O Rio é a Las Vegas brasileira

NOTA DO EDITOR
Julião anda pensando muito sobre seus escritos. Logo depois de voltar do Rio de Janeiro, do carnaval que, em suas palavras, foi “o melhor da minha vida; na verdade, foi meu primeiro carnaval de verdade”, ele me mandou rascunhos do que, no futuro, seria o relatório de sua viagem. Mas aí ele entrou naquela “crise”, “revelação”, seja lá o que for este momento que ele vive, e nunca publicou – nem sei se chegou a concluir – o tal texto.

Como ele não me proibiu de publicá-las, seguem, abaixo, as notas do nosso repórter – que ele não me mate pela ousadia.

* * *

Funk proibidão cantado pela nossa anfitriã, poucas horas antes de sairmos para o Bloco de Segunda:

Vou bater pa tu, pa tu bater pa tua patota
Chegou o
podruto que deixa com a boca torta

Chego em Botafogo e dou de cara com um cidadão entortando a boca, numa expressão nunca dantes vista por estes olhos. No decorrer do percurso, ainda vejo mais dois com a cara parecida.

Duas meninas passam por nós. Uma delas fala algo mais ou menos assim: “laragadaduguglaplicbloblem”. Totalmente incompreensível. A outra ainda concorda: éééé.

***

Os blocos do Rio são a expressão do verdadeiro carnaval. Pobres, mendigos, classe média, crianças, velhos, velhas, coroas, jovens: todo mundo fantasiado, ninguém é o que é e torna-se apenas mais um folião.

***

Taxista:
“Peguei uma rua pra fugir do bloco, quando fui ver, tava no olho do bloco, mermão. Falei: fudeu! O carro num andava, aquele mundo de gente. Aí achei um policial bêabado – tava até sem arma; deve ter pensando: vou beber hoje, então vou deixar a arma no quartel pra não dar méarda. Falei: Amigo, dá uma sirene aí pra eu poder passar. O guarda falou: Mermão, problema teu. Tenho nada a ver com íasso. Falei: Pô, e se eu te der 20 reaishh, tu libera? – Demorôa! O cara deu uma sirene, abriu caminho, passei rapidinho.” O detalhe é que táxi no Rio, de um lado a outro da cidade, pela minha noção de distância, dava 20 reais. Em São Paulo o mesmo percurso daria uns 50, no mínimo.

***

Las Vegas Brasileira. Um monte de gente chapada na rua. Eu olhando tudo, consciente, mas não menos louco. Rindo sozinho. Totalmente Thompson. Uma Estátua da Liberdade gigante num shopping da Barra da Tijuca. Coisas grandes, imensas, sem relação alguma com o Brasil. Uma mistura totalmente heterogênea.

Lapa: prédios históricos. Bela arquitetura. Mas, na frente de um deles, duas esfinges. Nos Arcos da Lapa toca Michael Jackson, fase Billie Jean (is not my love, she’s just a girl, claimmed that I am the one, but the kid is not my son). Saio de lá e passo pela Sapucaí. Homens bombados vestidos de Dragão. Mulheres com fantasias incompletas, saltos enormes. Todas as calçadas cobertas de urina. Cheiro horroroso. Eu, de chinelo, tento saltar das “poças”.

* * *

Mas que fique claro: a cidade é linda.

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3 Responses to O Rio é a Las Vegas brasileira

  1. […] de um carnaval no Rio de Janeiro, eu achava que não encontraria mais demonstrações tão exacerbadas do espírito fanfarrão […]

  2. […] Depois de ter pegado chuva no carnaval, eu precisava agora curtir a beleza do Rio. Com sol, tudo fica mais bonito. A viagem teria sido sem palavras se acabasse no primeiro dia: não há o que dizer sobre aquela paisagem. A beleza é emudecedora. Não há fusão tão perfeita entre natureza e cidade. […]

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