Crônica de um fracasso: o(s) dia(s) em que não vi Gay Talese

12 julho 2009

Alguém que demora muito a aparecer deveria chegar com palavras mansas. Um olá, bom dia, como vai, deveria preceder qualquer conversa, tanto tempo depois de uma ausência. Mas me reservo a ser mal-educado neste momento de frustração. Apesar de ensaiar há algum tempo meu retorno à esta tribuna, só tomei motivação para fazê-lo agora, na vã tentativa de espantar alguns demônios. O homem que vos escreve, aqui, caros leitores, é um idiota.

Todo mundo sabe que esteve pela primeira – e, provavelmente, última – vez no Brasil o jornalista Gay Talese. Não lembro exatamente como nem onde, em algum dia entre os anos de 2003 e 2004, ouvi falar dessa sumidade da reportagem. Acho que tinha 19 anos (não mais do que isso) quando li, pela primeira vez, um livro do filho de um alfaiate italiano que provou, mais uma vez na história, que não há nada mais interessante no mundo do que gente.

Li Fama & Anonimato no segundo semestre de 2004, emprestado de uma professora chata que eu e meus colegas julgávamos incapaz de escrever mais do que algumas notas em caneta vermelha. Na verdade, enfiei o livro na mochila antes dela dizer que me emprestaria – e, sem tônus para me impedir, deixou que eu o levasse, desde que devolvesse logo. Serei sempre grato a essa mulher.

Como deixava minhas tardes livres – os trabalhos da faculdade raramente eram dignos de minha atenção – devorei as cerca de 500 páginas do livro em duas semanas. Num só dia li a primeira parte – Nova York: a jornada de um serendipitoso (que depois homenageei com uma espécie de paródia, mal escrita); logo ataquei A ponte, sobre a construção da ponte Verrazano-Narrows e os boomers que a colocaram de pé. A última parte, só com perfis irretocáveis de famosos como Frank Sinatra, seria o ápice daquela experiência que abriria minha cabeça para um mundo de possibilidades naquele tal de jornalismo, que eu já começava a achar tedioso.

Foi um ano de muitas leituras. Chegava no meu sebo preferido de Campinas – por causa dos muitos títulos de livros-reportagem – com uma lista e mostrava para o dono, querendo saber o que tinha. Achei um exemplar quase novo de A mulher do próximo, que até hoje tem a etiqueta do preço (R$ 22). Se eu lia os livros de até 300 páginas como 1968 – O ano que não terminou, de Zuenir Ventura, em uma semana, os de 500 ou mais eu teria no máximo duas semanas, foi a regra que me impus. E assim o li. E saí falando para todo mundo, escrevendo vários posts no meu blog de então e às vezes botando o assunto na roda mesmo quando o papo ia para temas totalmente destoantes. Estava excitado – não só pela escrita fluente, cheia personagens que pareciam inventados, de tão reais. No alto dos meus 19 anos, sexo era o tema com maior propensão a me estimular.

(Um parêntesis: se estou frustrado por não ter visto meu maior ídolo no jornalismo – sim, é por isso que comecei a escrever isso, findo o mistério – não posso dizer o mesmo de Zuenir Ventura, outro ídolo, só que também como pessoa, com o qual tive um longo papo em 2005 e ainda outras conversas por telefone. É só eu falar que sou aquele que fez ele autografar três livros em Campinas que ele se lembra de mim.)

Tudo isso já faz um bom tempo. Na mesma época li, mais demoradamente (20 dias?), O Reino e o Poder, sobre o New York Times e, recentemente, me vi travado na leitura de Honrados Mafiosos­, uma edição antiga que, quero acreditar, só tem a leitura menos fluída por causa da má qualidade da tradução.

Vieram as redações, o fim das utopias, a tarefa de escrever para ganhar dinheiro, o jornalismo esportivo, e Talese foi virando apenas uma lembrança boa. A empolgação voltou, em parte, quando soube de sua vinda para a Flip e do lançamento de Writer’s Life em português (Vida de Escritor). Imediatamente tratei de adquirir o livro, tentei uma entrevista (tardiamente, confesso; comi bola, como se diz) com o homem dos ternos feitos à mão, mas sequer planejei uma ida à Flip (a apatia, esse mal que me consome a maior parte do tempo).

O destino, contudo, me parecia favorável quando soube que o mestre viria à minha vizinhança, falar aos poucos (imaginava eu, idiotamente) que conheciam seu talento no Brasil. Estava numa tarde livre, sem trabalho, ainda amargando os primeiros dias de recém-ingressado na carreira de repórter freelancer. Desliguei o computador (a internet, essa que Talese não usa, havia sido instalada poucas horas antes), tomei um banho. Vesti uma camiseta, mas me senti desarrumado. Para ouvir um homem que tem dezenas (centenas?) de ternos, todos feitos à mão (terá ele sucumbido às etiquetas?), vestir uma camisa era o mínimo que eu podia fazer.

Imaginei que, com as senhas sendo distribuídas a partir das 18h30, em plena terça-feira, pouca gente estaria no local. Ou ao menos um número inferior à capacidade do auditório. Eu mesmo não havia me dando conta – a ficha não tinha caído – de que quem estava para chegar ao Masp, a poucas quadras de casa, era ninguém menos que o maior nome do new journalism, o autor do perfil histórico de Frank Sinatra, o escritor que fez o mais detalhado retrato da sexualidade nos Estados Unidos antes da era da Aids, que elevou os anônimos ao mesmo patamar dos famosos (se não um superior) entre os personagens dignos de nota. Gay Talese, meu caro André. Gay Talese, eu repito, me repreendendo. O homem que te guia, todos os dias, mesmo que você esqueça, por um caminho para um texto melhor, para uma apuração melhor, para uma entrevista em que se ouça mais do que se fale.

Claro que o final dessa crônica modorrenta vocês já sabem. Cheguei às 18h10 no local e uma fila imensa já se formava. Dois amigos vieram de Campinas para o evento, e, assim como eu, ficaram a ver a Avenida Paulista e nada mais. Até o presente momento, não tinha me dado conta de que perdera a primeira e – provavelmente, repito – última chance de ouvir as palavras, e ver pessoalmente as rugas de 77 anos do homem que me faz estar aqui, num apartamento frio e pequeno no meio de São Paulo, onde vim fazer a vida como jornalista.

Tudo que eu possa fazer daqui para frente pode tornar este fato pequeno. Mas a verdade crua é que neste instante nada mais importa. Dei a maior cagada de toda a minha curta carreira (claro que o destino me reserva outras adiante, que em termos práticos podem ser piores). Minha edição, hoje surrada, de A mulher do próximo, volta para o fundo de uma caixa com naftalina, sem autógrafo. E eu, sem alento, volto à minha vidinha anônima. Fim da história. Bola pra frente.


Quase famosos

20 outubro 2008

A meteórica trajetória da banda que levou o heavy metal à cidade do axé

O encontro
Um dia chegou à porta da nossa casa o carinha que era amigo do meu primo. Carregava uma guitarra “nua” – fora de qualquer case, embalagem ou bolsa – e uma caixa de som cinza, com cara de velha. Apesar de ser apenas um ano mais novo que eu, era de Pedro, três anos mais novo que ele, que Bernardo era amigo. É uma diferença considerável quando se está nas faixa dos 13 aos 17 anos.

Bernardo era conhecido pela sua habilidade no videogame. Mas depois de pegar numa guitarra pela primeira vez, os jogos eletrônicos seriam parte do passado. Eu e Pedro começávamos a descobrir o som do Iron Maiden e do Black Sabbath – pelo caminho mais improvável: o tio fã de MPB tinha, em meio a Chico Buarque e Novos Baianos, um ao vivo e um tributo aos ingleses do heavy metal (expressão que, até este texto, eu escrevia apenas com iniciais maiúsculas).

O futuro guitar hero de Porto Seguro queria tocar aquela stratocaster de marca desconhecida, mas não tinha em mente o som que queria fazer. Foi aí que eu e Pedro entramos na história. Eu havia rompido com o piano depois de oito anos me arrastando para aulas que ninguém me obrigava a fazer, mas que eu insistia em continuar. Até hoje não sei por que. Depois de arranhar um Raimundos no violão, eu queria a guitarra. E logo ela viria.

O baterista estava engatilhado, mesmo tendo pura e simplesmente uma convicção de que tocaria bateria muito facilmente porque conseguia fazer um ritmo “muito massa” batucando na geladeira. Ele até mostraria uma gravação, nada convincente, para comprovar.

Depois que ganhei a guitarra e comprei um amplificador – que carreguei em alguns ônibus entre Eunápolis e Porto Seguro – com o dinheiro da poupança, Xandão se fez baterista quando o pai comprou o instrumento do professor de bateria. Claro que, depois que tinha o principal, Xandão dispensaria as aulas.

Bernardo ia passar férias e feriados na casa da avó, em Vitória da Conquista, justamente quanto tínhamos mais tempo para ensaiar – ou ainda menos o que fazer. Mas estas viagens foram fudamentais para o sucesso da banda: tendo ainda mais tempo ocioso na árida cidade do sudoeste baiano, ele se dedicava integralmente ao estudo dos solos e riffs dos nossos dois únicos CDs de heavy metal – aqueles do meu tio. Graças a isso, a maior parte do nosso repertório viria de Real Live One, do Iron Maiden, e Nativity in Black: A Tribute to Black Sabbath.

Mesmo sem baixista e vocalista, nos considerávamos uma banda. E tivemos certeza de que não éramos ignorados pelo mundo quando tivemos nosso primeiro rito de passagem.

O estrelato
Um dia o pai de Xandão, nervoso com a simples possibilidade dos vizinhos reclamarem do barulho, desligou a chave de eletricidade do nosso “estúdio”: o quarto de um apartamento sobre a casa, onde tentávamos isolar o som cercados por uma parede de colchões.

No dia seguinte, nos mudamos – com amplificadores, pratos, cordas enferrujadas e equipamentos emprestados – para a casa de Bernardo. Quando tocava o telefone ou alguém nos chamava no portão, a outra avó do nosso guitar hero batia com o cabo da vassoura sob nosso chão. Só assim para ouvirmos alguma coisa em meio àquela maçaroca sonora de guitarras distorcidas e bateria.

A maçaroca, porém, começava a ficar redonda e a gerar comentários. Logo a banda de grunge local, que até então não nos levava muito a sério, começou a dar umas passadinhas nos ensaios. O mesmo aconteceu com um monte de gente que eu não conhecia, mas que entrava no quartinho quente e apertado pelo simples fato de conhecer alguém que conhecia Bernardo. Algumas vezes, porém, ninguém da banda sabia de onde vinha o visitante.

Depois de inúmeras audições de vocalistas – nenhum sabia nada de heavy metal, claro – resolvemos reconsiderar o teste de um deles. João Paulo era colega de classe de Bernardo e tinha gosto musical ignorado. Mas um dia achamos que ele conseguiu cantar todas as músicas muito bem. E ele foi admitido.

Os baixistas se revezariam – Patrick, baterista da banda grunge local, ficou impressionado quando conseguiu tirar uns trocados na primeira participação que fez conosco, tocando baixo, numa pizzaria em Arraial D’Ajuda. De todas as vezes que havia tocado com sua banda, não tinha ganho um tostão.

Em se tratando de Porto Seguro, é lógico que, na maioria das vezes, praticamente pagamos para tocar. Nossa recompensa vinha em forma de coros quando tocávamos Fear of the dark, em rodas de “bate-cabeça” quando Xandão batia rápido na caixa em Be quick or be dead, e em apertos de mão no final do show, quando um desconhecido praticamente agradecia por tocarmos heavy metal em pleno sul da Bahia. Havia algumas groupies também, mas a maioria ficava com o vocalista.

O auge
Contávamos com uma equipe de apoio sem precedentes. Tínhamos uma Ford Explorer ou uma Chevrolet S-10 para levar o equipamento – dependendo de qual dos dois irmãos de Xandão dirigisse. E sempre havia um braço amigo para ajudar a carregar amplificadores e guitarras.

Um dia fomos tocar no espaço alternativo de uma das baladas da cidade. Na preparação do local – que estava sujo e fedia a xixi –, à tarde, resolvemos abrir uma porta lateral para arejar o ambiente. Qual não foi nossa surpresa quando dois rottweilers gigantes saíram por ali e começaram a latir para nós. Pânico. O irmão de Xandão, de cima duma caixa, tentava domar os bichos:

“Satã! Entra Satã!”
“Como você sabe o nome dele?”
“Sei lá, um bichão desse deve ter um nome assim…”

Consegui sair de fininho para avisar um funcionário da casa sobre os cachorros. Quando soube que estavam soltos, o homem arregalou os olhos, se pôs a correr e a avisar os colegas, que fizeram o mesmo. Quando a notícia chegou a um dos donos, ele pôs os monstros, do tamanho de bezerros, para dentro – com apenas um grito.

À noite, show memorável. A enorme quantidade de pessoas que pusemos para dentro de graça teria sido uma ótima desculpa para nosso contratante não nos pagar – isso se tivéssemos conseguido falar com ele depois. Pelo menos metade dos que viram nosso espetáculo não pagou para entrar.

O absurdo chegou ao ponto de, quando dissemos que um amigo pagodeiro era o baixista da banda, o segurança disse: “Porra, mas quantos baixistas tem essa banda? Já entraram uns três!” Nem Ray Charles & The Count Basie Orchestra teria tantos músicos.

O legado
Ao contrário das outras grandes bandas de rock, a nossa não terminou tragicamente, nem por causa de brigas. Nós simplesmente crescemos. O Teratos (lê-se Tératos) – nome surgido numa aula de geografia – foi uma revolução pessoal de garotos que não suportavam o esterótipo de uma cidade. Que queriam uma opção de lazer não relacionada ao entretenimento para turistas.

Ninguém era cabeludo nem tatuado, ninguém falava inglês (a não ser Bernardo, que naquele ano pulou todos os níveis do curso e começou a bolar letras medievais), mas todos queriam se afirmar de alguma forma. Me toquei que, se algo que gostava tanto ainda não me preenchia, eu tinha mesmo era de sair dali. Vim fazer minha faculdade e aqui me encontrei.

Quando voltei, de férias, Pedro tinha sua própria banda de heavy metal. Ele era cabeludo e só usava roupa preta. Um monte de adolescentes que eu não conhecia ouvira falar do Tératos e do gênio endiabrado da guitarra, Bernardo – que estava pegando todas as menininhas. Havia a chamada “galera do rock”. Claro, não era feita de fãs do Teratos, mas eu sentia uma pontinha de orgulho por tudo aquilo.

Bernardo chegou a dizer que tinha parado de tocar guitarra: hoje se dedica a programação de computadores e mora em Recife, com a namorada. Porém, um vídeo enviado pelo próprio para Kinho, nosso último baixista, meio que em segredo, mostra o guitar hero baiano fritando as cordas ainda mais rápido do que antes.

Xandão continua em Porto Seguro, ainda buscando seu caminho. Eu estou aqui, fazendo o que eu acho que sei fazer melhor do que tocar minha guitarra – que acabei vendendo por uma ninharia e nunca mais voltei a cogitar. Meu instrumento agora é o teclado. Do computador. E sou mais feliz do que um rock star.


Crianças

6 abril 2008


A praça estava lotada. Foliões cantavam as marchinhas, acompanhando a banda que tocava no palco. Adolescentes, jovens, coroas, idosos, muitos deles fantasiados. E as crianças, lógico. Uma menina de uns 5 anos, vestida de Branca de Neve, chamou nossa amiga: “Moça, vem cá.”

Ela se aproximou da menina, para ouvir o que esta tinha a dizer. A Branquinha de Neve deu-lhe um beijo no rosto e disse: “Passa o beijo”. Logo o beijo voltaria à menina. A mãe olhava, sorridente. Os pais ficaram tranqüilos. Estava em nossas caras o impacto do encanto que aquela menina transmitia.

* * *

O menino estava inquieto, a mãe não conseguia parar a choradeira. Negro, cabelos encaracolados, bem nutrido, bochechas salientes, no máximo 2 anos de idade.

Nosso parceiro vestia um jaleco branco, tinha a ponta do nariz pintada de vermelho, usava uma cartola vermelha e preta e asas nas costas, como as de um inseto. Era o Dr. Joaninha. Para completar, trazia consigo um pote plástico com uma tampa unida a uma haste com um arco na ponta, que, quando saía de dentro do recipiente, trazia uma fina membrana de espuma. Ele começou a fazer bolinhas de sabão em pleno metrô.

Até os adultos acharam graça. Era uma cena inusitada. O menino se calou, olhos atentos, tentando pegar as bolhas de sabão de diversos tamanhos. De repente elas se rompiam, ele se assustava. Mas logo vinham outras e começava tudo de novo.

Outra princesinha estava bem mais à vontade. Tinha 5, 6 aninhos. Gargalhava com as graças do Dr. Joaninha, que se apoiava numa trave e girava o corpo enquanto lançava bolas de sabão no ar.

O doutor desceu na estação e deixou duas crianças com brilho nos olhos. Deram tchauzinho, junto com seus pais, àquele distribuidor de felicidade. Não faziam idéia de que os mais encantados, bobos, felizes, naquele momento, não eram eles.

* * *

Foto: una cierta mirada


Memórias culinárias: o feijão que não comi

17 março 2008

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Meses depois daquele dia, em meio a um plantão, me lembro do feijão que não comi no Rio de Janeiro. Vez ou outra me pego lembrando de um prato específico, que caiu muito bem dentro de um contexto. Desta vez, contudo, me vi, numa tarde de domingo, desejando um prato que não havia comido.

Já passava das cinco da tarde e tudo que havíamos comido era um café da manhã razoável e muito biscoito Globo. Quando finalmente o bloco acabou, fomos em direção a outro, e um restaurante/lanchonete de chão sujo apareceu em nosso caminho.

Pedi um pão com queijo e carne. Meu parceiro de crime não pediu nada: ele tem a crença de que comer em momentos de folia atrapalha o rendimento, dando sono e uma tentação ao fracasso de estar dormindo num dia em que todos festejam.

Por acaso, estava conosco um adepto da paz e da ordem, afeito a regras e convenções, que, apesar disso, era confiável. Logo teríamos mais uma prova de que ele seria útil para nós. Àquela altura do dia, o cidadão-de-bem estava aflito por não ter almoçado. Não hesitou em pedir um PF completo, com direito a feijão.

Imagino que ele tenha sido uma criança da classe média-alta paulistana, cheia de vontades, dentre as quais comer apenas aquilo que lhe parecia gostoso. Graças a esse desvio de caráter, causado diretamente por seus pais, nosso acompanhante deixou o feijão de lado. Talvez tenha comido umas duas colheradas, mas o importante nesta história é que havia uma cumbuca enorme de feijão ao alcance do meu parceiro fora-da-lei.

Como é do feitio do ser humano, meu amigo abriu mão de suas convicções, em detrimento do instinto, e avançou sobre o feijão. Não se preocupou com prato nem com modos. Pegou a colher de servir e começou a comer aquele caldo espesso, puro mesmo.

Feijão de PF e de self service é quase sempre ruim. Preocupados em agradar o gosto médio, os cozinheiros nunca põem carnes nem temperos, praticando uma heresia sem precedentes. Hoje, à distância, imagino aquele feijão bom. Mas devia ser mais um na média. Meu amigo, também apreciador da boa comida, tratou de corrigir aquele erro: pegou a pimenta caseira, com frutos inteiros embebidos em óleo, que eu usava para temperar meu sanduba em doses homeopáticas, e despejou na cumbuca de feijão.

A quantidade de pimenta que ele usou faria qualquer outro paulista chegar às lágrimas e às hemorróidas. Como escolho bem meus parceiros de desordem, aquele tinha um pé na Bahia – come mais pimenta do que muito baiano. A cara de satisfação que ele fazia ao comer aquele caldo quente e apimentado foi o que me fez desejar o feijão hoje, meses depois.

Claro, aliado ao fato de fazer um bom tempo que não como um feijão caseiro, saboroso, honesto. Porque, depois daquele carnaval, até comemos uma bela feijoada (a R$ 30 por cabeça!), mas nada que se compare a um bom feijão caseiro.


Minha avó e as celebridades

4 janeiro 2008

Minha avó era uma visionária. Uma mulher que tinha opiniões muito avançadas para alguém da idade dela e que teve uma educação formal primária. Até hoje, na família, citamos suas frases. Pura sabedoria que só o tempo e o esforço individual proporciona.

Antes mesmo da divulgação mais que exagerada de “notícias” de celebridades, ela já era crítica desse tipo de jornalismo. É dela a frase: “Até quando esse povo (celebridades) caga mole é notícia”. Quando digo que a senhora era visionária, não estou exagerando. Olha o que foi publicado hoje:

Namorado de Ivete Sangalo tem desarranjo intestinal após comer moqueca em Salvador

Menção honrosa ao trecho: “O mal estar, provavelmente, foi gerado pela curiosidade de Andrija pela a (sic) cultura e os costumes de sua namorada”. Conclusão categórica.


Com Allejo, já seríamos hexa

9 novembro 2007

 

Quem não se lembra daquela clássica seleção brasileira de 1996?, com Da Silva, Ferreira, Vicento e Paco; Cicero, Roca, Santos e Pardila; Beranco, Gomez e Allejo? Você, não? Então minha infância/adolescência foi bem mais divertida do que a sua. O sensacional jogo International Superstar Soccer Deluxe, do Super Nes, me deu boas tardes de diversão. Confesso que joguei mais o piratão Ronaldinho Soccer 97, uma versão paraguaia do Campeonato Brasileiro 96 (ou seria Superstar Soccer 96 e o Brasileiro seria outra falsificação?), mas ainda lembro.

A narração num portunhol com sotaque japonês, com frases indecifráveis, ainda é lembrada por marmanjos saudosos (como eu). E esses nomes inventados, por que os fabricantes não tinham licença para usar os de verdade, tornam o jogo ainda mais clássico. Allejo (Ronaldo Fenômeno) era o craque, como você pode ver no vídeo acima. Beranco era o Roberto Carlos, mas o nome era inspirado no Branco. O resto… indecifrável. Chore de nostalgia com as telas abaixo

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Ser ou não ser VIP: Um baiano no VMB 2007

29 setembro 2007
Foto: Caetano Barreira/Capricho

Ótimo, Juliette, e pra você?

Parte 1: VIPs

Eu devia estar em frente a uma planilha de Excel, ou de alguma outra ferramenta complexa para um jornalista, quando um burburinho tomou conta da redação. Só queria terminar o que estava fazendo para ir para casa, tomar um banho e assistir a qualquer coisa na televisão que não fosse a MTV. Mas, como bem disse o biógrafo de Joseph Climber, a vida é uma caixinha de surpresas.

E numa amena noite sem estrelas, cerca de duas horas depois, eu estava em frente ao Credicard Hall, com um ingresso para o camarote do VMB 2007. Logo que cheguei, vi uma fila e saí de perto, à procura da entrada dos VIPs. Afinal, eu era uma “pessoa muito importante”, e estes não pegam filas. Aqueles caras com cabelinhos atolados de gel e roupas caras e aquelas loiras com vestidos brilhantes iam para a pista, ficar de pé, suspendendo a testa e se espremendo para ver um pouco de pele dos famosos. Eu não.

Foi aí que tive meu primeiro choque: havia fila – bem menor, claro, mas havia – para o camarote. Logo me recuperei, afinal, eu havia conseguido a entrada de graça, sem nenhum esforço e… Hmmm… Algo me dizia que todos ali haviam conseguido entrar da mesma forma. Então eu era só mais um na multidão?

A fila andava e eu precisava seguir em frente. Entrei e fui à procura do meu sofá exclusivo, o A16, nas últimas fileiras, ciente da minha insignificância. Como não encontrava, fui para a frente e novamente tomado por uma renovação de ânimo: eu ficaria na primeira fila. A 16. Mas, ser VIP traz amigos? Não ter os companheiros por perto é o preço por ser VIP? Eu estava lá, sim, mas estava sozinho.

Pedi uma cerveja (cinco reais a latinha de Skol! “Cadê o proseco grátis!?”, gritei por dentro) e me acomodei. Uma americana baixinha tocava um rock sem pretensões, que me agradava. Demorei a ligar a pessoa ao nome: era Juliette Lewis e sua banda The Licks. Falou algo sobre estarem esperando uma certa soap opera terminar para dar início à festa. E pronunciou com o sotaque previsível: “Paraíso Tropical”.

Foi então que ela apareceu. Não, não a Daniela Cicarelli (que aliás, descobri que não tem bunda). Eu estava perdido em meus pensamentos quando um doce sotaque cantado me interrompeu: “posso sentar aqui?”. Virei-me e dei de cara com os olhos mais verdes que já vi. Ela era morena, de cabelos longos e negros, e usava uma roupa justa o suficiente para mostrar suas formas. O Destino parecia mesmo estar brincando comigo.

Pedimos mais duas cervejas enquanto ela me contava sua história: era de Santa Catarina, estava há três dias em São Paulo, veio para “conhecer” a cidade, sozinha, quando soube do VMB. No dia anterior, havia assistido ao ensaio – e a prova é que ela sabia o que todo mundo ia dizer e narrava com convicção o que havia rolado: a Cicarelli não agüentava mais repetir as mesmas frases, o Lobão brigou, a Íris não conseguia decorar as falas, a Bárbara Paz ia falar um monte de palavrão.

Logo chegou a Priscila, colega de “firma”, outra agraciada pelo ingresso inesperado. Nossa amiga não parava sentada, tirando fotos, cantando Sandyjúnior e a tal da “Razões e Emoções”, perguntando se conhecíamos famosos – chegou a pronunciar um “eu sabia” quando mentimos que o Sandyjúnior havia dito para nós que era gay. Ela tinha ido para a frente do Credicard Hall sem ingresso, disposta a qualquer coisa para ver os ídolos, até que comprou uma entrada de alguém, foi para a parte mais distante da platéia e desceu, sem que ninguém a incomodasse, para o camarote. Uma guerreira.

A premiação rolava, com toda sua previsibilidade, e eu estava convencido da derrota naquele round. Não havia como disputar atenção com Sandyjúnior e bandas emo. Não se você quisesse algo com aquela menina. Na festa que seguiria a premiação, nos entenderíamos. Acontece que, apesar de guerreira, ela não era VIP. Outro fosso que nos separava além do gosto musical. “Ai, gente, será que vocês não conseguem me por na festa?”. Podemos tentar, querida, podemos tentar.

Mas, na fronteira entre VIP e Wanna Be, a lei é dura. Os seguranças sequer olharam para o (belo) rosto da nossa amiga. E tivemos de nos despedir. Sei que a cara de choro não era por mim. Sei que o primeiro famoso que lhe desse atenção a tiraria de mim. E por isso não lamentei ainda mais nossa separação. O primeiro round se encerrava.

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