João Moreira Salles: o mecenas e o artista

João Moreira Salles

João Moreira Salles tem um nome que inspira respeito. Membro de uma família bilionária, foi chamado de banqueiro (pejorativamente) por um governador; muitos o chamam de “filhinho de papai” porque nasceu rico. Tem dinheiro suficiente para fazer o que quiser (até mesmo não fazer nada).

João Moreira Salles tem uma aparência que inspira cuidado. Tem os olhos miúdos e juntos; usa óculos redondos de armação fina. O corpo é magro, quase franzino. Penteia os cabelos lisos para o lado, sem muita preocupação com a aparência. A camisa listrada é amassada. A calça jeans parece velha. Carrega uma mochila de estudante. A voz é mansa. Criou a revista Piauí, a mais simpática entre todas, e fez documentários muito elogiados.

Este segundo João se sobressai ao primeiro. Ele parece ter uma consciência de que o que faz não é nada extraordinário. São apenas coisas que gosta e que ninguém precisava fazer. Ele foi lá e fez, simplesmente. Quando fala, então, que fez o documentário Santiago num momento de crise pessoal, como uma terapia, quase dá pena. Ele se atém mais à forma do que ao tema. Nada mais pessoal.

O João que todos conhecem dá inveja: nasceu rico, vai morrer rico. Em vez de buscar aumentar o patrimônio, faz o que gosta. Ele podia simplesmente surfar, ler a New Yorker o dia inteiro, o que fosse. Mas faz filmes e uma revista legal.

Mas, ao ouvir João falar, é possível notá-lo triste. Pode ser uma falsa impressão, mas ele parece alguém angustiado em busca de algo que o torne melhor para si mesmo. Talvez uma busca que todos façam.

Hoje eu ouvi este homem, que parece fazer parte de um mundo que não é dele: é “trilhardário”, mas poderia viver dos filmes, que dizem ser ótimos (não vi nenhum). Claro, fosse um sujeito de classe média, não poderia bancar sozinho uma das minhas duas revistas favoritas.

Sim, vamos ao que interessa: perguntei como vai a Piauí como negócio, o que ele podia falar como “empresário de revista”. “Olha, já me chamaram de muita coisa, mas de empresário é a primeira vez.” Risos na platéia, finalmente. João diz que não é empresário, mas é. Diz que não é jornalista, mas é. Diz que é economista – não é.

Piauí ainda não está no azul, digamos assim (ele diz assim). Mas pelo que apurou com publishers, isso demora seis, sete anos. Quando a revista foi lançada, ele dizia que tinha fôlego para dois anos. Estamos quase lá. A grana dos anunciantes ainda não veio, mas ele não dá sinais de que vá fechar a revista. Minha pergunta foi puramente prática: eu quero continuar lendo Piauí e quero saber se posso alimentar esperanças. Nada mais.

Um dado interessante. Chegou às mãos do publisher “piauiense” uma pesquisa sobre os assinantes da revista. Mercadologicamente, fiquei com pena; pessoalmente, fiquei orgulhoso: o público é totalmente pulverizado. São homens e mulheres, estudantes secundaristas e jovens profissionais, empresários, ricos e membros da classe média. Inclua nesse bolo o governador de São Paulo e o presidente do Itaú.

Isso para os anunciantes é quase um negócio furado: como vou atingir meu cliente potencial nesta salada? Ao mesmo tempo, essa massa tem algo em comum que se interessa por alguma coisa que alguns anunciantes oferecem. A dificuldade é saber quem é essa gente.
Outro dado: os “consultores” do João disseram que a revista venderia cinco mil exemplares por mês. A tiragem é de 40 mil. A expectativa era ter bem menos anunciantes neste momento: o mercado publicitário deu uma acolhida bem melhor.

Resta saber até quando o João Moreira Salles, o bilionário, dono de um sobrenome que inspira credibilidade (outro motivo para chamá-lo de empresário: seu nome já facilita alguma coisa) vai dar corda ao João jornalista, documentarista e despretensioso, e continuar mantendo uma revista que não dá dinheiro.

Por que a Editora Abril, por exemplo, que abre e fecha duas, três revistas por ano, não lançou uma Piauí? Porque ela não se encaixa em nenhum segmento. Como negócio (e a Abril é uma empresa, quer lucro, lembre-se disso), a Piauí é quase uma furada. Não é possível fazer uma projeção de quanto vai faturar nos próximos dois anos, não dá para dizer que é para o público jovem (anunciem refrigerante), para o feminino (anunciem cosméticos), para o masculino (anunciem camisinhas), para os ricos (anunciem condomínios de luxo).

Só mesmo João Moreira Salles poderia criar a Piauí. Só ele para empreender algo que é muito menos negócio (e está aí porque ele não se diz empresário) do que cultura, leitura, jornalismo, revista-mais-legal etc. Que este homem duplo continue sendo um só.

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2 Responses to João Moreira Salles: o mecenas e o artista

  1. […] o vídeo do papo que João Moreira Salles bateu com o pessoal do Curso Abril 2008, sobre o qual comentei anteriormente. Vendo agora, editado, não percebo o homem “frágil” que vi. Você não verá nada […]

  2. Pati Vieira disse:

    Você falou que tinha gostado do papo com o João Moreira Salles, eu fiquei curiosa e pensei que podia encontrar alguma coisa sobre o rapaz e suas empreitadas por aqui. Não é que estava certa? Gostei muito. E você não faz tudo errado com este blog.
    Um beijo,

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