Brasil profundo

30 março 2008

Circo Pindorama

A National Geographic é a melhor revista publicada no Brasil. Disso não tenho dúvidas. Quase toda feita nos Estados Unidos, é verdade, mas de nada adiantaria traduzi-la não fosse o cuidadoso trabalho de edição feito pelo editor-sênior Ronaldo Ribeiro. Tudo passa pelo seu olho clínico.

E cada número traz uma reportagem feita aqui, mostrando um País desconhecido para a maioria de nós, um trabalho que nenhuma outra publicação se vê na obrigação de fazer. Ronaldo, além de ter o trabalho de editar uma revista inteira, ainda viaja para os lugares mais remotos e traz histórias de um Brasil profundo

Brasil profundo: o termo nunca havia feito muito sentido para mim antes de eu ler a reportagem sobre o Circo Pindorama. É o espetáculo de uma família de sete anões que viaja pelo sertão da Bahia levando o único lazer disponível para o povo daquela região. O redator-chefe Matthew Shirts definiu bem o feito do colega de redação e do fotógrafo Izan Peterlle:

Ronaldo e Izan conseguiram trazer um flagrante cândido de artistas itinerantes cuja existência – no século 21 – nos remete a outros tempos e lugares. Os circenses levam a vida às bordas do país formal, longe da imprensa (em geral), do estado, das capitais, mas próxima de seu público e do ponto mítico que Ronaldo chama de Brasil profundo. Lançam mão de uma lenda européia medieval, a da Branca de Neve e dos sete anões, para promover seu espetáculo, mas são de carne e osso e vivem pelo sertão nos dias de hoje. Como Mário de Andrade ou Jack Kerouac, para citar dois escritores chegados numa viagem, gostariam de ter visto isso, pensei, ao ler a reportagem. Há algo de eterno nessa história. Vai ver que é a arte.

Talvez a fórmula para tornar essa história eterna seja a sensibilidade do repórter. Ele não tem medo de se envolver com os personagens. Pelo contrário, mergulha de cabeça naquela realidade para trazer um relato honesto, sem relativismos (sem falar na qualidade do texto, que corre como uma correnteza refrescante).

Ao terminar a leitura, o leitor vai lembrar que nem sequer concebia, nos dias de hoje, um circo que não fosse um Beto Carrero ou um Cirque du Soleil. Está nesta reportagem a prova de que sabemos muito pouco sobre nosso povo. É por isso que precisamos de um Ronaldo Ribeiro para trazer esse Brasil para nós.

* * *

PS: A reportagem e as fotos estão disponíveis, na íntegra, no site da revista. Mas, se eu fosse você, ia até a banca e comprava a National de abril. Garanto: papel ótimo, formato ergonômico, e um documento que você vai querer guardar para mostrar aos seus filhos (Felipe, que inveja que eu tenho da coleção que você vai herdar).

Capa da edição de abril de 2008 da National Geographic Brasil

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Porque eu gosto de uma leitura certa

29 março 2008

O livro também termina com o autor, nu, em um paraíso nudista. Mas não se trata de A mulher do próximo, o livro de Gay Talese que destrincha a Revolução Sexual do anos 60 e 70 nos Estados Unidos. Aqui, a revolução sexual é de outros tempos: aquela causada pela internet.

Em “Eu gosto de uma coisa errada”, Pedro Doria conta histórias de personagens que, ao mesmo tempo, escondem  a identidade e escancaram a intimidade. De todos, Bruna Surfistinha é a mais conhecida – a reportagem de Doria em NoMínimo foi que gerou as outras que a tornaram uma celebridade –, mas não necessariamente a mais fascinante.

Eu poderia escrever uma resenha, mas as reportagens foram todas – exceto uma – publicadas na internet. O livro é curto, lê-se rápido, ali entre um Thompson arrastado e um Burroughs abandonado. A leitura é prazerosa, com o perdão do duplo sentido. Você faz melhor indo direto na fonte.


Frank Sinatra está constrangido

20 março 2008

Repare na cara que Sinatra faz quando a mulherada grita enlouquecida pelo Elvis. Ele deve ter pensando: “Como assim!? Eu sou The Voice e não gritaram assim para mim? O que esse caipira tem que eu não tenho?”. Quando ele volta a cantar, silêncio… Esse sorriso amarelo, nem Gay Talese descreve.

Dica da Camila Rutka


Viciados em Lost agora têm uma ‘perspectiva’

19 março 2008

Os viciados em Lost podem finalmente ser curados. Pelo menos é o que garante uma “propaganda” do “Perspective”. Com o slogan “All is not Lost”, o “remédio” promete fazer com que o viciado entenda que Lost é apenas um programa de TV e que “não tem nenhum impacto real na minha vida”, como diz um dos curados.

O vídeo é uma sátira produzida pela dupla “Rhett & Link”, cineastas independentes que postam clipes do tipo na internet, fazendo troça da TV, cinema e música. Os “depoimentos” são hilários.

“No ano passado, eu perdi o aniversário de minha filha porque caiu no mesmo dia do episódio final de temporada de Lost. Mas este ano, nós vamos assistir juntos”, afirma um ex-viciado, carregando a filhinha no colo.

Depois de uma “banda” com a temática da série, o vídeo é mais um dos “filhos bastardos” da “lostmania”. Mais uma prova de que a série é mesmo antológica.

* Publicado no blog Séries de TV do Abril.com.


Memórias culinárias: o feijão que não comi

17 março 2008

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Meses depois daquele dia, em meio a um plantão, me lembro do feijão que não comi no Rio de Janeiro. Vez ou outra me pego lembrando de um prato específico, que caiu muito bem dentro de um contexto. Desta vez, contudo, me vi, numa tarde de domingo, desejando um prato que não havia comido.

Já passava das cinco da tarde e tudo que havíamos comido era um café da manhã razoável e muito biscoito Globo. Quando finalmente o bloco acabou, fomos em direção a outro, e um restaurante/lanchonete de chão sujo apareceu em nosso caminho.

Pedi um pão com queijo e carne. Meu parceiro de crime não pediu nada: ele tem a crença de que comer em momentos de folia atrapalha o rendimento, dando sono e uma tentação ao fracasso de estar dormindo num dia em que todos festejam.

Por acaso, estava conosco um adepto da paz e da ordem, afeito a regras e convenções, que, apesar disso, era confiável. Logo teríamos mais uma prova de que ele seria útil para nós. Àquela altura do dia, o cidadão-de-bem estava aflito por não ter almoçado. Não hesitou em pedir um PF completo, com direito a feijão.

Imagino que ele tenha sido uma criança da classe média-alta paulistana, cheia de vontades, dentre as quais comer apenas aquilo que lhe parecia gostoso. Graças a esse desvio de caráter, causado diretamente por seus pais, nosso acompanhante deixou o feijão de lado. Talvez tenha comido umas duas colheradas, mas o importante nesta história é que havia uma cumbuca enorme de feijão ao alcance do meu parceiro fora-da-lei.

Como é do feitio do ser humano, meu amigo abriu mão de suas convicções, em detrimento do instinto, e avançou sobre o feijão. Não se preocupou com prato nem com modos. Pegou a colher de servir e começou a comer aquele caldo espesso, puro mesmo.

Feijão de PF e de self service é quase sempre ruim. Preocupados em agradar o gosto médio, os cozinheiros nunca põem carnes nem temperos, praticando uma heresia sem precedentes. Hoje, à distância, imagino aquele feijão bom. Mas devia ser mais um na média. Meu amigo, também apreciador da boa comida, tratou de corrigir aquele erro: pegou a pimenta caseira, com frutos inteiros embebidos em óleo, que eu usava para temperar meu sanduba em doses homeopáticas, e despejou na cumbuca de feijão.

A quantidade de pimenta que ele usou faria qualquer outro paulista chegar às lágrimas e às hemorróidas. Como escolho bem meus parceiros de desordem, aquele tinha um pé na Bahia – come mais pimenta do que muito baiano. A cara de satisfação que ele fazia ao comer aquele caldo quente e apimentado foi o que me fez desejar o feijão hoje, meses depois.

Claro, aliado ao fato de fazer um bom tempo que não como um feijão caseiro, saboroso, honesto. Porque, depois daquele carnaval, até comemos uma bela feijoada (a R$ 30 por cabeça!), mas nada que se compare a um bom feijão caseiro.


Reino do Medo/Almoço Nu

16 março 2008

Resolvi misturar: no meio de uma viagem de Hunter Thompson, joguei um William Burroughs. Almoço Nu é de uma amiga também afeita a esse tipo de leitura. O início foi emocionante: não queria parar de ler. Mas umas duas páginas foram suficientes para eu julgá-lo bem chato. Diálogos inconclusos, porque nem mesmo na cabeça do autor estavam claros.

Encostei, e sabe Deus se vou continuar a leitura.

O Thompson vem se arrastando há tempos. Primeiro porque, desde que virei um jornalista “de verdade” e deixei de ser um estudante de jornalismo/jornalista recém-formado, tenho lido menos – pois é, o grande contra-senso. Trabalhamos numa área que exige leitura, mas que nos tira muito tempo que poderia ser usado para ler.

Segundo que Reino do Medo não é o melhor de Thompson. Claro que é melhor do que Screwjack – esse não conta –, mas nem se compara a Medo e Delírio em Las Vegas. Espero que a segunda parte seja melhor, porque essa primeira é mais um amontoado de digressões e histórias inconclusas. De novo: nem o próprio autor as têm claras em sua mente.

Uma prova de que Thompson, mais do que escritor, era um cara de personalidade. Os textos de Reino do Medo mostram mais o homem do que o escritor. Isso é bom, em parte.

Ainda preciso descobrir uma forma de conciliar as leituras. Preciso aprender a ler mais de um livro ao mesmo tempo e aproveitar todos. Aquele tempo em que eu podia ler um livro por semana acabou (tenho até que agradecer, pois naquela época não tinha muito mais lazer do que leitura. Aproveitei bem a falta de dinheiro).

Acho que eu escrevia melhor também…


O Rio é a Las Vegas brasileira

5 março 2008

NOTA DO EDITOR
Julião anda pensando muito sobre seus escritos. Logo depois de voltar do Rio de Janeiro, do carnaval que, em suas palavras, foi “o melhor da minha vida; na verdade, foi meu primeiro carnaval de verdade”, ele me mandou rascunhos do que, no futuro, seria o relatório de sua viagem. Mas aí ele entrou naquela “crise”, “revelação”, seja lá o que for este momento que ele vive, e nunca publicou – nem sei se chegou a concluir – o tal texto.

Como ele não me proibiu de publicá-las, seguem, abaixo, as notas do nosso repórter – que ele não me mate pela ousadia.

* * *

Funk proibidão cantado pela nossa anfitriã, poucas horas antes de sairmos para o Bloco de Segunda:

Vou bater pa tu, pa tu bater pa tua patota
Chegou o
podruto que deixa com a boca torta

Chego em Botafogo e dou de cara com um cidadão entortando a boca, numa expressão nunca dantes vista por estes olhos. No decorrer do percurso, ainda vejo mais dois com a cara parecida.

Duas meninas passam por nós. Uma delas fala algo mais ou menos assim: “laragadaduguglaplicbloblem”. Totalmente incompreensível. A outra ainda concorda: éééé.

***

Os blocos do Rio são a expressão do verdadeiro carnaval. Pobres, mendigos, classe média, crianças, velhos, velhas, coroas, jovens: todo mundo fantasiado, ninguém é o que é e torna-se apenas mais um folião.

***

Taxista:
“Peguei uma rua pra fugir do bloco, quando fui ver, tava no olho do bloco, mermão. Falei: fudeu! O carro num andava, aquele mundo de gente. Aí achei um policial bêabado – tava até sem arma; deve ter pensando: vou beber hoje, então vou deixar a arma no quartel pra não dar méarda. Falei: Amigo, dá uma sirene aí pra eu poder passar. O guarda falou: Mermão, problema teu. Tenho nada a ver com íasso. Falei: Pô, e se eu te der 20 reaishh, tu libera? – Demorôa! O cara deu uma sirene, abriu caminho, passei rapidinho.” O detalhe é que táxi no Rio, de um lado a outro da cidade, pela minha noção de distância, dava 20 reais. Em São Paulo o mesmo percurso daria uns 50, no mínimo.

***

Las Vegas Brasileira. Um monte de gente chapada na rua. Eu olhando tudo, consciente, mas não menos louco. Rindo sozinho. Totalmente Thompson. Uma Estátua da Liberdade gigante num shopping da Barra da Tijuca. Coisas grandes, imensas, sem relação alguma com o Brasil. Uma mistura totalmente heterogênea.

Lapa: prédios históricos. Bela arquitetura. Mas, na frente de um deles, duas esfinges. Nos Arcos da Lapa toca Michael Jackson, fase Billie Jean (is not my love, she’s just a girl, claimmed that I am the one, but the kid is not my son). Saio de lá e passo pela Sapucaí. Homens bombados vestidos de Dragão. Mulheres com fantasias incompletas, saltos enormes. Todas as calçadas cobertas de urina. Cheiro horroroso. Eu, de chinelo, tento saltar das “poças”.

* * *

Mas que fique claro: a cidade é linda.