A vergonha vem depois

8 setembro 2007

“Os que se calam hoje, com medo de fazer o jogo da direita, deveriam consultar a história, capítulo Stálin. Os momentos de cumplicidade com o crime são doces e suaves. A vergonha vem depois.”

Fernando Gabeira, em sua coluna na Folha deste sábado


A gargalhada na política

29 abril 2007

A morte de Boris Yeltsin trouxe de volta aos telejornais uma rara cena divertida do noticiário político contemporâneo. A reedição da gargalhada que quase mata Bill Clinton de rir diante das câmeras que o enquadravam ao lado do ex-presidente russo, encheu o mundo de nostalgia de um tempo em que os governantes eram no mínimo mais humanos que os poderosos de agora. Bebiam, manchavam vestidos de estagiárias, dançavam, tocavam saxofone, curtiam charutos, davam uns tapas, beliscavam umas e outras, se escangalhavam de rir.

Tutty Vasques fez a melhor síntese do que representou o ex-presidente russo. Aquelas atitudes humanas, demasiado humanas, do presidente beberrão apenas mostravam que os políticos podem ser “gente” também.

O colunista de NoMínimo também revelou um vídeo que eu havia esquecido de procurar, mas que me fez rir só de imaginar a cena descrita no noticiário impresso, que dava conta de que Eduardo Suplicy fez Toninho Malvadeza ficar rosa de tanto rir. O pai do Supla, mais uma vez, leu uma música dos Racionais em sessão do Senado. Só pelo “pá, pá, pááá”, já justificou meu voto nele.


Dia de festa d’O Partido

27 dezembro 2006

Quem me recebe à porta é O Assessor. Ele está quase sempre com um sorriso estampado no rosto, sua face gordinha chega a ser quase engraçada. Já está a um bom tempo n’O Partido. Já foi um socialista. Como muitos outros, entrou para O Partido acreditando na revolução nos moldes antigos. Não sei se hoje ele acha que está fazendo revolução ou se regozija por estar onde seus opressores sempre estiveram. N’O Poder.

Ele tem até uma formação acadêmica na área social. Hoje é O Assessor, um cargo que não necessita de tão vasto gabarito. Mas também, ele já não o usa desde que saiu da faculdade. Não sei se tenho pena ou raiva dos membros d’O Partido.

Hoje é o dia de um jantar comemorativo. O grupo do Assessor ganhou mais uma “eleição” interna. Membros que se dizem de outras alas – ou “radicais”, segundo a definição da maioria d’O Partido – afirmam que foi um pleito fraudulento, automático, sem debate. É provável. O que admira é que isso não é novo e, mesmo assim, eles não abandonam O Partido. A briga ali dentro é comparável à disputa de um reino próspero. Quem garante que, se chegarem Lá, não farão o mesmo?

Ultimamente O Partido está com uma imagem bem negativa junto à opinião pública. Será que este é o mesmo Partido? Aqui tudo parece estar na mais serena ordem. As pessoas vão chegando, se acomodando, bebendo e fumando. Aliás, quanta gente feia. A única gostosa que vejo logo some. Há muitas crianças, uma não pára de passar atrás de mim, se apertando entre a minha cadeira e a de outra mesa. Conseqüentemente sou empurrado para frente a todo instante.

Não queria estar aqui. A princípio, é um evento totalmente sem relevância. Em compensação, vou explodir de tanto comer; pra compensar. O Assessor manda que eu fique à vontade. Posso pedir cerveja, refrigerante, comer à vontade. Se eu pudesse beber, juro que ficaria bêbado às custas d’O Partido. Ao invés disso vou, literalmente, tirar a barriga da miséria de tanto comer.

Todo mundo chega de uma vez só. Inclusive O Novo Líder. Logo há uma imensa fila para comer. As pessoas parecem esfomeadas. Um certo prato chega nas bandejas e é logo devorado, como uma carcaça de boi num rio infestado de piranhas. O único prato que não falta é arroz. E como come arroz esse povo! É melhor eu me servir. Quero comer o máximo que puder e ir embora. De que mais me serve esse evento? Me espanto quando vejo pessoas na fila com o prato sujo: já estão repetindo. Em certo momento, ainda na fila, vejo que O Antigo Líder está confiscando meu lugar e o cedendo a um grupo! Membros do Partido Interno não precisam disso.

Se bem que este pedaço d’O Partido está bem mixuruca. A comida não é das melhores. O local é pequeno para tanta gente. E os membros do Partido Interno nem comendo estão. Será que o melhor está guardado pra eles? Quando os membros do Partido Externo e os proles saírem, eles vão se deliciar num banquete exclusivo? Por enquanto ficam na porta da cozinha. Inclusive A Líder do Parlamento, com uma roupa assaz espetaculosa. Brega, diria uma mulher.

Sabe aquele prato que some logo que chega à bandeja? E que há muito não aparece, gerando até fila de espera? O Novo Líder passa tomando cerveja acompanhada de um uma unidade do prato na mão. Privilégio do Partido Interno.

Volto à minha mesa, que está ocupada. Fico por perto, fingindo que procuro um lugar. Até que um dos ocupantes – sabendo ser aquele meu lugar – subverte a ordem do Partido, se retira e pede educadamente que eu sente. Peço que fiquem, e que aquele que se levantou apenas consiga uma cadeira. Logo percebo que na minha mesa está a outra gostosa do local. Tem um jeitinho insinuante, usa uma blusa colada branca com decote, saia e uma par de botas – rosa. Quando abre a boca, porém, não anima. Além de fazer piadinhas sem graça, tem os dentes montados. Mas o grupo de três – ela e mais dois homens – é até simpático.

Ah! Por sorte conseguiram uma cadeira para o meu novo amigo.

Os talheres que estavam na minha mesa sumiram. Vou até a cozinha pedir um par e tenho que me contentar apenas com um garfo – de sobremesa. Tive sorte de encontrar três pratos além de arroz. Como e repito.

Até que chega o momento tão esperado: O Membro Festejado chega. “Viva o Membro Festejado!”, grita O Novo Líder. Soaria com duplo sentido esse nome, não fosse O Partido dono da verdade. Tenho que duplipensar e não encontrar nada além de um grito de festejo naquele “viva”. Simpático, O Membro Festejado. Também tem um sorriso quase meigo. Aliás, a maioria d’Os Membros sorri e discursa muito bem. Graças a isso chegaram onde estão. Não possuem as indústrias, as empresas, os bancos que O Adversário possui. Com movimentos populares, frases eloqüentes e apoio dos proles, alcançaram um patamar até então só explorado pelo Adversário. Mas ainda não era o suficiente. Precisavam chegar mais longe. Aí vieram os setores antes ligados exclusivamente ao opositor: bancos, empreiteiras, fundos de pensão… E O Partido conseguiu O Poder.

Ao conseguí-lo, contudo, bastou-lhe. Os ricos continuaram cada vez mais ricos, os pobres, cada vez mais pobres. O segredo do sucesso foram discursos eloqüentes, dizer que representa os proles, porque surgiu deles. O Partido não tem posses. Por isso, se um membro não consegue um cargo eletivo, permanece apenas trabalhando pelo Poder ou para O Poder. Não importa se quem o detém seja o agora ex-adversário. O Partido não tem posses, mas tem A Máquina Partidária. Um sistema que não tem ideologia, a não ser a de conseguir mais Poder.

Mas eu não sei dizer se todos os membros sabem disso. Talvez alguns como O Membro Festejado acreditem que estão fazendo a revolução dos proles. Que esse papo de favorecer cada vez mais os ricos é conspiração da Imprensa Burguesa. Coisa dos Golpistas que querem derrubar O Partido, tão democrático e fruto da vontade popular.

Por fim, O Assessor traz uma bandeira d’O Partido e oferece ao Membro Festejado (não ria do nome dele, duplipense: pense primeiro que não há piada e depois esqueça que pensou que pode haver piada). Este a beija com orgulho de quem constrói uma mudança social.

Quem pensa que O Partido está acabado, se engana. Se nem a “Ala Moral” quer largar o osso, significa que Ele ainda detém O Poder. Ele pode estar enfraquecido, mas basta ver os membros do Partido Interno, festejando e ganhando eleições, que se percebe que A Máquina é imbatível. O Partido pode sair do posto mais alto agora, mas continuará nos guetos, nos órgãos oficiais, “liderando” os proles, onipresente. E um dia Ele deterá para sempre O Poder.

* * *

Esta “reportagem gonzorwelliana” foi publicada originalmente no dia 24 de setembro de 2005, no antigo endereço. Apesar do tempo que se passou, acho que o texto ainda vale. A escassez de posts pode continuar até que eu volte para Campinas, no dia 11 de janeiro. Até lá, peço a compreensão e a leitura de alfarrábios como este.


Efeito colateral

21 novembro 2006

Com o fim das eleições, vai-se um blog legal.

Alguém sabe um que zoe o Lula assim, sistematicamente? E de forma tão bem humorada quanto este e sem partir para a agressão? Eu queria ter descoberto um antes das Eleições. Se souber, diga aí nos comentários. A democracia agradece. 🙂


Um debate

9 outubro 2006


Muito programa de humor perde para esse debate presidencial de 1989. O “nosso” deputado mais votado em 2006 é o centro das atenções. Lula o chama de “competente” (entenda porque); ele então puxa o saco de Silvio Santos (o debate é no SBT!). Guilherme Afif Domingos (o que competiu ao Senado esse ano, dizendo que São Paulo precisava de um ACM) elogia Maluf. Brizola desconfia do PT como um partido de natureza social. Mário Covas ironiza o “estupro sem crime” de Maluf, que pergunta: “Virou cínico, é?” 

Collor… Bom, o Collor se recusou a ir.

P.S.: Sabe quem era (ou ainda é) malufista? A Hebe! Veja mais “artistas” apoiando candidatos clicando aqui.


Nem seis nem meia dúzia

4 outubro 2006

O que mais me irrita (e entristece) nestas eleições é esta falsa polaridade entre PSDB e PT. Como se tudo se resumisse a “direita” e “esquerda”. Se eu critico um candidato, me chamam de partidário do outro. Acho que o Brasil merece muito mais do que apenas dois grupos políticos com o mesmo programa de governo/poder.

Eu, com meu modesto voto para o idealista Cristovam Buarque, de repente “ajudei a direita” a chegar ao segundo turno e poderei, veja só, ser um dos responsáveis pela “volta da direita”. Se eu não concordo com dois projetos – supondo que sejam diferentes – num universo de três ou quatro, eu tenho de escolher justamente entre os dois que não aprovo?

Não acho que o governo Lula tenha mudado muito em relação ao FHC. A política econômica é a mesma. Aliás, o superávit primário aumentou! A dívida com o FMI foi zerada só por causa do Lula? A Carta ao Povo Brasileiro serviu mais para aliviar os banqueiros e especuladores de que nada mudaria. As políticas sociais são as mesmas. Lula uniu os programas assistencialistas criados no governo de Fernando Henrique Cardoso – e ainda tirou a contrapartida das crianças da família freqüentarem a escola.

É claro que hoje mais famílias são beneficiadas, claro que o emprego melhorou, mas é uma tendência natural se os programas continuam. Longe de estar defendendo o governo tucano (já devem estar dizendo), pois são no mínimo questionáveis programas que só dão o peixe e não ensinam a pescar. A privatização da Vale do Rio Doce foi um desastre para o País – o lucro de um ano é superior ao valor que a empresa foi vendida. A corrupção já existia no governo do PSDB (e no Collor-Itamar, no Sarney, no militar, no Jânio Quadros etc.), mas não votamos no PT justamente para que ele mudasse tudo isso?

Porque só o argumento do continuísmo bastaria, mas ainda tem o quesito corrupção. Não sei você, mas eu não consigo compactuar com o crime. “Erros” como caixa 2 e valerioduto não podem ser tolerados, principalmente por quem está no posto mais alto do Estado.

Aí agora, até pessoas cultas vêm dizer que estou ajudando a “direita”. Eu pensei que a “esquerda” fosse fazer muito mais do que continuar aplicando o modelo neoliberal. Temos a Eletrobrás que lucra rios de dinheiro, mas que vão para o pagamento do superávit primário. Minha decepção com essa esquerda é justamente por fazer tudo igual à direita.

A educação superior foi privilegiada em detrimento da educação básica. Em vez de usar apenas as faculdades públicas para os pobres, gasta-se pagando bolsas de estudo em faculdades particulares. Sim, porque sou a favor de cotas para estudantes de baixa renda nas faculdades públicas. E não importa a cor da pele, pois pobreza não tem raça. Cotas nas universidades federais e estaduais não dão despesa adicional ao governo e sobra para a educação básica. Escolas públicas de qualidade, com professores bem remunerados, vão formar os estudantes que não precisarão de cotas, no futuro. Bom, mas criança não vota, não é? E cidadão escolarizado é perigoso.

Esse papo de que é preciso votar em um para que o outro não chegue ao poder não convence. Tenho que votar, então, no “menos pior”? Só para ilustrar, o golpe militar foi apoiado pelos brasileiros que tinham medo que o comunismo chegasse ao Brasil. E não foi só reacionário que apoiou, não! Foi a “família brasileira”. Deu no que deu. Claro que o caso aqui não chega a tanto, mas já tem gente dizendo que, dependendo de quem ganhar, vai ter privatização para todo lado ou que vamos ter um Hugo Chávez brasileiro…

Estamos num país de 180 milhões de habitantes e acredito que há alternativas além desse modelo que vem sendo aplicado há tantos anos. E, acima de tudo, acredito que sem homens íntegros no comando um país não vai longe. Reservo-me ao direito de não votar nem em seis nem em meia dúzia.


Meu domingo

3 outubro 2006

“Pode votar”, “Só um minutinho senhora… Senhora! Só um minutinho…”, “Assina aqui, Seu Fulano”, “Bom dia”, “Boa tarde”, “Seu comprovante, tenha uma boa tarde”, “Pode ir até aquele rapaz ali de verde”, “Não é essa seção, é aqui do lado”, “Seção 151, senhor?”, “Ficou faltando algum voto, senhor”, “A senhora tem que confirmar, no verde”, “Votar em um só? Pode, mas tem que votar em branco ou anular os outros”, “Faltou votar pra senador. São três números.”

E no pouco tempo que fiquei de pé, na porta da seção, um senhor apontou para a minha barriga e disse: “Você é chegado numa cervejinha, né?”

É bom rir mesmo, porque dia 29 estou lá de novo…