Memórias culinárias: o feijão que não comi

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Meses depois daquele dia, em meio a um plantão, me lembro do feijão que não comi no Rio de Janeiro. Vez ou outra me pego lembrando de um prato específico, que caiu muito bem dentro de um contexto. Desta vez, contudo, me vi, numa tarde de domingo, desejando um prato que não havia comido.

Já passava das cinco da tarde e tudo que havíamos comido era um café da manhã razoável e muito biscoito Globo. Quando finalmente o bloco acabou, fomos em direção a outro, e um restaurante/lanchonete de chão sujo apareceu em nosso caminho.

Pedi um pão com queijo e carne. Meu parceiro de crime não pediu nada: ele tem a crença de que comer em momentos de folia atrapalha o rendimento, dando sono e uma tentação ao fracasso de estar dormindo num dia em que todos festejam.

Por acaso, estava conosco um adepto da paz e da ordem, afeito a regras e convenções, que, apesar disso, era confiável. Logo teríamos mais uma prova de que ele seria útil para nós. Àquela altura do dia, o cidadão-de-bem estava aflito por não ter almoçado. Não hesitou em pedir um PF completo, com direito a feijão.

Imagino que ele tenha sido uma criança da classe média-alta paulistana, cheia de vontades, dentre as quais comer apenas aquilo que lhe parecia gostoso. Graças a esse desvio de caráter, causado diretamente por seus pais, nosso acompanhante deixou o feijão de lado. Talvez tenha comido umas duas colheradas, mas o importante nesta história é que havia uma cumbuca enorme de feijão ao alcance do meu parceiro fora-da-lei.

Como é do feitio do ser humano, meu amigo abriu mão de suas convicções, em detrimento do instinto, e avançou sobre o feijão. Não se preocupou com prato nem com modos. Pegou a colher de servir e começou a comer aquele caldo espesso, puro mesmo.

Feijão de PF e de self service é quase sempre ruim. Preocupados em agradar o gosto médio, os cozinheiros nunca põem carnes nem temperos, praticando uma heresia sem precedentes. Hoje, à distância, imagino aquele feijão bom. Mas devia ser mais um na média. Meu amigo, também apreciador da boa comida, tratou de corrigir aquele erro: pegou a pimenta caseira, com frutos inteiros embebidos em óleo, que eu usava para temperar meu sanduba em doses homeopáticas, e despejou na cumbuca de feijão.

A quantidade de pimenta que ele usou faria qualquer outro paulista chegar às lágrimas e às hemorróidas. Como escolho bem meus parceiros de desordem, aquele tinha um pé na Bahia – come mais pimenta do que muito baiano. A cara de satisfação que ele fazia ao comer aquele caldo quente e apimentado foi o que me fez desejar o feijão hoje, meses depois.

Claro, aliado ao fato de fazer um bom tempo que não como um feijão caseiro, saboroso, honesto. Porque, depois daquele carnaval, até comemos uma bela feijoada (a R$ 30 por cabeça!), mas nada que se compare a um bom feijão caseiro.

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