Bariloche acima de zero

19 março 2009

Sem neve, a cidade da Patagônia argentina revela novas  paisagens e ambientes ideais para esportes de aventura

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Uma das vistas do Llao Llao Hotel & Resort - elas estão por todos os lados

Uma das vistas do Llao Llao Hotel & Resort - elas estão por todos os lados

Quando a neve começa a derreter, no início de outubro, Bariloche se torna uma outra cidade. O verde domina a paisagem, a temperatura fica em torno de 24°C e a natureza exuberante pode ser apreciada de uma forma totalmente diferente. Ainda que esquiar seja a atração mais famosa da cidade da Patagônia argentina, o período sem neve – que vai até abril – oferece não só preços mais acessíveis, como outras atividades tão divertidas quanto deslizar sobre esquis.

Rafting é uma das opções. O lago Steffen, a uma hora do centro da cidade, é o ponto de partida para o percurso pelo rio Manso. Roupa de neoprene, colete salva-vidas e capacete ajustados ao corpo, é hora de encarar as corredeiras. O trajeto é relativamente tranquilo, não passando do nível 2 de dificuldade (numa escala que vai até 6). A calmaria na maior parte do trajeto é ideal para apreciar, entre uma remada e outra, a paisagem de montanhas e florestas.

No fim do passeio de cerca de duas horas, os mais valentes podem encarar um mergulho no rio. É preciso coragem: mesmo não sendo inverno, a temperatura da água é tão baixa que é difícil ficar mais do que cinco segundos com a cabeça submersa. E para fechar o passeio em grande estilo, os aventureiros são recebidos com um belo asado, churrasco típico do país. A carne é preparada ali mesmo, em meio às árvores e de frente para o rio. O almoço tem o canto dos pica-paus como trilha sonora.

Mas quem busca mais emoção também é bem-vindo no rio Manso. É possível fazer um percurso de três dias de rafting. Para comer e descansar, cabanas de madeira estão instaladas ao longo do rio. No último dia de aventura há corredeiras de nível 3.

Quem for a Bariloche na primavera, verão ou outono pode guardar as montanhas na memória não só pela vista. O rapel é outra prática ideal para essas épocas. É então que entra em cena o guia Nahuel. Coincidentemente – ou por alguma força do destino – seu nome é inspirado no da reserva nacional em que Bariloche está situada, que também é doprincipal lago da cidade: Nahuel Huapi.

Nahuel Goggio, porém, é filho de argentinos de Buenos Aires e nasceu na Espanha. “Sempre gostei muito de natureza e esportes. Isso faz de Bariloche a cidade ideal para eu viver”, conta. Depois de subir um morro por um trajeto não muito íngreme, dentro do Parque Municipal Llao Llao, chegamos ao ponto do início do rapel.

O grande obstáculo é o medo. Os momentos anteriores à descida são os mais tensos para os inexperientes. Mas o percurso é tranqüilo, com bastante apoio para os pés. Quem tiver coragem de tirar os olhos do paredão e virar para trás pode contemplar a vista do lago Moreno e dos cerros. O instrutor está sempre ao lado.

Ainda outra opção para conhecer Bariloche no verão é pedalar. Estradas de chão cercadas de verde são o caminho para um passeio agradável de bicicleta. Um trecho do percurso é impossível de se fazer no inverno – quando os lagos Moreno e o Morenito se juntam, cobrindo o estreito pedaço de terra que os separa.

CIRCUITO TRANQUILO
Também não dá para visitar Bariloche sem fazer o Circuito Chico. O show de vistas espetaculares começa pelo Cerro Campanário. Já na subida, de teleférico, presencia-se um verde que no inverno é apenas branco de neve. Lá em cima, uma das melhores vistas dos lagos da cidade – é possível ver o lago Nahuel Huapi, o Moreno e a Lagoa del Trebol.

“Bariloche é uma cidade diferente a cada vez que se vem”, diz a guia Lucía Samengo. Se a frase faz todo sentido no que se refere às paisagens, faz mais ainda quando, na continuação do nosso passeio, o turista depara-se com um Cerro Catedral totalmente incomum. O lugar onde se esquia no inverno agora serve para mais um espetáculo de vistas.

Outra atração famosa é o Parque dos Arrayanes. As árvores de tronco alaranjado que dão nome ao lugar só nascem naquela região. Acredita-se que o cenário idílico tenha inspirado Walt Disney na produção do filme Bambi.

É mesmo difícil não se inspirar. O canto dos pássaros é constante, mesmo que não possamos vê-los – as árvores são muito altas. É lá também que encontramos o llao llao, espécie de fungo nascido nos galhos e que seria usado pelo povo mapuche – que povoava o lugar antes da colonização espanhola – para fazer um chá ritualístico.

E quando for a Bariloche, não pergunte sobre os alfajores Havana. Até há uma loja da famosa marca, mas o Rapa Nui é o produzido na cidade. A especialidade do lugar é o chocolate. Dentre todas as marcas que são vendidas no centro da cidade, a mais famosa é a Mamuschka, com combinações de sabores tão ampla que os chocólatras sofrem para fazer escolhas.

Mas chega a hora de partir. É noite em Bariloche e o sol só se pôs por volta das 21 horas. O pequeno aeroporto recebe quase que exclusivamente brasileiros. No voo lotado (e direto) prevalece o silêncio. Quem não está dormindo tem um olhar distante, como de quem volta ao mundo real depois de dias de fantasia. Porque Bariloche não parece de verdade. É quase um conto de fadas.

ROTEIRO:
CHOCOLATES/ALFAJORES
MAMUSCHKA
R. Mitre, 298, (54) 2944-423294. Os mais famosos chocolates de Bariloche. Vendidos por quilo.

RAPA NUI
R. Mitre, 202, (54) 2944 423779. Alfajores e chocolates de produção própria.

FICAR
LLAO LLAO HOTEL & RESORT GOLF SPA
Av. Bustillo, km 35, (54) 2944 448530. O famoso resort faz parte do circuito turístico. Tem spa, golf, academia e dois restaurantes. (eu fiquei lá! maravilhoso!)

SE AVENTURAR
NAHUEL GOGGIO
(54) 2944 15627417, ngbariloche@gmail.com
Guia de treking, rapel e moutain bike. Pode fazer os passeios tanto pelo Llao Llao, para hóspedes, como independente.

EXTREMO SUR
Morales, 765, (54) 2944 427301. Para fazer rafting e caiaque. No Rio Manso, o percurso é tão tranqüilo que mesmo crianças podem ir.

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Publicado na revista TAM nas Nuvens, edição 13, de janeiro de 2009

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