branco) dividiam espaço com os engradados de cerveja, cujas garrafas vazias a dona fazia de cinzeiro. Para mim, nenhum problema. A cerva sendo barata, não me importo com mais asseio.

O Bruno jurava que o lugar tinha a melhor sardinha que ele já havia comido, entrando nessa conta os bares de Campinas e os do Rio de Janeiro que o nosso cronista do butiquim (corrija a grafia e terá nosso desprezo) havia freqüentando. Meninos, eu comi. As sardinhas vêm sequinhas, nem parece que foram fritas. Uma casquinha crocante cobre os peixinhos, que não possuem nenhuma espinha. Não é preciso mais molho além de umas gotas de limão. Anthony Bourdain se encantaria. O preço, não me pergunte. Não paguei a conta.

Sardinhas (a)provadas, era hora de mudar de bar. A tarde era uma criança e o mestre precisava mostrar ao aprendiz quais os melhore bares de Campinas. Mas antes de chegarmos ao Bar do Maurício, uma pausa para a vida como ela é…

* * *

O assalto
Íamos andando tranqüilamente pela José Paulino, falando amenidades, quando ouço uma moça dizer: “Ou!”. Um homem passa de bicicleta por nós. A moça, num tom de voz tranqüilo (depois eu percebi que era atônito), diz: “o cara roubou minha bolsa”. O sujeito já estava bem adiante quando eu avisei para o Bruno: “o cara roubou a bolsa da mina”.

No meu pragmatismo, já havia calculado a distância em que o larápio estava e a condição física dos boêmios. Não havia mais o que fazer. Mas o Bruno resolveu agir. “Vamos ver se a gente alcança ele”. No caminho – meninos, vocês tinham de ver – o Bruno ainda deu uma parada brusca, parecendo de desenho animado, para pegar uma pedra solta do calçamento. Mas não havia mais sinal do meliante. Só nos restou dar um dinheiro para a moça pegar o ônibus de volta para casa. Vamo andando que o Mercadão ta fechando.

* * *

O Bar do Maurício [também fico devendo o nome, se não for esse] fica no Mercado Campineiro, uma versão século XXI do tradicional Mercadão. O lugar estava lotado e não havia mesas. Em compensação, tomamos uma Heineken 600 ml que o Maurício não quis cobrar. Eu vi copos de cerveja de formatos até então desconhecidos. As pessoas bebiam de pé cervejas de várias marcas (o Bruno me disse que tem cerveja de R$ 50 a garrafa – de cerâmica).

Como é contra nossos princípios beber de pé sem ao menos um balcão, zarpamos para a saideira. Ali na Praça Carlos Gomes, paramos num bar que fica num casarão histórico. Coisa linda, a fachada. Meu parceiro disse que estava “empapuçado” de cerveja e ia pedir uma caipirinha para encerrar. Eu, para não fazer feio, pedi uma também. “De pinga ou de vodca?” Diante de mim, um patriota dizia a resposta óbvia. Eu não ia decepcionar meu amigo e arrematei: “para mim também, de pinga”.

Meninos, eu vi. Eu vi as luzes do centro quase me cegando; minha cabeça parecia ter uma furadeira atrás dos olhos (onde eu ouvi isso?) de tanto que doía. Fiquei sentado no ponto de ônibus, ansioso que passasse logo um para me levar para o descanso do lar, mas me arrisquei a perder o bonde para entrar numa farmácia e comprar um analgésico. Era questão de vida ou morte.

“Você tem Doralgina, aí?”
“Com Doralgina nós não trabalhamos, senhor”
“Doralgina é… genérico da… Daquele lá…” – eu não acreditava que alguém que trabalhasse numa farmácia não dissesse logo o nome do remédio.
“Nós temos Neosaldina”
“Eeeesse!!!”

Assim que saí do estabelecimento, passou o meu ônibus. Engoli o comprimido assim que me sentei. A furadeira, agora, além de ligada, parecia se movimentar para cima e para baixo. E o mais incrível de tudo, meninos, não foi o assalto, não foi a dor de cabeça, nem a alta qualidade do que comi e bebi. O mais incrível é que, quando eu me despedi do Bruno, ele falava tranqüilamente em tomar um banho para ir até a casa de um amigo. Estava sóbrio como quem tivesse bebido água a tarde inteira.

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3 Responses to Meninos, eu vi: sardinha, assalto e neosaldina

  1. Lari disse:

    Que aventura!! Eu não acredito que vcs tentaram correr atrás do menino!
    E que pique hein!!

  2. Léo disse:

    Cara… sardinha frita é do caralho!!!

    E quando você com dúvidas com relação a remédios para dor de cabeça, me liga….

    Abrass bay

  3. Bruno Ribeiro disse:

    Baiano: apenas para esclarecer. O nome do pé-sujo é Presta Atenção, um buteco da mais fina cepa. Frequentado pelos piores tipos – e, por conseqüência, pelos melhores. O Bar do Mauricio vende cervejas de todos os tipos, incluindo caríssimas como estas de R$ 50. Mas eu jamais – e digo jamais com ênfase szegeriana – pagaria 50 paus numa cerveja, mesmo que fosse comprovadamente a melhor já feita nesse mundo de meu Deus. E quanto a tolerância à bebida, o segredo é não parar. Quem pára, perde. A libação é um exercício cotidiano. Putabraço!

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