Quebrando regras

Estreei no dia 13 de março de 1985, mas, oficialmente, minha chegada a este mundo se deu dois meses depois. Por motivos até hoje desconhecidos, meu pai me registrou como nascido em 13 de maio. Bom, mas para quem cogitou me batizar de Eugênio, até que 60 dias a mais no registro do filho não é grande coisa.

A aversão às regras não parou por aí. Com um ano e pouco de idade, fui morar com a minha avó. Ouvindo meu pai e aquele bando de tios chamando-a de mãe, aprendi a chamá-la assim. Nada mais justo, afinal, foi ela quem me ensinou os valores que persigo até hoje e; percebo agora; foi uma das minhas incentivadoras em ser avesso a algumas regras.

Por exemplo: se eu não quisesse almoçar, ela não forçava a barra. Dizia: “Vou por seu prato no forno, então. Mais tarde você come”. E lá para umas duas da tarde, eu pegava meu prato – frio mesmo – e comia tudo. Minha avó me dava liberdade, mas me dava limites.

Se ela dizia que era hora de tomar banho, eu ia. Não pensava em desobedecer – não que tivesse medo de alguma punição – mas porque, simplesmente, concordava com ela. “Sim, é hora de tomar banho.” Está aí: eu sabia o que podia e não podia; podendo fazer tantas coisas, por que fazer aquelas que minha avó, tão liberal, não deixava?

Ao contrário dos meus colegas, eu não morava na cidade. Meu quintal era uma fazenda inteira, onde andava de bicicleta, brincava com coquinhos, insetos e, claro, minha caixa de brinquedos; comia frutas do pé, subia em casas de cupim, via peão matar cobra venenosa e, de vez em quando, até andava de trator.

Já em Porto Seguro, meu negócio era criar substâncias à base de plantas do jardim, desmontar relógios, colar pedaços de brinquedos e formar outros. Pensava em ser cientista, o que, na minha definição da época, era ser igual ao Professor Pardal.

No Ensino Médio, enquanto todos odiavam Redação, eu adorava. Enquanto achavam a aula de Geografia “errada” da forma como era (porque o professor falava de geopolítica, baseado nas notícias do dia), eu achava mais do que necessária. Eles pensavam em passar no vestibular, eu pensava em ser uma pessoa informada. E quando todos disseram que queriam ser médicos, advogados, eu disse, lá do fundão da sala: quero ser jornalista.

Se ninguém queria saber de mais nada além do vestibular, sequer do que acontecia no país em que viviam, por que iam pensar em seguir essa profissão esquisita? “Ah, tá! Tipo o William Bonner, trabalhar na Globo.” Eu nem lembrava que na TV tinha jornalistas… O que eu queria era que mais pessoas lessem minhas opiniões. Queria que se indignassem como eu me indignava com o governo FHC, com os Estados Unidos, com a industrialização da cultura (na época eu não usava este termo, apenas tinha o KLB como bode expiatório).

Até pouco antes do vestibular, eu achava que minha estréia no “articulismo de aula de Redação” tinha se dado lá pela 8ª série, mas não foi. Quando Ayrton Senna morreu, naquele 1º de maio de 1994, eu fiquei triste. Foi a primeira pessoa querida que saiu da minha vida (eu o considerava assim). A professora pediu uma redação sobre o piloto de Fórmula 1. Fiz uma espécie de rasgação de seda, do tipo que o Fantástico faz – mas a minha foi sincera. A “tia” saiu divulgando pela escola meu texto, como se tivesse achado um gênio entre os alunos.

Eu só tinha fugido às regras da redação escolar! Usei meu repertório – limitado; busquei uma nova linguagem. E até hoje é isso que procuro fazer em tudo que escrevo. Escrever bem, para mim, é o mínimo; é o que qualquer jornalista tem que fazer. Quero, pelo menos, escrever MUITO bem. Buscando, como Truman Capote dizia buscar, a verdadeira arte. É sempre uma busca. Não sou artista e, mesmo que assim me considerassem, teria que continuar à procura da perfeição.

Se me perguntassem, até minutos atrás, porque escolhi o Jornalismo, não teria resposta melhor do que… “Porque gosto de escrever”. Mas agora, relembrando essa minha “trajetória”, além de achar que o Jornalismo é que me escolheu (não o contrário), diria que vim até ele para quebrar regras. Não aquelas sagradas (como era a minha hora de tomar banho), mas aquelas que pedem para ser quebradas, como as do texto “objetivo”, como as da redação de escola, ou a escolha do curso no vestibular.

* * *

Embora eu não tenha gostado deste texto inicialmente, passei a gostar quando ele se tornou o responsável por eu ter sido selecionado para a segunda fase do processo seletivo do Curso Abril de Jornalismo. Ele responde à questão “Quem sou eu e porque escolhi o jornalismo como profissão”. Os felizardos serão conhecidos no dia 8 de dezembro. Quero estar entre eles mais do que quis estar no Curso Estado e na EPTV, minhas experiências anteriores em processos seletivos (em que morri na praia: parei na segunda fase dos dois). Atualmente, eu respiro revistas, e a Editora Abril, com suas 50 publicações, é um meu ideal de trabalho. Tomara que o grande Denis Russo, editor da Super Interessante, que me entrevistou, tenha gostado de mim e, mais do que isso, compreendido que empresa e eu temos a ganhar com minha classificação.

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3 Responses to Quebrando regras

  1. Leila Bonfietti disse:

    Oi Baiano … tudo bem?
    estava fuçando no orkut e acabei parando nessa página …. Seu texto ficou muito bom … parabens..
    O seu é quebrando regras e o meu superando limites … e tb terminei dizendo que foi o jornalismo que me escolheu … Bom agora eh esperar e torcer neh …
    Boa sorte pra gnt …

  2. […] em que fui “fã” de Luciano Pavarotti. Tudo porque, numa outra fase desconhecida da minha biografia, quando eu fazia aulas de piano, tocava La Dona e Mobile e, quando ouvi a música cantada por […]

  3. K. disse:

    Oi, realmente, concordo contigo…. todo jornalista deve escrever bem…
    mas, no dia-a-dia da redação, nem sempre você está feliz. E, geralmente, vomita o texto. Infelizmente.
    Depois de quase 10 anos de profissão (meu primeiro estágio foi aos 18 anos, cobrindo política, em um jornal regional), não tenho mais ilusões. Obviamente, existem inúmeras exceções. Mas, no geral, não vejo muitos “coleguinhas” orgulhos de suas obras “de arte”….
    Muitos dividem…. a escrita. Escrever para sobreviver ($$$), escrever por tesão.

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