O Pan é legal

29 junho 2007

Com frequência muito maior do que aqui, estarei escrevendo nesse site até o fim do Pan. De repente eu passei a amar esse evento esportivo. Acesso sites como o da Confederação Brasileira de Tiro com Arco  (!) e da de Hoquei na Grama e acho o máximo! Acompanhe e prestigie meu trabalho de redator-garimpeiro. Acredite, é divertido!


Dia de sonho

27 junho 2007

Terça-feira, 26 de junho de 2007

Acordei, mas não abri os olhos. Queria voltar a dormir para continuar o sonho interrompido pelo barulho dos gatos. Malditos gatos. Mas será que aquele sonho ia acabar de qualquer jeito? Será que existe um tempo máximo de duração? Já demorava um bom tempo, mas eu queria mais. Estava evoluindo de algo sem nexo (como todos os sonhos) para uma cena totalmente realista. Era tão real, juro, tão real, que a mão direita que ela segurava, no sonho, estava quente quando acordei. Eu ainda podia sentir os dedos dela entrelaçados entre os meus. Mas acabou. Voltei a dormir, tive outro sonho, mas tão insignificante que nem me lembro como foi.

Acordado em definitivo, apenas me espreguiçando, me preparava psicologicamente para outro cansativo dia de desemprego. Quem trabalha não tem noção como cansa um dia sem fazer nada construtivo. O telefone toca. É o Renan:
“Vamos no Mercadão? Li uma matéria na Folha dizendo que é muito massa.”
“Eu não confiaria no repórter, mas vamos nessa…”

Outro colega de ócio foi encontrado, por acaso, no Centro. O matonense Marcel uniu-se ao grupo e provavelmente foi salvo de “almoçar” no McDonalds. Renan queria experimentar o pastel de bacalhau do Bar do Tio. Eu queria provar o bolinho de carne seca que deixei de comer da outra vez. Os dois paulistas, devoradores de fast food que não comem clássicos como… feijão (!), aprovaram o pastel. Como havia acabado de almoçar, só comi um bolinho de bacalhau e o tão desejado de carne seca. O segundo me impressionou. Melhor do que o de bacalhau!

Mas, gratificante mesmo, foi ser bem recebido pelo Rafael depois de ter escrito uma matéria sobre o Mercadão e o bar dele. Poucas vezes o jornalista ganha um sorriso quando vê uma fonte pela segunda vez. Ganhei não só um efusivo cumprimento como encontrei minha matéria presa numa moldura, ao lado de uma coluna do Bruno, na parede do bar. Veja só: uma das minhas escolas de jornalismo, a “Doses” agora estava exposta ao lado da minha singela matéria. O mundo dá mesmo voltas.

Estômago forrado, eu agora ia apresentar ao Renan o Bar do Maurício, no outro mercado, o Campineiro. O abstêmio Marcel pulou fora. Como eu já tinha passado por um curso intensivo semanas atrás, me julguei digno de ser um guia para o meu parceiro de copo e idéias. Numa terça-feira à tarde, ao contrário do sábado, o Bar do Maurício pode ser apreciado também com os olhos. Um balcão imenso, garrafas e pequenos barris de inúmeras marcas de cerveja. Tem até de R$ 115! Fomos de Weisteiner, R$ 13 a garrafa de um litro. Produzida na Argentina de acordo com a fórmula alemã, é ligeiramente mais amarga do que a Heineken no fim, porém mais leve no começo. Dinheiro bem aplicado. “Ah, para comemorar uma promoção, uma coisa assim, vale a pena gastar uma grana num bar desses”, disse meu parceiro. Mal sabíamos que aquilo era uma comemoração antecipada.

Café Regina, na mesma Barão de Jaguara do Mercado Campineiro 

Um cafezinho no coador de pano no Café Regina para rebater e fomos para o Sebo D’Agosto, na José Paulino. Outra recomendação minha. Bons livros, dinheiro curto, não comprei nada (antes que nos execrem, nenhuma obra que nos interessou custava os R$ 13 da cerveja). Peguei o caminho da Rua Conceição e fui para minha aulinha de inglês, relaxado, certo de que meu dia não poderia ter sido melhor. Ledo engano. Estou ouvindo as explicações da minha teacher querida, quando o telefone toca. “Aquele frila fixo lá nós preenchemos, mas tem outro aqui, tem interesse?”. Desencantei, meus amigos. Vou trabalhar, (oficialmente) das 10h às 17h, com hora de almoço e tudo. Trabalho, trabalho, finalmente. Acordei de um sonho bom, mas vou dormir com outro.


Manual Prático do Bom Vendedor de Heineken

24 junho 2007

Para donos e funcionários de bares, restaurantes, lanchonetes, mercearias, lojas de conveniência, super e hipermercados.

Os Bebedores de Heineken, organização informal sem fins lucrativos, representante dos apreciadores dessa cerveja originária da Holanda, fabricada no Brasil há alguns anos, vimos a você, comerciante ou funcionário do comércio, para dar algumas dicas de atendimento aos nossos membros. Lembramos que a Heineken é um pouco mais cara do que a maioria das cervejas encontradas no comércio e tem um público fiel, que não só a consome, como recomenda os estabelecimentos que a vendem. Assim, nos julgamos consumidores especiais para você, da mesma forma que consideramos que são fundamentais para a manutenção do nosso hábito. Por isso, listamos abaixo algumas maneiras de melhorar nosso relacionamento e, conseqüentemente, suas vendas.

1. Saiba e ensine o que é Heineken
Aprenda – e ensine, sempre que puder – pelo menos, que Heineken é uma marca de cerveja. Vale dizer que Ela é mais encorpada (não diga “amarga”) e tem consumidores fiéis. Isso evita as incômodas respostas “Tem o quê!?”, “O que que é isso?”, “É de comer?”, desagradáveis e até mesmo ofensivas para alguns Bebedores de Heineken.

2. Aprenda a pronunciar o Santo Nome
Depois de saber, pelo menos superficialmente, o que é a Heineken, aprenda – e ensine, sempre que puder – a pronunciar o Santo Nome. Não há nada mais desagradável para um bebedor de Heineken do que perguntar se há a Grande Marca no estabelecimento e ouvir algo como “ráiqui?”, “ráiquinen?”, “ráiquem?”. Por isso repita: “ráinequen”. Novamente, com ênfase na primeira sílaba e passando rapidamente pela do meio: “rái-nequên” (ouça CD em anexo).

3. Informe seu cliente
Caso não haja Heineken no estabelecimento naquele dia, mas normalmente se encontre, diga ao cliente que “Está em falta”, “Volte outro dia, pois normalmente temos”, “Chega dia tal” (mas só se tiver certeza de que chegará) etc. Como não é tão fácil achar Heineken, se você tiver, certamente o cliente vai se lembrar do seu estabelecimento da próxima vez.

4. Quando não tiver, ofereça uma ligeiramente similar
Em caso de não vender Heineken ou Ela estar em falta, ofereça as seguintes marcas: Stella Artois e Bavaria Premium. Não são como a Heineken, mas são as marcas com sabor mais parecido por um preço semelhante.

5. Ofereça um abridor/ É “long neck”
Ao contrário da maioria das cervejas em garrafa long neck, a Heineken não pode ser aberta girando a tampa com a mão. Por isso, sempre se ofereça para abrir com um abridor, seja você proprietário ou funcionário de um bar, restaurante, lanchonete, mercearia, loja de conveniência, super ou hipermercado. É bom repetir: só abra com abridor. Alguns bebedores de Heineken prevenidos andam com um chaveiro-abridor, mas nem sempre é o caso. Abrir com o dente não é uma opção. Embora o bebedor possa achar que uma Heineken aberta valha mais do que o teu dente, saliva alheia na garrafa é inadmissível. E lembre-se, diz-se “long neck”, não “long néti”.

6. Não faça alarde do que não pode cumprir
Haja vista todo o constrangimento pelo qual o bebedor de Heineken passa, como visto nos itens anteriores, é um grande alívio para ele quando encontra um estabelecimento com o letreiro da Grande Marca. Ele sabe que ali poderá desfrutar de sua cerveja e ser bem atendido. Por isso, se você NÃO tem Heineken para vender, NÃO USE O LETREIRO DA MARCA! Sabemos que ele é lindo, que dá status, mas é extremamente desagradável para o bebedor entrar todo feliz no estabelecimento e saber que não há Heineken. Mesmo que você tenha numa outra hora, o cliente é capaz de nunca mais pisar no seu estabelecimento, graças ao que ele considera uma “afronta”. E ainda vai espalhar para toda a comunidade bebedora de Heineken que seu estabelecimento engana os clientes.

Certos de que as recomendações acima são vantajosas para ambas as partes
Com nossa estima
Bebedores de Heineken

* * *

PS1: Juro que isso não é marketing de guerrilha e que não estou ganhando dinheiro (mas se Ela quiser dar umas long necks, pelo menos, aceito). É uma questão de dignidade. Todos os casos acima realmente aconteceram.

PS2: A comunidade Bebedores de Heineken, que hoje tem quase 7 mil membros, foi fundada pelo meu primo, que saiu do Orkut e não teve o bom senso de me passar a moderação. Esclareço por questão de autoria familiar.


Visita à redação

22 junho 2007

Esteve na sede de Um baiano em Campinas, na noite desta quarta-feira, o jornalista Nikolas Capp Ribeiro. Ele foi recebido pelo publisher André Julião numa rodada de Bohemia em lata e batatas fritas “Yokitos” (despesas rachadas entre as partes). Na ocasião, os jornalistas – que por acaso são da mesma famosa turma de 2003-2006 da PUC-Campinas – evitaram temas áridos como mercado de trabalho e jornalismo ambiental. Julião mostrou a Ribeiro sua vasta coleção de nove exemplares de National Geographic Brasil, com ênfase na edição especial de junho, dedicada exclusivamente ao navegador Amyr Klink.

Julião tentou convencer Ribeiro de que passar sete meses sozinho na Antártica e logo em seguida navegar até o pólo norte, num total de dois anos fora de casa, deve ser “muito louco”, nas palavras do publisher-blogueiro. Julião defendeu ainda que ele e Amyr Klink são os últimos da estirpe dos Buendía – família protagonista do romance Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez, que, aliás, Klink leu na travessia a remo do Oceano Atlântico, travessia essa que originou o best-seller Cem dias entre céu e mar.

Contudo, o assunto que predominou nas cerca de duas horas do encontro foi a paixão em comum e obsessão dos dois jornalistas: mulher. Interessados em visitar a sede do blog Um baiano em Campinas não precisam agendar horário com antecedência. Basta dizer por telefone, MSN, e-mail ou scrap que estão chegando com um “fardinho” de Heineken, Bavaria Premium ou Bohemia (duas garrafas de um vinho regular também valem). Lembrando que na redação só cabem, no máximo, mais dois homens além do anfitrião e cerca de dez mulheres (em caso de haver mais interessadas, pode-se negociar).


Paraíso sobre trilhos

16 junho 2007

“De um objeto de luxo e de fonte de privilégio, o carro transformou-se assim numa necessidade vital: ele é imprescindível para escapar do inferno urbano dos carros”
(André Gorz)

15h: Alguma coisa acontece com a minha bexiga quando cruzo o Tietê e sinto aquele odor. O trânsito quase parado na Marginal, uma placa avisa que são 52 km de lentidão e eu começo a ter arrepios de tão apertado que estou. Num impulso, vou perguntar ao motorista se ele não pode abrir a porta rapidamente para que eu me alivie. “É que viagem de menos de duas horas não tem banheiro (no ônibus)”, explica. “Se durasse só duas horas seria bom”, resmungo baixinho. “O pessoal desce aqui para pegar o metrô Barra Funda…” Metrô? A palavra mágica. O único transporte que funciona em São Paulo além do trem e do helicóptero. “Pára agora, que eu vou descer!”.

15h30: Chego na estação Barra Funda. Minha entrevista é às 16h15. Ligo para avisar que chegarei atrasado? Afinal, ainda tenho que fazer duas baldeações… Mas quem sabe não atraso tanto? E não é que vinte minutos depois (eu disse 20!) já passei por 12 (eu disse 12!) estações e estou na Clínicas? Não sei se cruzei a cidade, mas percorri uma distância considerável. É bem provável que, tivesse continuado no ônibus, ainda estaria nele. Xixi providencial. Glória ao meu rápido metabolismo! Um táxi para garantir a pontualidade e, às 16h10, estou passando pela porta giratória d’O Prédio. Nem acredito que cheguei na hora… A recepcionista deve ter se perguntado o porque do meu largo sorriso.

* * *

19h20: O Cauê recomendou que eu saísse depois das 20h, para fugir do trânsito, mas o que eu ia ficar fazendo n’O Prédio – todos que conheço trabalhando – até aquela hora? Chego na estação Clínicas e, ainda no corredor de entrada, ouço: “Devido a problemas de ordem técnica, a linha 1 do metrô não está funcionando. Favor não utilizar as estações Paraíso e Ana Rosa”. Meu chão se abre… Como chegar até o Terminal Tietê sem metrô? “Pega um ônibus até o Centro e de lá para a rodoviária”, diz uma funcionária, na maior tranqüilidade. Lá em cima, tudo parado.

21h: O cobrador sugere que eu desça do ônibus e ande até a esquina da Paulista com a Brigadeiro. É mais rápido. Depois de recusar o convite do Cauê para dormir na casa dele, eu começo a me arrepender. Um grupo me diz, hesitante, que ali não passa ônibus para o Tietê. E agora? Vou até uma dupla de PMs me informar sobre o tal ônibus. Não sabem. “Ah, pega o metrô ali na frente. Já voltou…” Meu mundo se recompõe. Posso ouvir as trombetas dos anjos tocando ao pé do ouvido. Cada vez que vou a São Paulo o metrô sobe um degrau no meu ranking de maiores invenções da humanidade. Dentro do vagão, um aviso assusta: “Devido a problemas na estação Sé…” – meu coração dispara – “a velocidade dos trens está reduzida e o tempo de permanência nas estações é maior” – ufa! Nem que esse metrô fique parado até amanhã, o único transporte sobre rodas que pego hoje em São Paulo é o ônibus para Campinas.

* * *

22h40: “Qual é o que tem banheiro?”, pergunto ao atendente da empresa de ônibus. “Ah, só onze e meia”, responde, depois de se recuperar da surpresa com a minha pergunta. Não dá para esperar tanto. Corro até o banheiro da rodoviária para garantir uma viagem calma. À meia-noite chego em Campinas. Muito provavelmente não há ônibus para me levar até em casa. Só tenho R$ 17 na carteira e os caixas eletrônicos não estão funcionando. Não me desespero, afinal, estou em território aliado. Vou negociar com algum taxista. “Ah, fala com algum que é dono do carro”; “Por menos de vinte real não dá, não”; “Quanto você tem? Dezessete? Entra aí!”. Na porta de casa o taxímetro mostra R$ 16,60.
“Avisa lá para o pessoal que deu menos de 17…”
“Ah, aqueles cara são besta.”

0h20: Ligo a TV e o “apresentador” Otávio Mesquita mostra uma “matéria” exaltando a construção de mais uma ponte na capital paulista. Na cabeça, um capacete da construtora do genro de ACM – que na Bahia dizem ter sido presente de casamento do sogro –, OAS (Obrigado Amigo Sogro). Mesquita ouve as explicações de que a obra vai desafogar o trânsito paulistano. Até quando? Ninguém entende que a solução está sobre trilhos, muito diferente desse Apocalipse Motorizado.


Brau, o estereótipo do baiano

13 junho 2007

“Eu quero é prova, um real de Big Big
e o troco de Paçoquita!”
(frase típica braulesa)

Meninos, eu estava aqui vendo meus e-mails, pensando em escrever algo sobre o meu fim de semana adiado (troquei o sábado e domingo pela segunda e terça), quando resolvi deixar os relatórios festivos para uma outra hora. É porque na minha caixa de entrada tinha uma mensagem da minha mais recente amizade blogueira (e que um dia a gente torna cervejeira numa praia baiana ou pernambucana). A Stress Girl (cujo nome não revelo nem sob tortura, atendendo a pedidos) dizia ter feito um post em minha homenagem. Essa baiana, também exilada, (porém em Recife, o que me deixa em desvantagem) descreveu em minúcias um tipo baiano único: o brau. Eu só não sabia ainda que a espécie tinha nome. Agora vejo que os paulistas, os que se surpreenderam com o fato de eu não gostar de axé nem ter um sotaque carregado, vêem todo baiano como um brau. Como diz minha mais recente antropóloga favorita, os braus são

Público fiel de shows tipo pagodão baixaria e arrocha. Adoram festa de camisa (É festa de camisa e colorida!!). Sabem todas as coreografias. Os homens, quando não sabem as coreografias, dançam fingindo que estão brigando, empurrando os outros, dando socos no ar. Na praia, gostam de dar saltos mortais por minuto, carregam o oléo de urucum na cintura da bermuda ou na pochete (Desconjuro!). Alguns passam água oxigenada. Gostam de óculos espelhados, imitação da HB, Mormmai ou Arnnete. E quando não estão usando os óculos, eles colocam a parte das lentes viradas pro pescoço, apoiando as hastes nas orelhas, e fica aquela coisa que, de costas, ele parece que está de frente. No ônibus, adoram um batuque, ou um tumulto.

Eu acrescentaria que o brau não pode ouvir um axé (ou pagodão, na subcategoria que só é tratada separadamente na Bahia), mesmo distante, que começa a fazer as coreografias. Ele pode continuar conversando, continuar sentado, e ficar fazendo só os movimentos de braços e cabeça da dança – ficar parado é inadmissível.

Porém, o que é impagável no brau é o linguajar. Fiquei rindo como um retardado em frente ao computador ao ler as explicações gramaticais que a baiana deu para o braulês – o dialeto dos braus. Não deixem de ler. Nós, exilados, sentimos mais saudade da Bahia quando lembramos de coisas assim. Porém, estivéssemos lá, não teríamos essa percepção que só um certo distanciamento permite. Foi mesmo uma bênção Essa Menina (na Bahia pode-se usar essas duas palavras no lugar de nomes femininos: “Ô, Essa Menina, venha cá”) ter aparecido para lembrar a esse apaulistado o quanto nosso estado natal é diversificado. Vão lá (mas se não agüentam, peçam “dois alto” e saiam).

Um cheiro pra você, Essa Menina.

* * *

PS: Encontrei fotos de braus no Orkut, em profiles de soterapolitanos e de comunidades dedicadas à espécie. Porém, muitos caras são maiores do que eu e pode ser que algum não fique contente em ter uma foto sua publicada sem autorização. Se quiserem ver, podem encontrá-los em várias comunidades. Vale dizer que algumas são preconceituosas, que usam o termo para expor ódio a pessoas pobres. Como bem disse a Stress Girl, “ser Brau não tem a ver com cor, sexo, raça ou classe social”. Eu mesmo conheço um que faz questão de só usar bermudões coloridos, óculos escuros e tênis caros.


Combates culinários

8 junho 2007

“A melhor refeição do mundo, a perfeita,
raramente é sofisticada ou cara.”
(Anthony Bourdain)

Não possuo conhecimento de gastronomia, mas tenho apreço pelos sabores. Não ligo se uma comida tem gordura trans, açúcar em excesso ou asseio duvidoso no preparo se for saborosa. É por isso que não me conformo com certas invenções da indústria alimentícia, ou mesmo de culturas locais, que desvirtuam os objetivos de um bom alimento. Quantas pessoas saudáveis você não vê renunciando ao melhor para comer algo com gosto de palha só porque “é bom para saúde”? Eu não vou me privar de manteiga, leite integral, azeite de dendê, carne vermelha e açúcar refinado enquanto ainda não for suicídio ingeri-los. Digo mais: se me for dado um ultimato do tipo moqueca de verdade com a morte ou moqueca sem dendê, sou bem capaz de optar pela primeira opção. Só vou pedir para caprichar no leite de coco. Nada contra quem queira “viver mais”, mas eu me sinto obrigado a fornecer informação contrária à corrente. Não custa abrir os olhos de quem nunca provou certos sabores.

Margarina x Manteiga – “Creme vegetal aromatizado”. A saborosa manteiga, feita do leite da vaca, foi substituída por uma gordura de soja, aromatizada por alguma essência à base de planta ou algum bichinho inimaginável. A margarina nunca tem o sal da manteiga, é sempre insossa. As “sem gordura trans” e “sem sal” então, Deus!, como alguém pode por aquilo no pão? É preferível comer pão molhado na água do que com margarina sem sal e gordura. Se tiram o sal e a gordura, o que resta, ora!? Pelo menos água é mais barata. Além do mais, toda semana tem uma pesquisa que desmente que margarina é melhor para a saúde. Na outra semana mentem de novo. Na dúvida, opte pelo sabor.

“Moqueca” capixaba x Moqueca baiana – Reza a lenda que três baianos viajavam para o Rio de Janeiro quando resolveram parar no meio do caminho para comer. Como estavam à beira-mar, pescaram uns peixes e cozinharam com os ingredientes que acharam naquele pedaço de terra. Não dava para fazer uma moqueca, já que não havia leite de coco nem azeite de dendê por perto. Os nativos comeram da comida oferecida pelos passantes e ficaram encantados. O cozinheiro do trio de baianos disse: “Isso que vocês não comeram uma moqueca!”. Pois os nativos rezaram uma missa para os baianos, crendo que eles eram o Pai, o Filho e, o que tinha cozinhado, o Espírito Santo. Estava fundado um novo Estado brasileiro. Contudo, os capixabas de então entenderam errado, achando que o prato era uma moqueca de verdade, e assim chamam a iguaria até hoje.

Vegetarianismo x OnivorismoAcho muito louvável que algumas pessoas queiram uma vida saudável e/ou sejam contra a matança de animais. Mas do ponto de vista do paladar, o vegetarianismo é uma afronta à diversidade de sabores. Imagine não comer churrasco, hambúrguer, torresmo, cachorro quente, moqueca, bacalhoada, galinha ao molho pardo… Para os vegetarianos, ovovegetarianos e similares, adianto que muitos produtos que julgamos livres de animais mortos têm ossos, tendões e peles de animais (balas e gelatinas), colágeno de peixes ou caracóis (cerveja), besouros triturados (corante usado em alimentos “sabor” morango e uva), gordura de porco (biscoitos) entre outros, como relata uma reportagem da Folha (para assinantes). Se vou comer animais de qualquer jeito, que eu coma os mais saborosos!

“Canjica” paulista x MugunzáNa Bahia chamamos de mugunzá um milho branco cozido em leite de vaca, leite de côco, açúcar, cravo e canela (uma pitada de sal vai bem). O resultado é um creme grosso, saboroso, para o café da manhã, a merenda da tarde ou mesmo para substituir o jantar. Aqui vejo esse mesmo milho branco cozido (me contaram que às vezes em água!), misturado a amendoim torrado (!!) e jogado num leite ralo e às vezes com leite condensado. Fraco e exageradamente doce desse jeito, só poderia mesmo ser servido como uma (medíocre) sobremesa. Deram o nome de canjica – o que na Bahia é o nome de outro prato de milho também muito mais gostoso. Quando for até lá (principalmente nessa época de festas juninas), peça mugunzá e canjica e note a diferença.

Poderia citar ainda outros combates em que um lado ganharia de lavada, como “leite” desnatado (água branca) versus leite integral ou peixe fresco versus peixe congelado. (Eu pensava que em São Paulo só se comia peixe no litoral. Fiquei chocado quando vi aquele monte de gelo sob animais de guelras marrons, em contraste com a Tarifa, em Porto Seguro, onde perguntamos diretamente ao pescador se o peixe está fresco e ele mostra as guelras vermelhas como sangue para provar que sim. Paciência, pior é ficar sem peixe.) Deixo a dica para que experimente também um bom requeijão, com a gordura escorrendo pelos buraquinhos e com aquela textura meio esfarinhada e o gosto salgado, meio defumado, difícil de explicar. É covardia comparar com a mussarela de supermercado. A vida é curta para todos e lembre-se, como diz um chef que não hesita em provar de tudo, que seu corpo não é um templo. Profane-o sempre que puder.

* * *

PS1: A lenda da criação do Estado do Espírito Santo e da moqueca capixaba foi totalmente inventada por mim. Os capixabas que não me levem a mal, foi só uma brincadeira bairrista. Nunca comi a moqueca deles e estou pronto para prová-la o quanto antes… Mas continuarei dizendo, por pura implicância, que, se não tem dendê, não é moqueca.

PS2: Encontrei, na comunidade do Anthony Bourdain no Orkut, uma matéria de 2003, da Veja São Paulo, que relata uma degustação que o chef fez pela capital paulista de comidas populares como pastel de bacalhau, bauru e empada, e da qual tirei a epígrafe desse texto.