O Rio de Janeiro continua único

2 junho 2008

Foto: m.cavalcanti

O chavão é inevitável no Rio de Janeiro. Pelo menos nas primeiras impressões. Ainda estou nelas, e, por isso, me permito desvencilhar-me da minha aversão ao lugar-comum. Fui de novo para o Rio. Os nervos não estavam em frangalhos, havia viajado (e gastado uma quantia considerável) no feriado anterior, mas o convite era irrecusável.

Depois de ter pegado chuva no carnaval, eu precisava agora curtir a beleza do Rio. Com sol, tudo fica mais bonito. A viagem teria sido sem palavras se acabasse no primeiro dia: não há o que dizer sobre aquela paisagem. A beleza é emudecedora. Não há fusão tão perfeita entre natureza e cidade.

(Ok, a junção se exagerou: os morros viraram favela e o medo de uma bala perdida deve ser constante para alguns. Não parecia às pessoas com quem conversei, mas não tenho isenção para falar de um lugar que, por enquanto, só me fascina.)

As peculiaridades do Rio se tornaram mais evidentes no segundo dia. Já era noite, mas resolvemos dar uma passada na Pedra do Arpoador. Três amigos cantavam e tocavam violão, enquanto turistas apreciavam a vista da orla iluminada e do morro, cheio de luzes da favela. A música era boa: o mais pop tocado foi Los Hermanos. E graças a eles, entramos na roda.

Soubemos depois que o “cantador” ali era profissional. O samba e a MPB bem executados não o deixavam mentir. A página no MySpace deu a confirmação “formal”. Desnecessária para mim e para quem mais estava ali.

Tudo já estaria de bom tamanho, mas ainda viriam mais surpresas.

No último dia o mar estava ainda mais nervoso. As ondas que já eram grandes e a correnteza, que dava certa aflição nos dias anteriores, agora eram não recomendadas. Placas ao longo da praia avisavam do perigo. Me despedi do mar sem o último mergulho; o sol e a vista foram suficientes.

O ônibus partiria à meia-noite, portanto, ainda poderíamos curtir mais um pouco da noite. E não poderia ser em lugar melhor: chama-se Casa Rosa, fica em Santa Tereza. Até 1992 era um bordel de luxo, o que é provado pela arquitetura do lugar. Chegamos por volta das 19h e fomos para a fila da… feijoada! E que feijoada! Por dois ou três reais a mais, comemos uma quantidade generosa e saborosa do prato.

Feijoada tem tudo a ver com samba, e lá fomos nós ouvir um ao vivo. Com caipirinha, que desce melhor do que cerveja depois de um pratão daqueles. Acabado o samba ao vivo, outro ambiente com outro ritmo nos esperava: funk! E teve desde Claudinho e Buchecha até Créu, que no Rio fica muito mais legal. Isso sem contar aqueles funks que você só ouve lá, trazidos pelos DJs que pegam direto da fonte.

Tivemos de deixar o lugar quando algumas “patricinhas” começavam a perder a linha. É incrível como o funk exerce uma influência sobre os quadris e pernas das pessoas. É quase uma reação físico-química que, infelizmente, não pude ver em sua completude. Havia um outro mundo me esperando.

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Crianças

6 abril 2008


A praça estava lotada. Foliões cantavam as marchinhas, acompanhando a banda que tocava no palco. Adolescentes, jovens, coroas, idosos, muitos deles fantasiados. E as crianças, lógico. Uma menina de uns 5 anos, vestida de Branca de Neve, chamou nossa amiga: “Moça, vem cá.”

Ela se aproximou da menina, para ouvir o que esta tinha a dizer. A Branquinha de Neve deu-lhe um beijo no rosto e disse: “Passa o beijo”. Logo o beijo voltaria à menina. A mãe olhava, sorridente. Os pais ficaram tranqüilos. Estava em nossas caras o impacto do encanto que aquela menina transmitia.

* * *

O menino estava inquieto, a mãe não conseguia parar a choradeira. Negro, cabelos encaracolados, bem nutrido, bochechas salientes, no máximo 2 anos de idade.

Nosso parceiro vestia um jaleco branco, tinha a ponta do nariz pintada de vermelho, usava uma cartola vermelha e preta e asas nas costas, como as de um inseto. Era o Dr. Joaninha. Para completar, trazia consigo um pote plástico com uma tampa unida a uma haste com um arco na ponta, que, quando saía de dentro do recipiente, trazia uma fina membrana de espuma. Ele começou a fazer bolinhas de sabão em pleno metrô.

Até os adultos acharam graça. Era uma cena inusitada. O menino se calou, olhos atentos, tentando pegar as bolhas de sabão de diversos tamanhos. De repente elas se rompiam, ele se assustava. Mas logo vinham outras e começava tudo de novo.

Outra princesinha estava bem mais à vontade. Tinha 5, 6 aninhos. Gargalhava com as graças do Dr. Joaninha, que se apoiava numa trave e girava o corpo enquanto lançava bolas de sabão no ar.

O doutor desceu na estação e deixou duas crianças com brilho nos olhos. Deram tchauzinho, junto com seus pais, àquele distribuidor de felicidade. Não faziam idéia de que os mais encantados, bobos, felizes, naquele momento, não eram eles.

* * *

Foto: una cierta mirada


Memórias culinárias: o feijão que não comi

17 março 2008

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Meses depois daquele dia, em meio a um plantão, me lembro do feijão que não comi no Rio de Janeiro. Vez ou outra me pego lembrando de um prato específico, que caiu muito bem dentro de um contexto. Desta vez, contudo, me vi, numa tarde de domingo, desejando um prato que não havia comido.

Já passava das cinco da tarde e tudo que havíamos comido era um café da manhã razoável e muito biscoito Globo. Quando finalmente o bloco acabou, fomos em direção a outro, e um restaurante/lanchonete de chão sujo apareceu em nosso caminho.

Pedi um pão com queijo e carne. Meu parceiro de crime não pediu nada: ele tem a crença de que comer em momentos de folia atrapalha o rendimento, dando sono e uma tentação ao fracasso de estar dormindo num dia em que todos festejam.

Por acaso, estava conosco um adepto da paz e da ordem, afeito a regras e convenções, que, apesar disso, era confiável. Logo teríamos mais uma prova de que ele seria útil para nós. Àquela altura do dia, o cidadão-de-bem estava aflito por não ter almoçado. Não hesitou em pedir um PF completo, com direito a feijão.

Imagino que ele tenha sido uma criança da classe média-alta paulistana, cheia de vontades, dentre as quais comer apenas aquilo que lhe parecia gostoso. Graças a esse desvio de caráter, causado diretamente por seus pais, nosso acompanhante deixou o feijão de lado. Talvez tenha comido umas duas colheradas, mas o importante nesta história é que havia uma cumbuca enorme de feijão ao alcance do meu parceiro fora-da-lei.

Como é do feitio do ser humano, meu amigo abriu mão de suas convicções, em detrimento do instinto, e avançou sobre o feijão. Não se preocupou com prato nem com modos. Pegou a colher de servir e começou a comer aquele caldo espesso, puro mesmo.

Feijão de PF e de self service é quase sempre ruim. Preocupados em agradar o gosto médio, os cozinheiros nunca põem carnes nem temperos, praticando uma heresia sem precedentes. Hoje, à distância, imagino aquele feijão bom. Mas devia ser mais um na média. Meu amigo, também apreciador da boa comida, tratou de corrigir aquele erro: pegou a pimenta caseira, com frutos inteiros embebidos em óleo, que eu usava para temperar meu sanduba em doses homeopáticas, e despejou na cumbuca de feijão.

A quantidade de pimenta que ele usou faria qualquer outro paulista chegar às lágrimas e às hemorróidas. Como escolho bem meus parceiros de desordem, aquele tinha um pé na Bahia – come mais pimenta do que muito baiano. A cara de satisfação que ele fazia ao comer aquele caldo quente e apimentado foi o que me fez desejar o feijão hoje, meses depois.

Claro, aliado ao fato de fazer um bom tempo que não como um feijão caseiro, saboroso, honesto. Porque, depois daquele carnaval, até comemos uma bela feijoada (a R$ 30 por cabeça!), mas nada que se compare a um bom feijão caseiro.


O Rio é a Las Vegas brasileira

5 março 2008

NOTA DO EDITOR
Julião anda pensando muito sobre seus escritos. Logo depois de voltar do Rio de Janeiro, do carnaval que, em suas palavras, foi “o melhor da minha vida; na verdade, foi meu primeiro carnaval de verdade”, ele me mandou rascunhos do que, no futuro, seria o relatório de sua viagem. Mas aí ele entrou naquela “crise”, “revelação”, seja lá o que for este momento que ele vive, e nunca publicou – nem sei se chegou a concluir – o tal texto.

Como ele não me proibiu de publicá-las, seguem, abaixo, as notas do nosso repórter – que ele não me mate pela ousadia.

* * *

Funk proibidão cantado pela nossa anfitriã, poucas horas antes de sairmos para o Bloco de Segunda:

Vou bater pa tu, pa tu bater pa tua patota
Chegou o
podruto que deixa com a boca torta

Chego em Botafogo e dou de cara com um cidadão entortando a boca, numa expressão nunca dantes vista por estes olhos. No decorrer do percurso, ainda vejo mais dois com a cara parecida.

Duas meninas passam por nós. Uma delas fala algo mais ou menos assim: “laragadaduguglaplicbloblem”. Totalmente incompreensível. A outra ainda concorda: éééé.

***

Os blocos do Rio são a expressão do verdadeiro carnaval. Pobres, mendigos, classe média, crianças, velhos, velhas, coroas, jovens: todo mundo fantasiado, ninguém é o que é e torna-se apenas mais um folião.

***

Taxista:
“Peguei uma rua pra fugir do bloco, quando fui ver, tava no olho do bloco, mermão. Falei: fudeu! O carro num andava, aquele mundo de gente. Aí achei um policial bêabado – tava até sem arma; deve ter pensando: vou beber hoje, então vou deixar a arma no quartel pra não dar méarda. Falei: Amigo, dá uma sirene aí pra eu poder passar. O guarda falou: Mermão, problema teu. Tenho nada a ver com íasso. Falei: Pô, e se eu te der 20 reaishh, tu libera? – Demorôa! O cara deu uma sirene, abriu caminho, passei rapidinho.” O detalhe é que táxi no Rio, de um lado a outro da cidade, pela minha noção de distância, dava 20 reais. Em São Paulo o mesmo percurso daria uns 50, no mínimo.

***

Las Vegas Brasileira. Um monte de gente chapada na rua. Eu olhando tudo, consciente, mas não menos louco. Rindo sozinho. Totalmente Thompson. Uma Estátua da Liberdade gigante num shopping da Barra da Tijuca. Coisas grandes, imensas, sem relação alguma com o Brasil. Uma mistura totalmente heterogênea.

Lapa: prédios históricos. Bela arquitetura. Mas, na frente de um deles, duas esfinges. Nos Arcos da Lapa toca Michael Jackson, fase Billie Jean (is not my love, she’s just a girl, claimmed that I am the one, but the kid is not my son). Saio de lá e passo pela Sapucaí. Homens bombados vestidos de Dragão. Mulheres com fantasias incompletas, saltos enormes. Todas as calçadas cobertas de urina. Cheiro horroroso. Eu, de chinelo, tento saltar das “poças”.

* * *

Mas que fique claro: a cidade é linda.