Jurandir, o homem que anda na diagonal

10 setembro 2009

Jurandir olha fixamente para o semáforo enquanto espera na calçada. À primeira vista, seu corpo parece alinhado à faixa de pedestres – não está. Quando abre o sinal, ele até pisa na faixa, mas não dá mais que dois passos sobre ela. Segue em linha reta, porém, a cada passada, se afasta mais das listras brancas pintadas no asfalto.

Jurandir não tem paciência para caminhar na faixa para só depois virar à direita ou à esquerda, como faz a maioria das pessoas. Jurandir anda na diagonal.

Uma análise apressada poderia defini-lo simplesmente como alguém ansioso. O conceito, no entanto, é muito restrito para definir uma pessoa para quem a Terra gira devagar demais, os ponteiros do relógio avançam a movimentos de lesma e a lâmpada fluorescente demora muito a acender. Jurandir sabe aonde quer chegar, e acha que deve cortar caminho.

Ele acha que perde tempo demais o tempo todo. Não quer se esforçar por nada que não tenha um fim muito específico, uma consequência imediata e sabida. É um homem para quem as coisas não acontecem no seu devido tempo, e julga que etapas só existem para serem puladas.

Jurandir sofre com as longas fases da vida, tanto que chega a acreditar que temos de compensar todo o tempo em que fomos macacos.

Jurandir dá descarga antes de lançar o último jato de urina no mictório; já está com um pedaço de papel higiênico, cuidadosamente dobrado na mão direita, minutos antes de se levantar do vaso; enxuga a boca enquanto ainda faz o último bochecho da escovação dos dentes. Tranca a porta do apartamento enquanto segura a do elevador. No almoço, toma o último gole de suco de pé. E sua sobremesa é sempre um bombom, um brigadeiro: algo que se possa comer enquanto anda.

Jurandir não para em nenhum emprego, pois acha que não cresceu o suficiente naqueles meses – e que precisa ser desafiado. Não suporta passar um dia sem ser cobrado – e, quando o fazem, acha que estão falando demais por algo que ele nem precisa se esforçar para executar. Jurandir acredita que merece uma responsabilidade maior, mas quando lhe dão, diz que não era “esse tipo” de responsabilidade que precisava – sem, no entanto, saber dizer qual seria.

Jurandir acha que é muito bom no que faz e que, por isso, só devem atribuir-lhe atividades dignas de sua competência – e do seu ânimo. Ele disputa um jogo de tabuleiro com a vida, mas em vez de se adequar a todas as regras, só busca as casas que permitem pular várias outras. De tanto ímpeto para chegar a estas, cai em outras – aquelas que mandam  voltar para o começo do jogo.

Jurandir aprende que quem dá as regras não é ele. Mas vai continuar andando na diagonal. Até que consiga chegar pelo seu próprio caminho, até que resolva seguir as regras do jogo, ou, por fim, até que não haja mais tempo para começar de novo.

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Samba enredo tem fórmula, faça o seu

2 fevereiro 2008

Quando você estiver lendo isto, espero estar no Rio de Janeiro. Vou conhecer a cidade maravilhosa justamente em sua época mais mágica. Mas não vou ver escolas de samba. Acho aqueles carros alegóricos e os sambas enredo de uma falta de criatividade incrível. Vou para os blocos de rua, que voltaram com tudo depois de anos esquecidos. Veremos.

Enquanto tomava um restinho de Heineken e falava no MSN, “compus” um samba-enredo. Sim, porque não há muita dificuldade em fazer um. Basta seguir a fórmula. O tema: algo que faça aniversário naquele ano (escolhi o centenário da imigração japonesa no Brasil, que deve ser tema de umas 10 “escolas” neste ano), um personagem histórico (D. Pedro, Silvio Santos, tanto faz) ou um lugar do Brasil (até uma cidade do interior de São Paulo vale).

Então, você usa frases ufanistas. Nunca deixe de exaltar a natureza, a fauna, a flora, nem que seja com um simples “paraíso tropical”. Dê umas pinceladas de História (lembre-se que o que importa é a rima, a consistência dos fatos é o de menos). No meio , use a parte ruim do acontecido, como as dificuldades do Silvio Santos quando chegou a São Paulo ou como sofreram os escravos africanos. Termine exaltando a superação dos personagens. E pronto.

Aqui vai (o último verso foi sacanagem):

Japão, terra de glórias

Alô minha Unidos do Pandeiro Furado…

Japão, terra de glórias
Seu povo é guerreiro e vencedor
Veio para o Brasil, um país tropical
E se tornou orgullho nacional

Vieram no Kasatau Maru
Trazendo as influencias da sua cultura
(que lindo, que lindo)
Trouxeram mais que sushi
É muita beleza, que é vista por aí

Mas, dificuldades, todos passaram
Trabalhando nas plantações de café
Foram muito explorados
Mas se superaram, com orgulho e muita fé

Na Liberdade, se estabeleceram
Fizeram dali um pequeno Japão
E hoje, lá de tudo tem
De artesanato, a picolé de melão

(repete 376 vezes)


João Moreira Salles: o mecenas e o artista

31 janeiro 2008

João Moreira Salles

João Moreira Salles tem um nome que inspira respeito. Membro de uma família bilionária, foi chamado de banqueiro (pejorativamente) por um governador; muitos o chamam de “filhinho de papai” porque nasceu rico. Tem dinheiro suficiente para fazer o que quiser (até mesmo não fazer nada).

João Moreira Salles tem uma aparência que inspira cuidado. Tem os olhos miúdos e juntos; usa óculos redondos de armação fina. O corpo é magro, quase franzino. Penteia os cabelos lisos para o lado, sem muita preocupação com a aparência. A camisa listrada é amassada. A calça jeans parece velha. Carrega uma mochila de estudante. A voz é mansa. Criou a revista Piauí, a mais simpática entre todas, e fez documentários muito elogiados.

Este segundo João se sobressai ao primeiro. Ele parece ter uma consciência de que o que faz não é nada extraordinário. São apenas coisas que gosta e que ninguém precisava fazer. Ele foi lá e fez, simplesmente. Quando fala, então, que fez o documentário Santiago num momento de crise pessoal, como uma terapia, quase dá pena. Ele se atém mais à forma do que ao tema. Nada mais pessoal.

O João que todos conhecem dá inveja: nasceu rico, vai morrer rico. Em vez de buscar aumentar o patrimônio, faz o que gosta. Ele podia simplesmente surfar, ler a New Yorker o dia inteiro, o que fosse. Mas faz filmes e uma revista legal.

Mas, ao ouvir João falar, é possível notá-lo triste. Pode ser uma falsa impressão, mas ele parece alguém angustiado em busca de algo que o torne melhor para si mesmo. Talvez uma busca que todos façam.

Hoje eu ouvi este homem, que parece fazer parte de um mundo que não é dele: é “trilhardário”, mas poderia viver dos filmes, que dizem ser ótimos (não vi nenhum). Claro, fosse um sujeito de classe média, não poderia bancar sozinho uma das minhas duas revistas favoritas.

Sim, vamos ao que interessa: perguntei como vai a Piauí como negócio, o que ele podia falar como “empresário de revista”. “Olha, já me chamaram de muita coisa, mas de empresário é a primeira vez.” Risos na platéia, finalmente. João diz que não é empresário, mas é. Diz que não é jornalista, mas é. Diz que é economista – não é.

Piauí ainda não está no azul, digamos assim (ele diz assim). Mas pelo que apurou com publishers, isso demora seis, sete anos. Quando a revista foi lançada, ele dizia que tinha fôlego para dois anos. Estamos quase lá. A grana dos anunciantes ainda não veio, mas ele não dá sinais de que vá fechar a revista. Minha pergunta foi puramente prática: eu quero continuar lendo Piauí e quero saber se posso alimentar esperanças. Nada mais.

Um dado interessante. Chegou às mãos do publisher “piauiense” uma pesquisa sobre os assinantes da revista. Mercadologicamente, fiquei com pena; pessoalmente, fiquei orgulhoso: o público é totalmente pulverizado. São homens e mulheres, estudantes secundaristas e jovens profissionais, empresários, ricos e membros da classe média. Inclua nesse bolo o governador de São Paulo e o presidente do Itaú.

Isso para os anunciantes é quase um negócio furado: como vou atingir meu cliente potencial nesta salada? Ao mesmo tempo, essa massa tem algo em comum que se interessa por alguma coisa que alguns anunciantes oferecem. A dificuldade é saber quem é essa gente.
Outro dado: os “consultores” do João disseram que a revista venderia cinco mil exemplares por mês. A tiragem é de 40 mil. A expectativa era ter bem menos anunciantes neste momento: o mercado publicitário deu uma acolhida bem melhor.

Resta saber até quando o João Moreira Salles, o bilionário, dono de um sobrenome que inspira credibilidade (outro motivo para chamá-lo de empresário: seu nome já facilita alguma coisa) vai dar corda ao João jornalista, documentarista e despretensioso, e continuar mantendo uma revista que não dá dinheiro.

Por que a Editora Abril, por exemplo, que abre e fecha duas, três revistas por ano, não lançou uma Piauí? Porque ela não se encaixa em nenhum segmento. Como negócio (e a Abril é uma empresa, quer lucro, lembre-se disso), a Piauí é quase uma furada. Não é possível fazer uma projeção de quanto vai faturar nos próximos dois anos, não dá para dizer que é para o público jovem (anunciem refrigerante), para o feminino (anunciem cosméticos), para o masculino (anunciem camisinhas), para os ricos (anunciem condomínios de luxo).

Só mesmo João Moreira Salles poderia criar a Piauí. Só ele para empreender algo que é muito menos negócio (e está aí porque ele não se diz empresário) do que cultura, leitura, jornalismo, revista-mais-legal etc. Que este homem duplo continue sendo um só.


Jantinha

23 novembro 2007

jantinha-prova-apostrofo.jpg

Como diria Bertoldo Brecha, personagem da Escolinha do Professor Raimundo, “a incurtura é que incenteveia a proleferação da corruptância”.


… tem ‘gente’ que bebe e tá morrendo

23 outubro 2007

“Bebo, memo…”

Elefantes se embriagam, derrubam poste e morrem eletrocutados

Pelo menos seis elefantes asiáticos, entre eles três filhotes, morreram eletrocutados depois de se embriagarem com cerveja e baterem em cabos de alta tensão no nordeste da Índia, informou hoje uma fonte oficial.

O incidente aconteceu neste domingo, no povoado de Chandan Nukat. Uma manada de cerca de 40 elefantes bebeu por engano a cerveja de arroz preparada pelas tribos da região de Meghalaya. Em seguida, eles começaram a correr pelos arrozais.

+ Leia a notícia completa na Folha Online

Olha, já vi muita gente “dar PT”, mas esses aí me fizeram rever o conceito de perda total.


Se é para o bem de todos e a felicidade…

25 julho 2007

Participe da campanha! E a contagem continua…


Pelo fim dos carros

13 julho 2007

Uma alternativa interessante ao atual sistema de transporte-motorizado-particular foi mostrada no Fantástico do domingo passado (quem diria). Resumindo, a idéia é de que os carros fossem menores e compartilhados por mais de uma pessoa. Você ia dirigir até seu destino e deixaria o carro lá para outra pessoa.

Acredito que esse seja um passo interessante rumo à extinção dos carros. Sim, uma transição para o que eu acho ideal, como propôs a Super do mês passado (ainda não consegui a desse mês) na matéria Sete soluções (utópicas) para São Paulo.

1. PROIBIR CARROS
A idéia: Proporcionalmente ao número de passageiros, um único automóvel ocupa 8 vezes mais espaço do que um ônibus. Mesmo assim, mais da metade dos deslocamentos de São Paulo é feita de carro. O sociólogo americano J.H. Crawford lidera um movimento radical: o Carfree, que defende a extinção dos carros em troca de qualidade de vida. Uma das saídas é investir no transporte público integrado, com ônibus, metrôs, trens e ciclovias. É o que faz com que os 35 milhões de moradores de Tóquio dependam menos de carros e não demorem longas horas para voltar do trabalho para casa. “Sozinho, o ônibus não funciona em uma cidade de 100 quilômetros de extensão lateral”, diz Geraldo Serra, professor de urbanismo da USP. Para tirar os carros das ruas, portanto, é preciso investir em trens e metrôs. E como essa utopia poderia ser aplicada em São Paulo? O arquiteto Nazareno Affonso, diretor da Associação Nacional dos Transportes Públicos, propõe restringir os carros no Centro de São Paulo, nos arredores do Teatro Municipal. A idéia poderia se estender para ruas secundárias no centro expandido de São Paulo, dando mais espaço para ciclistas e pedestres. Isso poderia ser feito com taxas para quem rodar pelo Centro, os chamados pedágios urbanos. Ou, como ele propõe, trocando os veículos por carros elétricos de dois lugares, com velocidade máxima de 60 km/h e funcionando sobre trilhos. Seria uma versão menor e moderna dos antigos bondes. O motorista seria obrigado a deixar o carro em um bolsão de estacionamento distante e dali alugar um carro menor, que usaria apenas uma faixa da rua. As outras duas caberiam aos ônibus e às bicicletas.

Onde já deu certo: Proibir carros funciona bem em cidades pequenas e médias. Com 280 mil habitantes, Veneza, na Itália, só permite o tráfego de veículos motorizados em poucas ruas. A ilha Lamma, a 3ª maior de Hong Kong, tem uma frota de automóveis pequenos, com capacidade para dois motoristas, e só para situações de emergência. Cidades maiores não conseguem acabar com os carros, mas limitam as áreas onde eles podem circular. Montreal, no Canadá, tem 32 quilômetros de passagens subterrâneas, que ligam 60 prédios comerciais e residenciais. Bogotá, que tem 300 quilômetros de ciclovias, 10 vezes mais do que São Paulo, pretende proibir carros na região central até 2015. Em Seul, o governo cobra pedágio de carros com menos de dois passageiros. O número de veículos caiu 34%.

 

 

2. PLANTAR ÁRVORES NO MINHOCÃO
A idéia: Construído no Centro de São Paulo em 1970, o elevado Presidente Arthur da Costa e Silva, o Minhocão, é um bom exemplo de como grandes obras urbanísticas podem degradar um bairro. Em maio de 2006, um projeto da arquiteta Juliana Corradini venceu um concurso da Secretaria Municipal de Planejamento para eleger a melhor solução para aquele trambolho. Juliana teve a idéia de transformar a pista num túnel e, em cima dele, fazer um parque público suspenso de 3,4 quilômetros de extensão. Ela sugere erguer estruturas metálicas para sustentar a construção de galerias com cafés e bancas nas laterais. Para chegar ao parque, seria preciso subir por escadas ou elevadores. O projeto está orçado em R$ 86 milhões. Com o parque, a cidade ganharia mais um local de encontro, e os moradores, mais tranqüilidade. Seria um passo importante na proposta de revitalizar a região. Para reforçar as mudanças ao redor do Minhocão, os arquitetos Eduardo Novaes e Ciro Araújo prevêem uma diminuição do número de pistas para carros, a ampliação das calçadas e a construção de uma praça arborizada e com um anfiteatro, ali perto, na rua das Palmeiras.

Outra proposta que achei interessante foi transformar o Minhocão em um jardim suspenso. Imediatamente me lembrei de Paris, cujas estações de trem e outras obras abandonadas se tornaram espaços comunitários do tipo (o que eu só soube graças à National Geographic, claro). Vale ler a reportagem na íntegra.