Vale nada: a escrita e a neurastenia de André Julião

4 agosto 2008

Acho que não sirvo para ser um crítico nos moldes atuais, ou em qualquer outro molde. Não consigo me programar para terminar de ler um livro antes que o assunto fique velho. Depois que leio, ainda preciso de um tempo para digeri-lo, pensar sobre ele e tentar vê-lo de forma mais distanciada, e não mais no calor do momento.

Isso tudo sem contar um perfeccionismo muitas vezes inútil. Não consigo falar en passant de algo que eu julgue merecer toda a minha dedicação e a atenção dos leitores. Quero que a crítica seja digna da obra. Claro que, com tempo escasso – e com esse desafio utópico -, isso tudo é impossível. Para mim, pois acredito que há quem consiga.

Não raro deixo um texto mofar, começo, deixo para depois – às vezes interrompido por um convite para o bar, por exemplo – e nunca mais o finalizo.

Vou deixar meu orgulho de lado e publicar algo incompleto (ou mais provavelmente foi meu orgulho foi que não deixou que eu o jogasse fora). Abaixo, um rascunho de crítica da biografia de Tim Maia escrita por Nelson Motta. Mesmo agora que o livro passou dos 100 mil exemplares vendidos, creio que ainda há quem queira lê-lo. Saiba que ele merece muito mais do que estas tortas linhas. Merece sua leitura.

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Tim Maia não se comportaria como um biografado comum. Seu jeito escrachado, sua fúria e sua simpatia, seus excessos e sua inteligência musical talvez não fossem compreendidos por um biógrafo que não o tenha conhecido tão bem quanto Nelson Motta. Poucos além de “Nelsomotta”, como era chamado por Tim, falariam de música como é dito em Vale Tudo – O som e a fúria de Tim Maia.

Só Nelson Motta para se sentir à vontade em escrever o peso de Tim em cada capítulo – o auto-intitulado “preto, gordo e cafajeste” odiava que falassem do seu tamanho. A narrativa não se atém a detalhes insignificantes: é ágil, daquelas que te fazem ler vários capítulos de um só fôlego.

A linguagem também está longe de ser a sisuda e distanciada de certas biografias: Nelson Motta não se propõe a ser isento, entrando vez ou outra na narrativa e usando termos heterodoxos como “negão”. Como não poderia deixar de ser, a música é uma grande personagem em toda narrativa. O autor se preocupa em descrever o suingue, as levadas, as influências das músicas.

Mesmo tendo sido amigo de Tim Maia, Nelson Motta não o poupa de detalhes que talvez Tim preferisse não fossem narrados. As ausências em shows devido às rebordosas de “triatlo” – quando Tim virava a noite à base de maconha, cocaína e uísque – os acessos de fúria, a arrogância – ou falta de modéstia – quando recusado em um hotel, por exemplo.

Tudo isso poderia ficar destacado ou escondido demais de um autor que não o tivesse conhecido. Porque também era notório em Tim seu enorme senso de humor, seu desapego e sua gratidão. Nelson Motta foi o mais honesto possível em se tratando de um personagem tão cheio de nuanças.

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Para ir além: vale muito a pena visitar o hotsite do livro, com fotos, vídeos e músicas do grande Tim Maia do Brasil. E não se esqueça: leia o livro… Vale Tudo – O som e a fúria de Tim Maia.

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