João Moreira Salles: o mecenas e o artista

31 janeiro 2008

João Moreira Salles

João Moreira Salles tem um nome que inspira respeito. Membro de uma família bilionária, foi chamado de banqueiro (pejorativamente) por um governador; muitos o chamam de “filhinho de papai” porque nasceu rico. Tem dinheiro suficiente para fazer o que quiser (até mesmo não fazer nada).

João Moreira Salles tem uma aparência que inspira cuidado. Tem os olhos miúdos e juntos; usa óculos redondos de armação fina. O corpo é magro, quase franzino. Penteia os cabelos lisos para o lado, sem muita preocupação com a aparência. A camisa listrada é amassada. A calça jeans parece velha. Carrega uma mochila de estudante. A voz é mansa. Criou a revista Piauí, a mais simpática entre todas, e fez documentários muito elogiados.

Este segundo João se sobressai ao primeiro. Ele parece ter uma consciência de que o que faz não é nada extraordinário. São apenas coisas que gosta e que ninguém precisava fazer. Ele foi lá e fez, simplesmente. Quando fala, então, que fez o documentário Santiago num momento de crise pessoal, como uma terapia, quase dá pena. Ele se atém mais à forma do que ao tema. Nada mais pessoal.

O João que todos conhecem dá inveja: nasceu rico, vai morrer rico. Em vez de buscar aumentar o patrimônio, faz o que gosta. Ele podia simplesmente surfar, ler a New Yorker o dia inteiro, o que fosse. Mas faz filmes e uma revista legal.

Mas, ao ouvir João falar, é possível notá-lo triste. Pode ser uma falsa impressão, mas ele parece alguém angustiado em busca de algo que o torne melhor para si mesmo. Talvez uma busca que todos façam.

Hoje eu ouvi este homem, que parece fazer parte de um mundo que não é dele: é “trilhardário”, mas poderia viver dos filmes, que dizem ser ótimos (não vi nenhum). Claro, fosse um sujeito de classe média, não poderia bancar sozinho uma das minhas duas revistas favoritas.

Sim, vamos ao que interessa: perguntei como vai a Piauí como negócio, o que ele podia falar como “empresário de revista”. “Olha, já me chamaram de muita coisa, mas de empresário é a primeira vez.” Risos na platéia, finalmente. João diz que não é empresário, mas é. Diz que não é jornalista, mas é. Diz que é economista – não é.

Piauí ainda não está no azul, digamos assim (ele diz assim). Mas pelo que apurou com publishers, isso demora seis, sete anos. Quando a revista foi lançada, ele dizia que tinha fôlego para dois anos. Estamos quase lá. A grana dos anunciantes ainda não veio, mas ele não dá sinais de que vá fechar a revista. Minha pergunta foi puramente prática: eu quero continuar lendo Piauí e quero saber se posso alimentar esperanças. Nada mais.

Um dado interessante. Chegou às mãos do publisher “piauiense” uma pesquisa sobre os assinantes da revista. Mercadologicamente, fiquei com pena; pessoalmente, fiquei orgulhoso: o público é totalmente pulverizado. São homens e mulheres, estudantes secundaristas e jovens profissionais, empresários, ricos e membros da classe média. Inclua nesse bolo o governador de São Paulo e o presidente do Itaú.

Isso para os anunciantes é quase um negócio furado: como vou atingir meu cliente potencial nesta salada? Ao mesmo tempo, essa massa tem algo em comum que se interessa por alguma coisa que alguns anunciantes oferecem. A dificuldade é saber quem é essa gente.
Outro dado: os “consultores” do João disseram que a revista venderia cinco mil exemplares por mês. A tiragem é de 40 mil. A expectativa era ter bem menos anunciantes neste momento: o mercado publicitário deu uma acolhida bem melhor.

Resta saber até quando o João Moreira Salles, o bilionário, dono de um sobrenome que inspira credibilidade (outro motivo para chamá-lo de empresário: seu nome já facilita alguma coisa) vai dar corda ao João jornalista, documentarista e despretensioso, e continuar mantendo uma revista que não dá dinheiro.

Por que a Editora Abril, por exemplo, que abre e fecha duas, três revistas por ano, não lançou uma Piauí? Porque ela não se encaixa em nenhum segmento. Como negócio (e a Abril é uma empresa, quer lucro, lembre-se disso), a Piauí é quase uma furada. Não é possível fazer uma projeção de quanto vai faturar nos próximos dois anos, não dá para dizer que é para o público jovem (anunciem refrigerante), para o feminino (anunciem cosméticos), para o masculino (anunciem camisinhas), para os ricos (anunciem condomínios de luxo).

Só mesmo João Moreira Salles poderia criar a Piauí. Só ele para empreender algo que é muito menos negócio (e está aí porque ele não se diz empresário) do que cultura, leitura, jornalismo, revista-mais-legal etc. Que este homem duplo continue sendo um só.


Aos alunos do Curso Abril 2008 (e 2009, 2010…)

21 janeiro 2008

Um vídeo que Luiz Iria deve mostrar aos bixos, pois fala de infográficos.

Hoje, segunda-feira, 21 de janeiro de 2008, começa mais uma edição do Curso Abril de Jornalismo. Não sou mais um foca (embora tenha taaaaaaaaanto a aprender) e morro de saudades daquele tempo em que tudo era deslumbramento. Para os que chegam, sejam bem vindos. Ainda sinto um pouquinho de ciúmes, mas não posso negar que é importante, também, deixar de ser um iniciante na visão dos mais experientes.

Na época do meu Curso, fevereiro de 2007, não pude escrever tanto aqui. Mas foi o mês que mais aprendi sobre este mundo que é cada vez mais meu. Aqui vão alguns dos poucos posts que escrevi na época, começando pelo meu favorito, claro.

Quando fevereiro foi Abril Jogo de palavras tosco, eu sei, mas estava muito sentimental à época. Um relato da melhor festa do Curso e uma mensagem de esperança para mim mesmo.

Direto da Selva – Sobre a palestra de Kléster Cavalcanti, um dos pontos altos do Curso. Reportagem é com ele: experiências na Amazônia, livros-reportagem e a história de um matador de aluguel.

O Reino e o Poder – Uma reunião de pauta da revista mais influente do Brasil. Ponto alto: os gregos.

Lucro pouco é dinheiro de pinga – Desta vez o título foi de mau-gosto, mesmo. Uma análise bem meia-boca do conceito de rentabilidade da Abril, baseado em resposta de Roberto Civita; um resuminho da palestra de Eurípedes Alcântara, diretor de redação de Veja, e um não-relato da palestra do pessoal da Super. Devidamente (ou quase) revisado.

Aula de economiaO pessoal deste ano provavelmente não terá a palestra do grande Edson Rossi, o cara que mais me ensinou sobre jornalismo em tão pouco tempo (uma palestra, umas duas conversa na redação e uns três e-mails). Bom, a aula do cara foi muito maior do que a lição de economia. O segundo caso continua incompleto, pois, como disse na atualização do post sobre rentabilidade da “firma”, o cálculo foge aos meus parcos conhecimentos.

Duas lições de dois ausentes este ano: “Editar é não se importar” (Denis Russo Bürgieman); “Primeiro meu estômago, depois vossa moral” (Edson Rossi).

Uma boa sorte, meus caros!


São Paulo tem cada uma…

18 janeiro 2008

Placa na Rua Teodoro Sampaio diz Famlia vende tudo

Placa na Rua Teodoro Sampaio, São Paulo: mudança de guarda-roupas ou de casa?


‘As coisas são imperfeitas’

14 janeiro 2008
Um recorde? Nove dias sem postar! Acredite: não vou dizer que é falta de tempo/excesso de trabalho. Simplesmente não achei nada relevante o bastante para merecer comentários aqui. Cheguei a pensar que o meu perfeccionismo estava prejudicando o andamento deste blog, mas não era o caso. Só soube que não sou um perfeccionista depois de ler uma entrevista com o psicólogo Gordon Flett.
Geralmente os perfeccionistas têm baixa auto-estima e pouca confiança. Eles se sentem incapazes e se esforçam muito para evitar o fracasso. Mas perder faz parte da vida. Exigências inatingíveis só geram frustração. Isso é o principal desafio para estas pessoas: aceitar que as coisas são imperfeitas, estranhas.
Recomendo a leitura, e não é porque o entrevistador é meu amigo (seria bom que você soubesse disso depois que tivesse lido a entrevista, pois ia se impressionar por eu ter amigos tão fodas). Uma próxima atualização pode vir amanhã… ou sei lá quando. Afinal, este é um blog muito, mas muito imperfeito.

Minha avó e as celebridades

4 janeiro 2008

Minha avó era uma visionária. Uma mulher que tinha opiniões muito avançadas para alguém da idade dela e que teve uma educação formal primária. Até hoje, na família, citamos suas frases. Pura sabedoria que só o tempo e o esforço individual proporciona.

Antes mesmo da divulgação mais que exagerada de “notícias” de celebridades, ela já era crítica desse tipo de jornalismo. É dela a frase: “Até quando esse povo (celebridades) caga mole é notícia”. Quando digo que a senhora era visionária, não estou exagerando. Olha o que foi publicado hoje:

Namorado de Ivete Sangalo tem desarranjo intestinal após comer moqueca em Salvador

Menção honrosa ao trecho: “O mal estar, provavelmente, foi gerado pela curiosidade de Andrija pela a (sic) cultura e os costumes de sua namorada”. Conclusão categórica.


Ouro de tolo

3 janeiro 2008

Eu devia estar contente porque eu tenho um emprego, sou um dito cidadão respeitável e ganho dois mil cruzeiros por mês. Eu devia agradecer ao Senhor por estar tendo sucesso na vida, como jornalista eu devia estar feliz por que consegui comprar um notebook Intel Dual Core.

Eu devia estar alegre e satisfeito por morar em Pinheiros depois de ter morado por quatro anos no fundo da casa da tia na cidade de Campinas. Ah, eu devia estar sorrindo e orgulhoso por estar teoricamente vencendo na vida, mas eu acho isso uma grande piada e um tanto quanto perigosa.

Eu devia estar contente por ter conseguido tudo que eu quis, mas confesso, abestalhado, que eu estou decepcionado. Porque foi tão fácil conseguir, e agora eu me pergunto: e daí? Eu tenho uma porção de coisas grandes pra conquistar e eu não posso ficar aí, parado.

Eu devia estar feliz pelo Senhor te me concedido a sexta-feira pra ir com os amigos num barzinho descolado, beber cerveja e falar bobagens. Ah, mas que sujeito chato sou eu, que acha tudo engraçado, YouTube, macaco, praia, jornal, toboágua, eu acho tudo isso o máximo.

É você olhar no espelho, se sentir um grandessíssimo idiota, saber que é humano, ridículo, limitado, que só usa noventa por cento de sua cabeça e ainda é um animal. E você ainda acredita que é um doutor, jornalista ou intelectual que está contribuindo com a sua parte para o nosso belo quadro social.

Eu que não me sento no trono de um apartamento, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar. Porque longe das grades pontudas que nos separam dos marginais, no cume calmo da minha barriga de cerveja que daria até pra pousar um disco voador…

Ah! Eu que não me sento no trono de um apartamento, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar. Porque longe das grades pontudas que nos separam dos marginais… No cume calmo da minha barriga de cerveja que daria até pra pousar um disco voador.

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Leia (e ouça) também: Cotidiano