Um lugar ducaralho

Foto: Vinicius Augusto

Belo Horizonte

Depois de semanas em que meu bom senso, auto-estima e projetos de vida continuavam a travar uma batalha sangrenta e sem fim, meus nervos estavam em frangalhos. Eu precisava ir para longe de São Paulo me desligar da guerra e relaxar. Foi uma luz no fim do túnel a idéia de ir para Belo Horizonte no feriado, visitar meu primo-irmão-de-criação, que viveu comigo todos os meus anos de Porto Seguro.

Depois de um carnaval no Rio de Janeiro, eu achava que não encontraria mais demonstrações tão exacerbadas do espírito fanfarrão humano. Me enganei. Afinal, eu iria presenciar a vida universitária como um voyeur, não mais como um membro dela.

É claro: a vida universitária dura anos, e não alguns dias; exige algumas responsabilidades maiores do que se manter de pé e, por estes dois fatores, nunca será algo tão avassalador quanto o carnaval. Mas o pessoal até que se esforça.

No meio daquelas pessoas jovens e sem maiores reclamações, eu era um ser estranho, apesar de – salvo engano – me disfarçar relativamente bem. Imagine: não ter de se preocupar com o aluguel no fim do mês; com o trabalho na segunda (a aula é bem mais tranqüila, acreditem, meus jovens); em disfarçar sua insatisfação para seus colegas de trabalho e chefes… Definitivamente, eu não pertencia mais àquele mundo.

O fato é que, como em toda viagem, não importa o quão longe se vai, o que encontrei não foi nada mais do que eu mesmo. E o reencontro foi mágico. Só saindo do seu meio para descobrir quem você é.

Sentei em bares onde ninguém falava de trabalho (as reclamações sobre a faculdade, se houveram, soaram como música); fui a baladas que exalavam uma energia quase virgem, em que a fumaça dos cigarros parecia até mais leve, sem aquela carga extra de frustração, responsabilidade e tristeza pela juventude que se vai.

Não voltei cheio de nostalgia. Voltei querendo fazer as coisas que sempre sonhara e que, de repente, foram deixadas de lado, entre um boleto do cartão de crédito e um celular de último tipo que quase ninguém liga. Tive de me segurar para não repetir a todo instante, embora tenha deixado escapar algumas vezes: aproveitem ao extremo!, este é um momento único em suas vidas!

Como se fosse preciso dizer.

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4 Responses to Um lugar ducaralho

  1. karamvaldo disse:

    Eu acredito que romper limites externos, ultrapassar fronteiras de cidades, estados e países, é a melhor maneira de ampliar nossos limites internos.
    Posso contar um causo?
    “A noite caíra enquanto eu esperava na rodoviária, para voltar à minha cidade. Uma viagem difícil e longa, apesar da pouca distância. Tive que esperar muito e já estava a horas imerso só em meus pensamentos, quando – para fugir deles – comecei a prestar atenção na conversa de dois homens que sentaram-se atrás de mim no ônibus. Não vi o rosto dos dois, mas, pelo tom de voz, eram pessoas simples. Um deles estava mais entuziasmado:

    – Mais nunca que eu imaginei vim numa cidade dessa. Tudo diferente!

    Ele falava de uma cidade há menos de 30 quilometros de onde mora.

    Continuou: – Eu tô com ela há 3 anos. Não taria com ela se não gostasse. Com ela não tem essa história de metidez. Quando ela falou pra eu vir visitar ela aqui eu nem acreditei. Nunca que imaginei vir numa cidade diferente…

    O outro murmurou algo que não pude compreender.

    Ele respondeu: – Ela me ligou e disse pra eu comprar a passagem que ela esperaria na Rodoviária. Peguei o ônibus, parei na rodoviária e… tava lá ela, me esperando!!!

    Sorri ao concluir que o amor, seja a estima por nós mesmos ou o amor à outra pessoa, é que nos impulsina para romper os limites.

    Um grande abraço

    Karam

  2. Mi do Carmo disse:

    Eu sempre tento ficar próxima dos mais jovens e tentar ser contaminada. Tempo que sinto saudade é o da universidade. O espaço tomou proporções humanas, sinto saudade de lá como sinto de um parente querido distante.

    Muito bom, mas passa voando. Sorte de quem aproveita intensamente.

    😉

  3. Olha o cara! Tem um blog sério, hehehe
    Os anos da faculdade são muito bons, mas não dá pra gente viver no saudosismo. Por isso achei essa frase do final foda: “Voltei querendo fazer as coisas que sempre sonhara e que, de repente, foram deixadas de lado, entre um boleto do cartão de crédito e um celular de último tipo que quase ninguém liga.”

  4. […] da minha aversão ao lugar-comum. Fui de novo para o Rio. Os nervos não estavam em frangalhos, havia viajado (e gastado uma quantia considerável) no feriado anterior, mas o convite era […]

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