Os Eleitos

18 novembro 2008

Eles treinaram duro para estar no time de pilotos mais hábeis da Força Aérea Brasileira. A missão destes homens, porém, é de paz: encantar a todos com acrobacias espetaculares

Para o pequeno Carlos Henrique, música era o ronco dos motores dos aviões. Cinema era o espetáculo de loopings, parafusos e wingovers. Brinquedos eram aviõezinhos. Desde sempre vendo e ouvindo os moradores mais conhecidos da Academia da Força Aérea sobrevoando sua cidade natal, Pirassununga, a 200 km de São Paulo, a escolha da profissão foi natural: fumaceiro. É assim que se autodenonimam os membros do Esquadrão de Demonstrações Aéreas, mais conhecido como Esquadrilha da Fumaça.

“Ia a todas as demonstrações. Acabou que os meus estudos foram direcionados para entrar na Força Aérea”, conta o hoje Capitão Carlos Henrique Baldin, desde o ano passado na Fumaça, apelido carinhoso dado pelos fumaceiros ao esquadrão. Com mais de 3 mil horas de vôo, o Capitão Baldin já ultrapassou 50 demonstrações.

Há um ano, ele vivia as emoções que o Capitão Alexandre de Carvalho Ribeiro vive hoje. Filho do respeitado Coronel Ribeiro Júnior, que voou na Fumaça quando esta ainda usava os aviões T-6 Texan, Alexandre treina para ingressar no time. “Acompanho desde criança a Fumaça e foi uma escolha muito natural para mim”, diz.

A palavra “família”, quando dita por um fumaceiro, não se refere necessariamente a laços de sangue. Para suportar uma rotina cansativa e de dedicação integral à Fumaça, é preciso algo mais intenso do que simples coleguismo. “Somos uma família como qualquer outra, com todas as suas qualidades e defeitos”, define o Tenente Márcio da Costa Corrêa, 3 mil horas de vôo e mais de 50 demonstrações na bagagem.

Longe de ser uma vida como a do personagem Pete “Maverick” Mitchell, vivido por Tom Cruise no filme Top Gun – Ases Indomáveis, os fumaceiros têm uma rotina espartana. Fazem pelo menos dois treinamentos por semana, um com tempo bom e outro com tempo ruim. Além dos trabalhos administrativos de todo militar, de segunda a sexta, das 8h às 16h30. Nos finais de semana, se apresentam por todo o Brasil.

“A família paga um preço. Quando o piloto decide entrar para a Fumaça, os parentes têm de estar preparados. Mas para eles é um orgulho também”, explica o Major Cláudio José Lopez David, que está no seu último ano entre os fumaceiros, mais de 5 mil horas de vôo e 200 demonstrações depois.

Sangue novo
A dedicação integral à Esquadrilha da Fumaça é uma das razões para a carreira durar apenas quatro anos. A necessidade constante de inovação também conta. “As acrobacias são um espetáculo plástico. É um balé aéreo que não pode deixar o público cansado”, resume o Tenente Márcio, estreante na Fumaça, mas que já participou da mudança da série de manobras ocorrida neste ano.

Sangue novo, quando se trata de voar no limite, não tem nada a ver com inexperiência. Para se candidatar a uma vaga entre os 11 pilotos da Esquadrilha da Fumaça, é necessário ser “rodado”. O candidato precisa ter, no mínimo, 1500 horas de vôo, sendo 800 como instrutor. “Num lugar onde se voa muito, como aqui na Academia da Força Aérea, isso leva de três a quatro anos”, explica o Capitão Gil Eduardo de Lima e Silva, com quase 4 mil horas de vôo e mais de 100 demonstrações no currículo.

Todo esse tempo nos ares permite que os brasileiros consigam marcas inéditas entre outros esquadrões de demonstração. A Esquadrilha da Fumaça, cuja primeira apresentação se deu em 14 de maio de 1952, é uma das poucas que fazem uma manobra rara, graças ao seu alto grau de dificuldade: o vôo de dorso. É quando o avião voa, literalmente, de cabeça para baixo.

“Você vira criança de novo. Seu cérebro quer fazer uma coisa e você outra”, explica o Capitão Líbero Onoda Luiz Caldas, com mais de 3 mil horas de vôo e ultrapassando 50 demonstrações. No vôo de dorso, todos os comandos mudam. Para dobrar à direita é preciso virar o manche para a esquerda e vice-versa; para subir é preciso fazer o movimento que normalmente é para descer. Esta é a parte mais difícil do treinamento de três meses pelo qual o piloto passa depois de admitido na Fumaça.

Não bastasse a dificuldade motora, há o esforço físico. “Depois que você sai do avião, parece que acabou de correr os 100 metros rasos”, conta o tenente Márcio. “O coração dispara. E como tem de estar muito bem preso ao assento, dóem bastante os ombros e as pernas.” O esforço compensa: em 2006, a Esquadrilha da Fumaça bateu o recorde de aviões voando de dorso ao mesmo tempo: 12. As duas marcas anteriores, também registradas no Guiness Book, eram dos próprios fumaceiros, que em 1996 voaram com 10 aviões de cabeça para baixo e 11 em 2002, na comemoração dos 50 anos do esquadrão.

Respeito mundial
Recordes como esse fazem a Esquadrilha da Fumaça ser respeitada entre aviadores do mundo inteiro. Tal reconhecimento fez os fumaceiros serem convidados para o Royal International Air Tatoo (RIAT 2008), um dos mais conhecidos festivais de aviação do mundo, em Fair Ford, a 80 quilômetros de Londres.

Foram 31 horas de vôo, com cinco escalas em quatro países diferentes, para ir de Pirassununga a Fair Ford. Para isso, oito aviões T-27 Tucano, acompanhados de um Hércules levando uma equipe de apoio, saíram do Brasil no dia 2 de julho e só chegaram à Inglaterra uma semana depois.

Os Tucano usados pela Esquadrilha da Fumaça têm autonomia de 4h30 de vôo. São aviões bons para a execução de manobras, ideais para treinamentos e apresentações. Seu motor é o turbohélice Pratt & Whitney de 750 SHP. Para a viagem, foram instalados tanques “subalares” (embaixo das asas), que aumentam a capacidade de abastecimento para até 10 horas de vôo ininterruptas. Ao chegarem, no entanto, a decepção: o RIAT havia sido cancelado devido ao mau tempo.

“O grande triunfo foi a viagem em si. Cada vez que chegávamos em um país, tínhamos de passar pela alfândega, pagar impostos”, lembra o tenente Márcio. “Isso tornou a viagem ainda mais cansativa e exigiu um planejamento grande”. Os ingleses e aviadores de todo o mundo só puderam assistir a um vôo de aprovação, obrigatório antes da demonstração aérea – que não aconteceu.

Mesmo sem terem feito seu show máximo, a visão daquelas aeronaves com as cores da bandeira brasileira deixou embasbacados ingleses e aviadores vindos dos mais diversos lugares presentes no evento. A Esquadrilha da Fumaça já havia feito o que o Capitão Baldin define com a essência da profissão: “Ser fumaceiro é encantar as pessoas”.

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Publicado na revista TAM Nas Nuvens, edição nº 10, de outubro de 2008