Paraíso sobre trilhos

“De um objeto de luxo e de fonte de privilégio, o carro transformou-se assim numa necessidade vital: ele é imprescindível para escapar do inferno urbano dos carros”
(André Gorz)

15h: Alguma coisa acontece com a minha bexiga quando cruzo o Tietê e sinto aquele odor. O trânsito quase parado na Marginal, uma placa avisa que são 52 km de lentidão e eu começo a ter arrepios de tão apertado que estou. Num impulso, vou perguntar ao motorista se ele não pode abrir a porta rapidamente para que eu me alivie. “É que viagem de menos de duas horas não tem banheiro (no ônibus)”, explica. “Se durasse só duas horas seria bom”, resmungo baixinho. “O pessoal desce aqui para pegar o metrô Barra Funda…” Metrô? A palavra mágica. O único transporte que funciona em São Paulo além do trem e do helicóptero. “Pára agora, que eu vou descer!”.

15h30: Chego na estação Barra Funda. Minha entrevista é às 16h15. Ligo para avisar que chegarei atrasado? Afinal, ainda tenho que fazer duas baldeações… Mas quem sabe não atraso tanto? E não é que vinte minutos depois (eu disse 20!) já passei por 12 (eu disse 12!) estações e estou na Clínicas? Não sei se cruzei a cidade, mas percorri uma distância considerável. É bem provável que, tivesse continuado no ônibus, ainda estaria nele. Xixi providencial. Glória ao meu rápido metabolismo! Um táxi para garantir a pontualidade e, às 16h10, estou passando pela porta giratória d’O Prédio. Nem acredito que cheguei na hora… A recepcionista deve ter se perguntado o porque do meu largo sorriso.

* * *

19h20: O Cauê recomendou que eu saísse depois das 20h, para fugir do trânsito, mas o que eu ia ficar fazendo n’O Prédio – todos que conheço trabalhando – até aquela hora? Chego na estação Clínicas e, ainda no corredor de entrada, ouço: “Devido a problemas de ordem técnica, a linha 1 do metrô não está funcionando. Favor não utilizar as estações Paraíso e Ana Rosa”. Meu chão se abre… Como chegar até o Terminal Tietê sem metrô? “Pega um ônibus até o Centro e de lá para a rodoviária”, diz uma funcionária, na maior tranqüilidade. Lá em cima, tudo parado.

21h: O cobrador sugere que eu desça do ônibus e ande até a esquina da Paulista com a Brigadeiro. É mais rápido. Depois de recusar o convite do Cauê para dormir na casa dele, eu começo a me arrepender. Um grupo me diz, hesitante, que ali não passa ônibus para o Tietê. E agora? Vou até uma dupla de PMs me informar sobre o tal ônibus. Não sabem. “Ah, pega o metrô ali na frente. Já voltou…” Meu mundo se recompõe. Posso ouvir as trombetas dos anjos tocando ao pé do ouvido. Cada vez que vou a São Paulo o metrô sobe um degrau no meu ranking de maiores invenções da humanidade. Dentro do vagão, um aviso assusta: “Devido a problemas na estação Sé…” – meu coração dispara – “a velocidade dos trens está reduzida e o tempo de permanência nas estações é maior” – ufa! Nem que esse metrô fique parado até amanhã, o único transporte sobre rodas que pego hoje em São Paulo é o ônibus para Campinas.

* * *

22h40: “Qual é o que tem banheiro?”, pergunto ao atendente da empresa de ônibus. “Ah, só onze e meia”, responde, depois de se recuperar da surpresa com a minha pergunta. Não dá para esperar tanto. Corro até o banheiro da rodoviária para garantir uma viagem calma. À meia-noite chego em Campinas. Muito provavelmente não há ônibus para me levar até em casa. Só tenho R$ 17 na carteira e os caixas eletrônicos não estão funcionando. Não me desespero, afinal, estou em território aliado. Vou negociar com algum taxista. “Ah, fala com algum que é dono do carro”; “Por menos de vinte real não dá, não”; “Quanto você tem? Dezessete? Entra aí!”. Na porta de casa o taxímetro mostra R$ 16,60.
“Avisa lá para o pessoal que deu menos de 17…”
“Ah, aqueles cara são besta.”

0h20: Ligo a TV e o “apresentador” Otávio Mesquita mostra uma “matéria” exaltando a construção de mais uma ponte na capital paulista. Na cabeça, um capacete da construtora do genro de ACM – que na Bahia dizem ter sido presente de casamento do sogro –, OAS (Obrigado Amigo Sogro). Mesquita ouve as explicações de que a obra vai desafogar o trânsito paulistano. Até quando? Ninguém entende que a solução está sobre trilhos, muito diferente desse Apocalipse Motorizado.

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8 Responses to Paraíso sobre trilhos

  1. Sílvia disse:

    Mas menino que odisséia hein?! Cansei (e me stressei…rs) só de ler… Acho que se fosse comigo já tinha tido um troço!rsrsrs
    Esse é meu maior medo de ir pra Sampa sabia?! Depois que fiquei exatas 3 horinhas da Paulista pro Shopping Continental eu cheguei surtando em casa, se alguém falasse que meu cabelo tava despenteado eu acho que voava no pescoço e matava! Mas realmente trens e metros ai não tenho do que me queixar… Só que perto da minha casa não tem estação, logo…rsrsrs
    P.S. – Tem gente me devendo uma visitinha…. hahahaha (sou cara de pau mesmo…hehehe)

  2. Bianca Joaquim disse:

    Oi André,
    Eu diria que você teve sorte! hehe
    O metrô é o meio de transporte que mais funciona em São Paulo, mas está longe de ser um paraíso…
    Nos horários de pico você nem precisa fazer força para entrar no vagão! Você é empurrado, mesmo! Na primeira e segunda vez que isso acontece é até engraçado, mas logo depois você já começa a ficar irritado.
    Na Sé, muitas vezes é preciso deixar uns dois ou três metrôs passarem para conseguir chegar perto da porta (e ser empurrado pra dentro).
    As estações da linha verde (clínicas, por exemplo) são mais vazias mesmo, eu morava pra esses lados.
    Fora que São Paulo é muito, muito maior do que a área que o metrô abrange…
    E pra completar, os planos de expansão, ao invés de beneficiar as áreas mais longínquas e populosas da cidade, zona leste, por exemplo, vai avançando em direção a zona oeste, sobrepondo um corredor de ônibus, que não é perfeito, mas que melhorou muito a situação do transporte coletivo na região.
    Mas mesmo assim, concordo com você, o metrô é mesmo um alívio! Para nós que chegamos em São Paulo pelo Tietê, e para outros muitos, em números, pois são poucos em proporção se considerarmos a população da capital.
    Um abraço.

  3. Bianca: O metrô é um paraíso quando comparado ao trânsito. Mesmo que vc deixe dois metrôs passarem até embarcar, creio que ainda assim vai chegar antes do que de carro. É claro que são muito poucas linhas, mas temos que criar demanda, as pessoas têm que deixar os carros na garagem. Agora estão se vangloriando pq vc pode levar sua bicicleta no último vagão… nos finais de semana! Tinha de ser todo dia! O que podemos fazer é criar demanda, usar mesmo, até que algum governante resolva ampliar e ampliar aquilo. É uma aberração andar a 5km/h de carro!
    Valeu pela visita, volte sempre.

  4. Léo disse:

    Ahhh, o metrô….

  5. naomi disse:

    editei lá para apagar o e-mail, tá a salvo.
    😉

    o sistema que uso não tem a opção de ocultar o cidadão…
    😦

  6. Stress Girl disse:

    Puuuuutz… esse metrô só perde pra o de Salvador, que tem o maior atraso do planeta: 10 anos… rsrsrs

  7. Bruno Ribeiro disse:

    Baiano, cada vez melhor seu texto, malandro! Olha só, não respondi teu e-mail ainda porque não estou em Campinas esses dias. Volto de São Paulo somente na quinta, pois é aniversário de um grande amigo e depois tem meu samba classificado na final do Festival de Samba Paulista, que acontece dias 26 e 27. Te conto tudo depois. E vamos beber!!!! Abraço.

  8. Bianca Joaquim disse:

    Oi André,

    Volto aqui para dizer que também sou pelo transporte público!!
    Não ficou muito claro no meu comentário…
    Tenho a impressão de que seu objetivo, com este depoimento, é incentivar as pessoas a deixar o carro em casa e usar o transporte público. Percebo agora que minha observação sobre os problemas do metrô, do jeito que foi colocada, foi um pouco contra isso… Não era minha intenção…
    Concordo com você que, mesmo com o metrô supersaturado, ainda é melhor usá-lo que sair de carro.
    Entretanto, sobre criar demanda e pressionar para que os políticos ampliem o sistema, essa demanda já existe, o que não existe é pressão da sociedade para tal melhoria.
    O grande problema é a falta de conscientização. E seu texto vem para combater isso, pois traz informação e incentiva o uso do transporte público!
    Por isso, quero deixar aqui um voto de apoio pela sua atitude de escrever sobre o assunto!
    Estou contigo!

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